Opinião

Caiu a proteção das mulheres nos Estados Unidos?

Julie Machado

Julie Machado

Mestre em Teologia

4 julho 2022 13:04

Houve mais uma vitória para a “maioria silenciosa” nos Estados Unidos, e agora o aborto passa para o nível da discussão e legislação dos estados. Quem vê só as notícias convencionais pode ficar sem perceber como isto foi possível. Talvez fosse um erro Trump ter conseguido nomear três juízes que agora votaram neste sentido?

4 julho 2022 13:04

De acordo com a Constituição americana, é o presidente quem nomeia novos juízes para o tribunal supremo, quando um destes morre. Não especifica se é no início ou no fim da sua presidência, mas é durante todo o período no cargo.

Há inúmeros grupos estudantis e cívicos quem trabalham na sensibilização pró-vida há décadas (Live Action, Students for Life, And Then There Were None de Abby Johnson, por exemplo). Estes grupos vêm conquistando cada vez mais gente nova, independentemente do seu quadrante político ou religoso. De acordo com o Institute Guttmacher, 26 estados (dos 50) terão leis que certamente ou provavelmente abolirão o aborto, agora revogada a lei federal. Isto quer dizer que as pessoas desses estados votam em governadores e outros políticos que promulgam essas leis. Tal como Trump ganhou legitimamente as eleições, para o grande espanto dos media e das celebridades de Hollywood, esses governadores e políticos da maioria dos estados dos Estados Unidos também ganharam legitimamente as suas eleições. Qualquer candidato americano se pronuncia sobre a questão do aborto e isso é tido em consideração por quem vota.

Como é possível haver pessoas contra o aborto? Agora é o tempo certo para a discussão civil, local e política sobre este assunto polémico. Um lado foca-se muito na mulher, desprezando o bebé, e o outro lado foca-se muito no bebé, acusado de ser insensível aos problemas da mulher. Há uns anos o lado pró-vida lançou o lema “salva os dois”, para tentar encontrar pontos em comum e diálogo entre os dois lados. Realmente a mulher que procura o aborto geralmente está numa situação muito frágil e delicada, e a sensibilidade para com ela nunca pode ser demais. Todos queremos o maior bem para a mulher e para o futuro da sociedade. O aborto realmente protege as melhores? Aqui seguem alguns pontos para o debate.

O aborto legal tem cumprido os objetivos que prometeram em 1973? No início do debate sobre o aborto, todos argumentavam que o aborto deveria ser “raro e seguro”. Até Joe Biden diz num vídeo de 2006: “Eu não vejo o aborto como uma escolha ou direito, acho que é sempre uma tragédia. E eu acho que deve ser raro e seguro. Acho que devemos focar-nos em como limitar o número de abortos.” Não existe nenhum estudo que mostre que as mulheres morrem menos em aborto legal do que morriam antes de 1973 em aborto menos acessível. Também, os defensores do aborto agora defendem nenhumas restrições e até o momento do parto, já não “raro e seguro”. Em alguns casos até depois do parto, como agora se debate numa lei na Califórnia. Cada vez se alarga mais as restrições: até ao parto, se querias menino, mas é menina, se tem deficiência, etc.

O aborto legal é mais seguro para a mulher? O aborto é um procedimento extremamente invasivo, em que complicações são comuns e pouco registadas. Nos Estados Unidos ainda morrem mulheres todos os anos de complicações de aborto legal. Também acontecem perfurações uterinas, lacerações, perdas de sangue, infeções, coagulação intravascular disseminada e outras complicações. Pode ter efeitos adversos a longo prazo na fertilidade da mulher.

O aborto é só “cuidado de saúde”, técnico, como quem arranca um dente danificado? Não acontece que algumas mulheres se arrependam ou sofram outros efeitos emocionais? Alguns estudos como este indicam um luto emocional depois de um aborto. O que é certo é que uma mulher que procura aborto está numa situação vulnerável, muitas vezes com condições que não lhe favorecem uma gravidez. O aborto é um procedimento que causa trauma em cima de trauma, muitas vezes já existente. Se já perder um bebé por aborto natural pode causar tanta tristeza e luto numa mulher, então por aborto provocado ainda mais dúvidas e incertezas a acrescentar.

E as mulheres que vão morrer com gravidezes ectópicas agora? É importante esclarecer que isto nada tem a ver com o assunto. A legislação não vai mudar em nada esses tratamentos. Tratamento para gravidezes ectópicas não é aborto. Tratamento para um aborto que aconteceu naturalmente não é aborto. Tratamento para útero séptico não é aborto.

Quem recorre mais ao aborto? O aborto está ligado à eugenia? A fundadora da Planned Parenthood, Margaret Sanger, escreveu claramente que o aborto podia eliminar ou reduzir as populações afro-americanas e pessoas com deficiências. Hoje, nos Estados Unidos, uma mulher afro-americana tem três vezes mais probabilidade de recorrer ao aborto. Não é por acaso, pois a Planned Parenthood tem mais centros e faz mais publicidade em bairros pobres, especialmente de afro-americanos. Obianuju Ekeocha descreve no seu livro Target Africa: Ideological Neocolonialism in the Twenty-First Century, como a Planned Parenthood e outras organizações impõe abertamente o aborto como prioridade no continente de África, por vezes fazendo depender outras ajudas alimentares ou financeiras desta condição.

Os centros de aborto encobrem crimes como abuso, violação e tráfico sexual? Sim, e mudam dados biográficos, como a idade da mulher, sem escrúpulos nem investigação criminal. Existe muitas vezes só uma pessoa responsável e numa posição para assinalar uma jovem grávida que entra num centro de aborto, vítima de um destes crimes, e essa pessoa é quem lhe inscreve para um aborto. Lila Rose, fundadora da Live Action, fez a sua primeira investigação disfarçada em centros de abortos para testar os estudos que apontavam para este encobrimento. Quando ela fingiu ser uma menor com um parceiro bastante mais velho, sugeriram que ela escrevesse que tinha 18 anos na folha e pressionaram-na para o aborto. Há vários vídeos deste género feitos pela Live Action. Confrontando estes factos com a Polícia, que tratava de abusos sexuais de menores, eles disseram à Lila Rose que nunca tinham recebido sinalizações de jovens de centros de aborto.

Alguma empresas americanas têm anunciado que pagarão para as suas empregadas irem para outro estado para abortar. É importante salientar que este gesto, aparentemente bondoso, fica mais barato do que pagar licença de maternidade à mulher. E será mais vantajoso para a empresa a mulher abortar do que ficar uns tempos sem trabalhar.

A única coisa da qual o aborto protege a mulher é da maternidade. Quanto mais sozinha se sentir, mais o aborto parecerá solução. Onde está o homem que a engravidou? Onde está a aldeia que é precisa para se criar uma criança? Onde estão as empresas dispostas a pagar licença de maternidade, tão dispostas pelo que dizem a apoiar a mulher? Alguns dizem que eliminar ou reduzir o aborto é um “retrocesso civilizacional”, mas isso é porque se desvaloriza a maternidade.

Seria positivo se este assunto do aborto não resvalasse em violência e ofensas pessoais. Está novamente o assunto em cima da mesa, tanto nos Estados Unidos como em Portugal. É uma oportunidade para o diálogo, apesar das diferenças, e para mais discussão científica, académica e política.