Opinião

Pecados do Sul, azares do Norte

5 agosto 2022 0:02

Pagámos para ser energeticamente autónomos e quem, com mais recursos, não o quis fazer exige que paguemos a fatura. Em 2011 pagámos pelas nossas fragilidades; em 2022 nada ganhamos com as nossas vantagens

5 agosto 2022 0:02

Berlim mandou apagar as luzes do Obelisco da Vitória, do Palácio de Charlottenburg e da Câmara Municipal. Prepara-se para um inverno em que, ainda assim, dificilmente os seus cidadãos passarão o frio que os portugueses mais pobres passam todos os anos por terem casas degradadas e pouco dinheiro para as aquecer. E exigem a solidariedade de todos para lidar com o momento em que a Rússia cortará a torneira do gás a quem baseou uma parte do seu crescimento na dependência da sua energia barata. Esta é uma boa altura para recordar os termos das relações europeias. Na última crise financeira, alguns países foram castigados por estarem mais expostos ao aumento das taxas de juro. Ao contrário do que reza a lenda, a nossa dívida pública estava, até 2009, em linha com a média europeia — a alemã era 73% do PIB, a francesa 83%, a belga 100% e a portuguesa 75%. Mas a nossa alta dívida externa, a que uma moeda desadequada à nossa economia não é estranha, deixou-nos vulneráveis. Uma crise bancária transformou-se na crise da dívida soberana. Temendo o incumprimento, que deixaria a banca alemã exposta a uma renegociação das dívidas grega e portuguesa, Comissão Europeia, BCE e FMI foram os cobradores de fraque. A dívida a bancos privados foi transferida para as instituições europeias e só aceitando um sequestro os dois Estados mantiveram acesso ao crédito. Impôs-se uma “desvalorização interna”, que, com efeitos mais estruturais, simulava a impossível desvalorização cambial.