Opinião

Os assassinos de planetas

27 maio 2022 0:36

Com a viragem do milénio quis a providência que as sementes do pós-modernismo, semeadas em Paris a partir dos anos 70, germinassem, com o propósito de abolir a realidade e instituir o império das narrativas

27 maio 2022 0:36

Aguentar a pobreza deve ser mais fácil para quem não conheceu outra vida, como é o nosso caso, portugueses. Durante séculos exportámos gente, expulsa pela miséria, e trabalhámos, comerciámos, saqueámos e vadiámos, à procura de um modo de vida. No século XIX inventámos a tese extraordinária, anteriormente esboçada nas advertências do velho do Restelo, de que as aventuras ultramarinas tinham sido a nossa perda. Encher o país de socalcos, para fabricar solo de cultivo, teria sido certamente mais avisado. Seja como for, foi uma das primeiras e mais bem-sucedidas das nossas narrativas. Quando a realidade é madrasta há sempre uma qualquer narrativa para a qual nos podemos mudar, e nela assentar, consoladoramente, arraiais. As narrativas constituem uma vocação endémica naqueles a quem os ingleses chamam de “chattering classes”, a agremiação privilegiada, progressista ou reacionária que domina o espaço público.