Opinião

As fronteiras não são barreiras

19 abril 2022 11:44

José Alberto Azeredo Lopes

José Alberto Azeredo Lopes

Professor de Direito, ex-ministro da Defesa Nacional

Na Europa, durante algum tempo, a falta de uma visão estiolou-nos, virados para dentro, sempre a tentarmos sarar feridas. Mas, de repente, um facto internacional (que bem dispensaríamos) obrigou-nos a enfrentar os nossos fantasmas, juntou-nos. Antes, a crise financeira impusera-nos, à bruta, repensar visões monolíticas. E até a covid-19 nos fez perceber que, sozinhos, cada um por si, éramos nada. Nada mesmo

19 abril 2022 11:44

José Alberto Azeredo Lopes

José Alberto Azeredo Lopes

Professor de Direito, ex-ministro da Defesa Nacional

Da Ucrânia tem-se falado muito. Mais: quase só se fala da Ucrânia. Esta crise, tão grave como é, com consequências de impacto duradouro e ainda imprevisível. Infelizmente, a Ucrânia demonstra como factos que acontecem a milhares de quilómetros atingem no local quem tanto sofre tantos horrores, mas atingem-nos também no quotidiano e nas nossas vidas. É saber empírico, feito pelo porta-moedas, de cada vez que vamos ao supermercado ou encher o depósito do carro.

Por outro lado, no meio desta tragédia humana, esmagados por um tempo e espaço quase instantâneos, alcançamos a importância de uma Universidade que prepare para um mercado que é, de vez, interdependente, complexo, multidisciplinar, concorrencial, aberto e inovador. Por hábito antigo, é uso ligarmos a inovação à tecnologia, à descoberta científica, a projetos internacionais com coexistência de saberes científicos, de múltiplas proveniências. Mas o objetivo da internacionalização perpassa todos os ensinos e todas as áreas, incluindo o Direito.

A internacionalização é, sob este prisma, mais do que o número de artigos em publicações de referência. Poderá, até, ser algo de mais básico, mas mais exigente. Significa aceitar algumas opções de fundo, como a lecionação em língua inglesa, ou dissertações de mestrado ou doutoramento que possam ser redigidas, e avaliadas, noutras línguas.

O segundo pilar “desta” internacionalização é a interdisciplinaridade. Mas uma que seja real, não apenas para aqueles saberes que se “acha” poderem ter efeitos no mercado ou na empregabilidade. Ao contrário do que alguns pensarão, a entrada no mercado será tanto mais facilitada quanto aquele que se apresenta à porta puder mostrar formação sólida na sua área principal, mas não menos consistente noutras áreas e, nomeadamente, na das Humanidades. Trata-se, por isso, de uma nova grelha de leitura da realidade, mais completa e culta, mais rica e humanista. Quanto mais a formação for integrada, mais a mobilidade pessoal e profissional estará facilitada. Por exemplo, como seria possível (entendo que não é) ler o mundo que nos rodeia sem algum conhecimento de História? Como é que podemos considerar que a formação está completa sem a transmissão de alguns conhecimentos de estratégia, nas suas várias dimensões?

Chegamos, então, ao terceiro pilar da internacionalização da formação académica. A esse chamo, com algum carinho, o “Erasmus” interior. Sabemos, e a ideia não me pertence, como o Programa Erasmus fez mais pela identidade europeia do que quaisquer decisões de fundo naquela organização.

Na Europa, durante algum tempo, a falta de uma visão estiolou-nos, virados para dentro, sempre a tentarmos sarar feridas, um suplício de Tântalo político entorpecedor. Mas, de repente, um facto internacional (que bem dispensaríamos) obrigou-nos a enfrentar os nossos fantasmas, juntou-nos. Antes, e tratava-se da própria sobrevivência do modelo, a crise financeira impusera-nos, à bruta, repensar visões monolíticas. E até a covid-19 nos fez perceber que, sozinhos, cada um por si, éramos nada. Nada mesmo.

É disso que se trata, em todas as camadas da sociedade; é disso que se trata também na Universidade. A formação deve ter como desígnio essencial a criação de comunidades “internacionais” interiores, em que qualquer estudante interaja com tantas mundividências quantas as dos seus colegas, donde quer que venham. Isso só é possível, e o mercado é nisso quase cruel, se o “produto” for ele mesmo tolerante, multidisciplinar e plural. E se, no cartão de visita, aparecer um corpo docente muito qualificado, aberto aos saberes e com Mundo (o que é mais do que andar de avião). Mas ainda outros, que nos ensinem outros saberes, outras formas de ver e de pensar. A comunidade internacional interior, por isso, é internacional no conceito, mesmo antes de ser fisicamente internacional. Mas, quase sempre, é também ela que olha para as “fronteiras” como desafio estimulante, em contacto com o futuro. E nunca como barreira.