Opinião

Água potável em pedra dura, tanto bate até que esgota

Jorge Antunes

Jorge Antunes

Diretor na Hitachi Vantara em Portugal

6 setembro 2022 10:22

“Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo”, escrevia Saramago. É assim que acredito que devemos encarar a atual situação de escassez de recursos hídricos, vivida um pouco por todo o país

6 setembro 2022 10:22

As inegáveis alterações climáticas trouxeram consigo aumentos de temperatura e períodos de ausência de precipitação que, ano após ano, se revelam gradualmente mais impiedosos. Agravando esta situação, existe o risco de exaustar os recursos de água potável no subsolo – os nossos aquíferos –, e desta forma criarmos espaço para ocorrer a contaminação dos mesmos pela água do mar. A médio-longo prazo, este impacto é imensuravelmente pior. Precisamos impreterivelmente deste recurso.

Quando limites ao consumo são impostos, agricultores veem a sua atividade restringida, populações desesperam e a economia definha, há que ponderar: existem soluções? Sim. Falta capacidade de decisão para as implementar? Não acho que seja o caso; penso que é, antes de mais, requerido que a vontade política se alinhe com a indústria.

Para já, tomemos como exemplo a ecovila de Tamera, no sul do Alentejo. Esta comunidade replica técnicas antigas para recuperar os circuitos de água. A sua eficiência logística na utilização de água das chuvas permite-lhes, hoje, ter água em fontanários e pequenas lagoas onde anteriormente existia uma zona de seca profunda. Isto cria, consequentemente, um impacto positivo profundo em todo o ecossistema em redor.

Este caso de estudo do uso sustentável dos recursos hídricos, diga-se, torna a minha posição clara como água: a gestão adequada destes é possivelmente o tópico mais crítico para o país, tendo em vista uma estrutura ambiental equilibrada para o futuro.

A dessalinização, enquanto uma das soluções com maior potencial para a produção alternativa de água potável, é um assunto cujo debate se arrasta há anos. Até ao momento, Portugal conta apenas com a estação de Porto Santo, na Madeira; os planos para a estação do Algarve, da qual muito se tem falado, mantêm-se exatamente nesse estado: planeados.

Um dos aspetos comummente apontados, enquanto crítica a esta implementação, fundamenta-se no investimento avultado que as grandes centrais exigem; a minha visão aqui difere: porque não apostar em estações mais pequenas, para termos um maior número de pontos de distribuição, e um foco na microprodução?

Neste âmbito, as estações de dessalinização vão-se aproximando de nós enquanto uma realidade cada vez mais plausível: têm a seu favor o progresso tecnológico. Existem já mecanismos que conseguem efetuar a conversão da água do mar em água potável recorrendo a fontes de energia renováveis que, como é sabido, são abundantes no nosso país; o uso das alternativas solares e eólicas pode mesmo permitir a criação de soluções autónomas. Portugal tem talento para tal e as tecnologias estão disponíveis – urge investir.

É fulcral que, mais do que financeiro, o custo com maior peso em consideração, nesta busca por soluções que consigam servir a população, seja o ambiental. Independentemente da solução que se encontre, o seu impacto ecológico deve ser sempre o menor possível. Por outro lado, há um trabalho que acredito que deve ser começado desde já para anteciparmos a necessidade de “tapar buracos” mais tarde.

Factualmente, ocorrem perdas e fugas de água nas redes de distribuição de águas em Portugal; a manutenção e reparação destas deve também estar no topo da lista de prioridades quando se fala de alternativas para a obtenção de água – aumentando desde logo a nossa eficiência no consumo, através da anulação do desperdício.

Qualquer obstáculo na obtenção de água terá sempre repercussões severas na sociedade. A economia, por seu lado, depende também da abundância deste recurso, pelo que se torna imperativo focar-nos na adoção de soluções que gerem um fluxo estável no fornecimento de água para os sectores mais afetados. A expressão popular diz-nos que “só faz falta quem está”. Preocupemo-nos, então, em materializar este ditado agindo não necessariamente com pressa, mas enquanto temos tempo e recursos hídricos aos quais recorrer.