Opinião

A minha escola e a escola do Francisco

Eunice Lourenço

Eunice Lourenço

Editora de Política

28 abril 2022 10:16

Na gestão das escolas, a centralidade tem de ser dada à educação e às necessidades dos alunos e não a regras cegas que motivam mudanças a dois meses do fim do ano letivo, desestabilizando as crianças e o processo educativo

28 abril 2022 10:16

Gostei muito de andar na escola. Escola pública, na primária de Vila Verde, na preparatória da Merceana, na secundária de Alenquer. Mais: fui muito feliz na escola. Isso deve-se ao contexto familiar, à minha vontade de aprender e predisposição para a felicidade, aos colegas e amigos que ainda hoje fazem parte da minha vida, mas sobretudo ao talento, disponibilidade e vocação de tantos professores. Da professora Electa, na primeira classe, que se mudou da serra da Estrela para uma aldeia no sopé da Serra do Montejunto, à professora Linda, que nos fez querer agradecer a todos os professores que marcam uma vida, à Ana Magalhães que se despediu de nós com quadras em inglês personalizadas para cada um. E até mesmo à professora Albertina, que podia ter posto em causa a minha entrada no curso que queria.

Passei anos muito felizes numa escola sobrelotada, com estores a caírem ou a fazerem leque, sem pavilhão para educação física, sem refeitório a funcionar durante maior parte do tempo. Mas com professores dedicados. Uns mais que outros, claro. É assim na escola como em qualquer outra profissão. Por isso, me custa tanto ver desperdiçados professores que gostam de ensinar, de puxar pelos alunos, professores por vocação e com inspiração. Por isso me custou ler, um destes dias, uma das professores que mais marcou a minha vida a queixar-se de como as burocracias e determinações centralistas a fazem perder a paciência para ensinar. Por isso, me custa muito o desabafo da minha amiga Célia, diretora de recursos humanos numa multinacional, que vê os seus sonhos para o filho mais novo serem postos em causa por regras cegas.

“Tenho três filhos e o mais novo está no primeiro ano da EB de Paredes em Alenquer. Se temos sonhos para todos os filhos, os meus sonhos para o meu filho Francisco são grandiosos. Sonho que seja tratado como todos os colegas da turma, sonho que esteja integrado em todas as atividades, sonho que tenha todas as oportunidades para aprender, sonho que acreditem tanto nele como eu acredito sonho que tenha um projeto educativo, sonho que não me roubem os sonhos… Como também sou uma pessoa de Fé, acredito na possibilidade de uma Educação Inclusiva em Portugal, não apenas aquela que foi aprovada em Julho de 2018, através do Decreto-Lei nº54. O meu sonho vai além dessa Educação inclusiva no e do papel, centra-se na mudança de mentalidade, no enterro do preconceito na capacitação de todos os intervenientes educativos, na humildade de fazer caminho lado a lado, de não ter medo de desafiar as leis administrativas para fazer acontecer o sonho: A Inclusão em Portugal!”, escreveu ela nas férias da Páscoa, angustiada com as mudanças na escola do Francisco.

“Vivi 6 anos a pensar como iria correr a entrada na escola do meu filho Francisco, que tem Síndroma de Down. Desde os 5 meses que trabalhou mais de 6 horas por dias em terapias e programas de desenvolvimento como o objetivo de expandir as suas capacidades, de potenciar o seu desenvolvimento neurológico. Um lutador, de apelido Resistência… Chegado o momento de entrada no primeiro ciclo, optámos pela Escola Pública – EB de Paredes no Agrupamento Damião de Goes em Alenquer. Mais uma vez com todos os sonhos e com a certeza de que seria o melhor lugar para encontrar amigos, aprender, crescer e ter todo o apoio para esta nova etapa. Embora tenha achado estranho que a turma do Francisco, com mais algumas crianças ao abrigo do DL 54/2018 tenha sido a única turma de 1º ano sem professora atribuída no início do ano, rapidamente as duvidas amenizaram com a colocação imediata de uma professora – Liliana Gregório, embora com contrato de substituição temporária, previsivelmente até ao final do 2º Período, uma vez que a primeira professora colocada tinha colocado baixa imediata. Rapidamente todos os pais se esqueceram que aquela professora poderia não ficar até ao fim do ano, tal foi o SONHO que alimentou em cada família”, continua a Célia que, à beira do terceiro período viu os seus sonhos para o Francisco e a sua confiança na escola pública serem abalados.

Na Liliana tinha encontrado “uma professora com uma abordagem prática, com uma elevada capacidade para fazer as necessárias adaptações curriculares para as crianças com essas necessidades. Acima de tudo uma professora que acredita nos alunos, que os faz sentir isso, que os leva a darem tudo o que têm no processo de aprendizagem, que os faz sentirem-se especiais e, acima de tudo, felizes”. A Célia e todos os pais tinham-se esquecido que a Liliana era uma professora a prazo.

“"É colega ou é contratada?"?!?!?!?” – esta pergunta foi dirigida numa escola a Mónica Morgado, professora de Português/Espanhol, que este ano letivo está a dar aulas em Almada, que só vê a família ao fim de semana, que queria ser professora aos 4 anos, e que fez um esforço enorme para não começar a chorar no programa "É ou não é?", debate na RTP 1. Esta pergunta podia ter sido feita à professora Liliana, que apesar de ser paga pelo Estado até agosto se viu substituída na turma do Francisco. Mas também podia ter sido feita à sua substituta, igualmente contratada e a viver a 300 quilómetros de Alenquer, há quase 20 anos a tentar efetivar-se mais perto de casa.

Voltando à minha amiga Célia, ela conta: “Repentinamente soubemos, em formato de boato, que a professora inicialmente colocada iria voltar. Normal… mas que a Direção do Agrupamento não conseguia encontrar outra solução que não fosse colocar esta professora (que os meninos não conhecem, nem ninguém no agrupamento porque é contratada e nunca lá esteve) a dar aulas a esta turma! Faltam pouco mais de 2 meses para as aulas terminarem. Não haverá outro trabalho, nem que seja de apoio, para esta professora poder exercer a sua atividade? Virá com horário reduzido… assim, estas crianças além de perderem a professora com quem iniciaram esta viagem do primeiro ano, ganham uma que não tem todo o tempo para elas e ainda um outro que virá fazer mais umas horas, a encher tempo provavelmente….”

No dia em que conheceu a professora nova, o Francisco disse “tu não és a minha professora, a minha professora é a Liliana”. E a mãe, como várias outras mães, pergunta: “Onde cabe a centralidade da Educação? Onde está o respeito e o esforço por uma Educação Inclusiva? Não é necessário ser psicóloga (que por acaso até sou) para enumerar os potenciais efeitos psicológicos nas crianças e as possíveis regressões de aprendizagem, especialmente das crianças ao abrigo do DL nº54/2018. Estarão os meus olhos e as minhas emoções de mãe a ver e sentir tudo isto de forma exagerada e deturpada? Não me parece… Não me conformo que não exista ninguém que consiga fazer nada para manter a estabilidade destas crianças… são pouco mais de dois meses até ao fim do ano!”

A Célia escreveu, em nome dos outros pais, à direção do agrupamento e não teve resposta. Escreveu ao vereador responsável pela educação e vice-presidente da câmara que lhe respondeu, manifestando solidariedade, mas incapacidade. Como tem meios e condições, contratou a Liliana para dar apoio ao Francisco em casa. Mas este não é um problema do Francisco, nem da Célia, é um problema da escola pública, sempre que põe as regras sobre colocação de professores à frente dos interesses dos alunos.

“Infelizmente ainda não temos pessoas à frente das Direções dos Agrupamentos que saibam o que significa “inclusion centricity”. E isso não é só para alguns alunos, é para todos! Porque uns têm Síndroma de Down ou Autismo ou Paralisia Cerebral e outros têm baixa autoestima, dislexia, ou feridas emocionais para curar. Uns gostam de brincar à chuva e outros têm medo dos trovões, uns gostam de pintar e outros de correr. E é com esta diversidade de estar, ser e sentir que TODOS NÓS podemos ser pessoas melhores. Quando cada Diretor de Agrupamento sentir e viver a “Inclusion centricity”, o que está a acontecer na turma do meu filho não acontecerá porque nada se sobreporá ao bem-estar e ao sucesso do projeto educativo de cada criança. E a gestão de um agrupamento não se pode fazer administrativamente na gestão de contratos e leis, para isso não são necessários agentes educativos à frente de agrupamentos, tem de se fazer na busca constante de soluções para os problemas do dia-a-dia, nunca perdendo de vista quem é central em todo o processo, e seguramente não será o ego dos intervenientes! São as pessoas que constroem o Sistema Educativo, mas quando estão presentes dificuldades em abandonar velhos hábitos e a procura de desculpas que escudam atitudes de pouca coragem, então prevalece a rigidez…”, escreve a minha amiga, que, apesar de tudo o que aconteceu, diz que continua do lado do sonho.

“Continuo do lado do Sonho, que continuará a comandar a minha vida! Ainda sonho que alguém conseguirá reverter esta situação totalmente desprovida de sentido e de emoção. Estaremos assim tão mal de Inteligência Emocional na Educação, que ninguém consegue ter empatia?”, pergunta a minha amiga que escolheu para os filhos mais novos a escola pública, naquilo que é hoje um agrupamento com muito melhores condições físicas e que tem o nome da escola onde andámos e fomos felizes.