Opinião

Guerra, poder e fraqueza

4 março 2022 12:55

Esta foi a semana mais violenta da história da Europa nas últimas décadas. A próxima será ainda mais.

4 março 2022 12:55

A política internacional é sempre dinâmica. O tempo é uma variável crucial no processo de escolhas e decisões estratégicas. Do ponto de vista de Putin, a dependência da Bielorrússia em relação a Moscovo, a sua visão sobre a integração da Ucrânia na Rússia e a avaliação que fez da capacidade de resposta dos EUA e dos países europeus, levaram-no a concluir que esta seria a melhor oportunidade de o Kremlin recuperar o controlo de Minsk e de Kyiv e de determinar uma nova ordem de segurança e defesa europeia.

A guerra na Ucrânia continua a evoluir e, neste momento, é muito difícil saber quanto tempo durará, que tipo de violência será exercida ou como acabará. Dependerá muito da adaptação das forças militares convencionais e irregulares no terreno, dos meios disponíveis, da capacidade de sacrifício da população ucraniana e das escolhas políticas em Kyiv e Moscovo. A batalha pela capital da Ucrânia será feroz e chocante. Os dilemas da liderança ucraniana aumentarão.

Paradoxalmente, a guerra deixou Putin perante a sua mais grave crise como Presidente. A reputação internacional de Moscovo caiu a pique desde o início da invasão. Há uma semana, nunca teria imaginado encontrar-se perante estes factos. A forma como o plano de invasão foi concebido e executado pelas forças russas, a forte resistência das forças ucranianas, o exemplo da liderança política do surpreendente Volodymyr Zelensky e o apoio político dos países europeus e dos EUA deixam Putin perante escolhas difíceis. A sua ambição de dominar por completo a Ucrânia é impossível. Qualquer acordo de cessar-fogo, por penoso que venha a ser para Kyiv, não impedirá a Ucrânia de poder vir a ser um país livre. Moscovo ficará perante a estagnação política e económica e a potencial dinâmica de mudança de regime a prazo.

A guerra na Ucrânia deverá acabar com o mito euro-atlântico de que a História tem uma direção que favorece sempre as democracias liberais. Tal nunca foi verdade. Sempre existiram líderes políticos como Vladimir Putin determinados a destruir as democracias pela força das armas ou pela subversão política interna através de apoio a partidos de extrema-direita e de extrema-esquerda. A violência, infelizmente, sempre fez parte da política internacional. A guerra não acabou. As democracias liberais que quiserem mesmo assegurar o seu modo de vida e os seus interesses terão de ter uma capacidade credível de dissuasão e, caso venha a ser necessário, de combate.

A grande vantagem das democracias euro-atlânticas continua a ser o seu sistema de alianças à volta da NATO e da União Europeia. Em apenas alguns dias, Putin conseguiu que a Alemanha abandonasse uma política de 50 anos em relação à Rússia, que a Finlândia e a Suécia se aproximassem ainda mais da Aliança Atlântica e que todos os países europeus compreendessem a verdadeira dimensão da contribuição dos EUA para a segurança e a defesa europeia. O Kremlin ressuscitou a NATO e galvanizou a União

Europeia que, numa semana, progrediu pelo menos uma década. Acresce que Moscovo tornou evidentes as vantagens políticas e económicas das democracias em relação às autocracias. Há uma semana, muitos consideravam Putin um génio estratégico. Moscovo era a autocracia invencível. Muito mudou desde aí.

Este é o tempo de pôr fim a uma série de ilusões europeias sobre a evolução da política internacional. Estas ilusões conduziram-nos a um desarmamento intelectual que é perigoso. O mesmo, todavia, acontece com as emoções que vemos à solta na Europa e que podem levar os governos e instituições a correr riscos que agravem ainda mais a situação política e económica na Europa. O que persuadirá um Putin cada vez mais isolado em Moscovo não são os interlocutores nem as sanções em que muitos em Bruxelas e Washington depositam tantas esperanças, mas sim os factos no terreno.

A guerra na Ucrânia continuará a ser brutal. Um eventual cessar-fogo entre Kyiv e Moscovo não alterará a estratégia da Rússia em relação à Europa. Por agora, Putin calculou mal o poder de Moscovo. Essa foi a sua grande ilusão. Quanto a nós, não devemos escolher a fraqueza nem as emoções exuberantes desligadas da realidade estratégica no terreno. O momento que vivemos é grave.