Opinião

PS: contrafacção e fancaria

5 setembro 2022 9:27

António "Macbeth" Costa livrou-se, sem pena nem pudor, de António José Seguro, Pedro Passos Coelho, Joana Marques Vidal, o seu antigo rei de quem foi imediato, José Sócrates, Jerónimo de Sousa e Catarina Martins. Mas, tal como Macbeth na peça escocesa, "oh, cheio de escorpiões na cabeça", também Costa não se contenta com o que tem: urge afastar as ameaças e eliminar a sucessão

5 setembro 2022 9:27

Nesta altura em que escrevo estas linhas ainda não se sabe quem substituirá Marta Temido, no Ministério da Saúde. E parece que é o assunto do momento. Lamento desiludir-vos não alimentando essa ninharia: este conservador não se entusiasma particularmente com os amanhãs que cantam, e alimenta uma predilecção pelas aprendizagens que lhe chegam do passado.

E o que é que o passado tem para nos ensinar a este propósito? Que António Costa - já o tinha dito por aqui há uns meses - é uma espécie de Macbeth da política portuguesa, e é por isso mais provável encontrar-lhe uma vítima ao virar da esquina do que um promovido. Com uma diferença não desprezível: enquanto que a história do escocês foi inventada e narrada, para a posteridade, em Upon Avon pelo bardo inglês, a história do Costa é urdida pela sua própria mão e registada, na efemeridade habitual, na baixa política por avençados de toda a sorte. Deixando de lado esta diferença, centremo-nos nas semelhanças.

A história da peça escocesa é conhecida, mas deixo aqui as linhas gerais: Macbeth, vindo de uma batalha vitoriosa, acompanhado do seu amigo Banquo, encontra umas bruxas na floresta que lhe auguram o trono. Qual profecia autorrealizável, Macbeth decide acabar com a vida do Rei (não ignorar nisto a cupidez de Lady Macbeth: a libido dominandi do PS, na nossa contrafação dramatúrgica) para que o poder absoluto seja finalmente seu. Durante e depois disso, mata e manda matar todos os que se atravessam no seu caminho, não escapando à sina sangrenta sequer Banquo (a quem tinha sido profetizado, para a sua descendência, o trono também).

Voltando à nossa pequena companhia, vimos ao longo dos anos, António "Macbeth" Costa livrar-se, sem pena nem pudor, de António José Seguro, Pedro Passos Coelho, Joana Marques Vidal, o seu antigo rei de quem foi imediato, José Sócrates, Jerónimo de Sousa e Catarina Martins. Mas, tal como Macbeth na peça escocesa, "oh, cheio de escorpiões na cabeça", também Costa não se contenta com o que tem: urge afastar as ameaças e eliminar a sucessão.

Nesta representação amadora, mas quiçá superiormente sanguinária, Costa contrafaz Shakespeare: aqui é ele quem dita as regras, e ultrapassa o bardo em cinismo. Há uns meses, aquando do Congresso do PS, o país, qual palco desta opereta, foi iluminado com a narrativa do friso dourado de putativos sucessores de António Costa: Fernando Medina, Pedro Nuno Santos, Mariana Vieira da Silva e… Marta Temido.

Sorridente, magnânimo, um tanto quanto bonacheirão e muito condescendente, Costa parecia anunciar um futuro de ouro para o seu partido e para o seu país, ao mesmo tempo que se posicionava num lugar inalcançável no Olimpo da política.

Não durou muito tempo.

Fernando Medina, essa inexplicável figura cujo talento político é inversamente proporcional às ajudas públicas que foi tendo ao longo da sua carreira, mostrou quem era com o episódio de Sérgio Figueiredo. Não falo do alegado histórico de favores trocados entre a Câmara Municipal de Lisboa e a TVI. Nisso, é só mais um barão do Largo do Rato. Falo da desistência de contratar alguém que não Sérgio Figueiredo para uma função que era tão importante. Só que, afinal, não. Costa, ante este sonoro trambolhão, respondeu com um lacónico "não tenho nada a ver com isso".

Pedro Nuno Santos, no afã de se demarcar da charanga inoperante chamada Governo, toma uma decisão inacreditável e tonitruante sobre o novo aeroporto de Lisboa. Costa desautoriza-o no minuto seguinte, mas não o demite, deixando-o exposto e mergulhado na agonia da sua subalternidade. Dead man walking, sussurraram os bobos. Costa sorriu.

Mariana Vieira da Silva, a visionária, enquanto o país ainda chora a perda da Serra da Estrela, anuncia: no futuro a Serra será melhor. Costa responde com silêncio. Um silêncio a lembrar aquela música do Pedro Abrunhosa: Silêncio, imenso / E dor, e pior meu amor / A lembrança que descansa / Os olhos teus nos meus / Adeus. Sublinhar a parte do Adeus.

E depois Temido, que foge pela calada da noite, gritando basta a anos de uma relação sadomasoquista - mais maso do que sado - com o líder. Costa, fresco e informal, aparece nos jardins de São Bento dizendo que "desta vez" a vai deixar ir. Mas não sem antes lavar a latrina.

Costa, com o seu toque anti-Midas, transformou no espaço de pouco mais de um mês o friso de ouro em fancaria. E fê-lo sublinhando o contraste entre si e os jovens turcos.

Dizia lá atrás que urgia eliminar a sucessão. Porquê? Porque a aridez à sua volta convém a um fraco líder, mas combina com um forte chefe. Aos políticos, depois da conquista do poder, já só sobra a história sobre o legado. E qual é o legado de António Costa? Nada que justifique orgulho: o SNS em coma, a maior carga fiscal da história, a baixa competitividade da Economia, a Educação em agonia? Isto, convenhamos, não é legado, é cadastro. Costa empenhar-se-á em mandar dizer que a culpa foi do Passos, da pandemia, da guerra e, nas falhas sectoriais, dos seus subalternos. E que, contra tudo e apesar de todos, foi o adulto na sala. E não haverá quem por aí se disponibilize para a tarefa. Mas pergunto: será esta, uma vez mais, a história deste interregno de país que deixaremos contar?

Certo certo parece ser que o futuro próximo do PS promete ser agitado. Porque enquanto Costa, como Macbeth, crê "que se enganam os outros com nossa aparência mais serena. [E que] aquilo que sabe o coração falso, a cara falsa deve esconder", muitos por lá sabem que “a excessiva confiança é o maior inimigo do homem.” E talvez o tempo que falta para terminar a legislatura seja um tempo demasiado longo para Costa andar a olhar para trás das costas.