Opinião

Água mole em pedra dura...

Ana Gabriela Cabilhas

Ana Gabriela Cabilhas

Presidente da Federação Académica do Porto

11 agosto 2022 15:51

Assinala-se esta sexta-feira o Dia Internacional da Juventude. Nos últimos anos, celebrar a juventude tem sido refletir sobre formas de superar as circunstâncias de vida de sucessivas gerações que têm vivido sucessivas crises

11 agosto 2022 15:51

Desde 2000 que se comemora a 12 de agosto o Dia Internacional da Juventude. A história avançou no reconhecimento do potencial da juventude enquanto agente de mudança, mas ficaram por escrever, ano após ano, páginas de superação, com respostas concretas para os problemas dos mais jovens.

Perseguindo os objetivos que estiveram na sua origem, em que cada país avalia como coloca os meios e os recursos à disposição dos jovens, a apreciação que fazemos não merece nota positiva. Prova disso, é que 2022 foi proclamado Ano Europeu da Juventude. Nos últimos anos, celebrar a juventude tem sido refletir sobre formas de superar as circunstâncias de vida de sucessivas gerações que têm vivido sucessivas crises. Não será isto um contrassenso?

Segundo dados do Eurobarómetro, os jovens portugueses identificam o combate às alterações climáticas, a melhoria das condições de saúde e bem-estar, o combate à pobreza, às desigualdades, ao desemprego e à falta de emprego digno, como temas principais em que o Ano Europeu da Juventude se devia centrar.

Estas estatísticas são elucidativas do nível de preocupação imediata dos jovens com a criação de oportunidades para a sua emancipação condigna. O Estado da Nação, recentemente em debate público, corrobora estas preocupações, com destaques preocupantes: “entre os jovens, as desigualdades no acesso à habitação são marcadas pelas diferentes condições económicas dos pais”, evidenciando a enorme dificuldade de o país corrigir desigualdades. Sem suporte parental, os jovens têm de gastar grande parte do seu salário em rendas. Ao mesmo tempo, evidencia-se que “a particular fragilidade dos jovens portugueses face ao desemprego prende-se (…) com a sua elevada exposição a vínculos contratuais precários”. A taxa de desemprego dos jovens portugueses entre os 15 e 24 anos é 3,6 vezes mais elevada do que a taxa de desemprego total, sendo a diferença em Portugal maior do que na UE e com tendência para aumentar. Acrescenta-se que “a parentalidade implica estabilidade financeira, o que para as gerações mais jovens é cada vez mais difícil de conseguir”.

Para além da agenda própria de quem é jovem, o nosso compromisso também passa por deixar cidadãos melhores para este mundo e um mundo melhor para todos os cidadãos.

As alterações climáticas são o maior problema do nosso tempo e a geração anterior falhou neste combate. Esta é uma das injustiças intergeracionais mais grave, que hipoteca o futuro tal como o sonhamos.

A dependência das gerações futuras em relação às ações e opções da geração presente intensificou-se com as mudanças rápidas e abruptas a nível tecnológico, demográfico e social, o que obriga a Juventude a reclamar por um compromisso entre gerações.

Este ano, o Dia Internacional da Juventude é dedicado à Solidariedade Intergeracional. A questão que se impõe é: As gerações atuais têm sido solidárias e justas em relação às gerações futuras, incluindo as gerações mais jovens como a minha? Ainda que as intenções possam ser as melhores, a resposta é não!

A incerteza e o desalento moram no lugar-comum de muitos jovens como eu... Um lugar visto apenas através dos nossos olhos e não pelo olhar dos nossos governantes.

O modo de ver, de estar, de pensar e de agir são diferentes de geração em geração. Como tal, o que peço é precaução, empatia e sentido de futuro. Precisamos de um novo equilíbrio que respeite as gerações de netos, pais e avós...

Temos vivido o presente, como se não houvesse amanhã. Os nossos governantes só vêm as eleições seguintes e não as gerações seguintes. Enquanto assim for, continuaremos com persistência e tenacidade, a reclamar por mais solidariedade e equidade entre gerações, até que um dia possamos olhar o futuro com mais otimismo! Ou por outras palavras, água mole em pedra dura tanto bate até que um dia vai ter mesmo que furar...