Opinião

Sabem os portugueses nadar?

5 agosto 2022 5:15

Talvez não. Ortigão sabia. Camões sabia. Agora o mar serve para refrescar da torreira

5 agosto 2022 5:15

Quando era miúdo, fazia-me confusão descobrir que os pescadores de uma pequena traineira não sabiam nadar. Normalmente, esse dado era tornado público quando acontecia alguma desgraça no mar. Havia mesmo um racional: os pescadores não sabiam nadar porque assim “era melhor” para eles caso a embarcação se afundasse em alto mar. Tolice. Vem isto a propósito da desconfiança de que, nesta pequena traineira que é Portugal, os portugueses não saibam nadar, embora não o admitam. Uma coisa parece certa: se sabem, não o demonstram, ou não têm prazer nisso. É raro ver alguém a nadar no mar. E se não nadam culpam os perigos do mar. Isto é o Atlântico, cuidado. As próprias autoridades admitem que os banhistas deviam receber formação para reconhecer os agueiros — as correntes que puxam para o largo —, e assim se conseguiria evitar a maioria das fatalidades. Mas a questão é que o mar perdeu a sua utilidade recreativa de ser um espaço para nadar e jogar com bola “sem pé”. O grande oceano reduziu-se a um efeito cénico e a uma utilidade de bidé: serve para “se molhar”. Umas cacholadas nas ondas no máximo. O mar é um anexo à areia. E nadar foi-nos útil.

Espera-se que os surfistas saibam nadar e que os nadadores-salvadores também. Há vários programas de TV no cabo em que a única coisa que é mostrada é a estupidez dos banhistas que não obedecem às ordens dos nadadores-salvadores (Austrália e Brasil) e quase morrem. Não obedecer a uma indicação de um nadador-salvador é uma estupidez que pode ser fatal e vê-se constantemente. Mas em muitos dias de verão, em muitos dias férias... o mar é uma plácida poça de água onde se poderia nadar. Mas tal não acontece. O “ir nadar” — enquanto decisão súbita e determinada — perdeu-se.