Opinião

Do linfoma à empatia de uma equipa

A intervenção do psicólogo no acompanhamento psicológico do paciente com cancro e da sua família, para potenciar uma gestão adequada dos sintomas físicos e psicológicos inerentes ao diagnóstico e aos tratamentos, é o tema abordado pelo psicólogo clínico e forense Mauro Paulino na segunda das duas crónicas de dezembro para o Expresso

20 dezembro 2021 9:29

Na semana passada, circulou intensamente nas redes sociais um vídeo da equipa de andebol Boa Hora, em que colegas de equipa, treinador e outros elementos do clube lisboeta rapavam o cabelo, dentro do pavilhão onde a equipa joga, em solidariedade com o jogador Nuno Pinto, que luta há cinco meses contra um linfoma. Esta publicação foi o caminho encontrado pelos companheiros para se mostrarem ao lado de quem os lidera dentro de campo, servindo agora de mote para falar sobre o papel do psicólogo, no contexto da doença oncológica.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, as doenças crónicas, enquanto doenças de longa duração e progressão lenta, mais frequentes são as doenças cardiovasculares, o cancro, as doenças respiratórias e a diabetes.

Perante um diagnóstico de doença grave, como é o cancro, as pessoas reagem para se ajustar e manifestam reações emocionais à possibilidade de terem tal doença, contribuindo para isso o que já têm previamente em mente sobre o diagnóstico e os riscos associados ao mesmo. Por exemplo, um estudo nacional mostrou, em 2002, que quando aos portugueses era perguntando se havia alguma doença que os preocupava e, em particular qual, mais de 60% referia o cancro. Todavia, aquela que era a principal causa de morte em Portugal, as doenças cardiovasculares, preocupava apenas 7,7% dos inquiridos. Ou seja, a perceção que as pessoas fazem é determinante tanto para a doença, como para a saúde.

Centrando-nos no contexto oncológico, refira-se, em abono da verdade, que a prática do psicólogo é fundamental, considerando o acompanhamento psicológico do paciente e da sua família para potenciar uma gestão adequada dos sintomas físicos e psicológicos inerentes ao diagnóstico e aos tratamentos. Mas não se esgota aqui. Os contributos podem incluir a promoção de uma comunicação interpessoal mais adequada, bem como potenciar um melhor ajustamento psicossocial à doença e um maior bem-estar e qualidade de vida durante todas as fases da doença.

O diagnóstico de cancro é, como facilmente se compreenderá, devastador para o doente e para a sua família. Depois do diagnóstico, o doente inicia um processo terapêutico que envolve, inevitavelmente, um conjunto de novidades e adaptações. Desta forma, o paciente pode sentir-se sobrecarregado a vários níveis, tais como com o próprio diagnóstico, as tomadas de decisão, a aprendizagem de novos conceitos relacionados com a doença, a comunicação com o pessoal hospitalar, o lidar com os efeitos secundários dos tratamentos e a gestão da nova dinâmica familiar. Assim, capacitar o doente e as famílias, aumentar a perceção de controlo e de autoeficácia sobre todo o processo são alguns dos benefícios que a intervenção psicológica pode trazer.

Ao longo da trajetória da doença, pode ser vivenciada ansiedade, humor depressivo, medo, culpa, raiva, descrença, entre outros sintomas psicológicos. Na maioria dos casos, a reação de stress é mais intensa após o diagnóstico e vai diminuindo de intensidade à medida que o paciente aprende a lidar com a sua doença.

As emoções vivenciadas pelo paciente são variáveis, consoante a fase de tratamento, a severidade do diagnóstico, as características pessoais, mas também o suporte social e familiar é igualmente fundamental neste processo, podendo iniciativas como estas servirem de tónico ao bem-estar e, por conseguinte, à adesão ao tratamento. Na maioria das vezes, o estado emocional é vivenciado de uma forma adaptativa e reativa ao que se está a passar. Contudo, mesmo sendo uma minoria, há pacientes que desenvolvem, durante a trajetória da doença, perturbações psiquiátricas, como depressão ou perturbação da ansiedade.

A investigação demonstra que, numa fase inicial, é o tratamento e os efeitos secundários que causam maior stress percebido. A cirurgia é, frequentemente, mais fácil de gerir, na medida em que é vista como um mal necessário. Pelo contrário, a quimioterapia e a radioterapia são tratamentos mais difíceis de aceitar, sobretudo quando são usados com uma finalidade profilática. Segundo um estudo baseado numa amostra de pacientes com cancro da mama, ovário e pulmão, a quimioterapia está associada a elevados níveis de ansiedade e de depressão em 40% dos doentes.

Para além dos sintomas psicopatológicos de ansiedade e depressão, os pacientes com cancro têm revelado outras problemáticas em diversas áreas das suas vidas, tais como problemas conjugais e/ou relacionais, problemas sexuais, medo do agravamento ou da recidiva da doença, dor e fadiga, mudanças na aparência física, limitações ou incapacidades físicas, assim como diminuição da qualidade de vida ou mudança dos planos de vida. Dois outros aspetos que são igualmente comuns passam pela existência de mitos ou crenças distorcidas sobre o cancro, a culpa por terem desvalorizado aparentes sinais e atrasado o diagnóstico, bem como culpa por comportamentos que percecionam como podendo estar na origem do cancro.

Todo este sofrimento psicológico e consequentes sintomas justificam a necessidade de uma intervenção especializada ao nível da psicologia, visto que com recurso a técnicas cognitivas e comportamentais é possível modificar emoções, comportamentos ou sintomas. Adicionalmente, são também importantes técnicas de relaxamento e de redução de stress com o objetivo de diminuir a tensão muscular e o aumento do relaxamento físico e mental.

Tais abordagens demonstram a importância de contar com profissionais da Psicologia em equipas multidisciplinares, nos serviços de oncologia dos hospitais ou nos centros de saúde, pois, ao nível do impacto psicológico, físico e social de um diagnóstico de qualquer tipo de cancro, o acompanhamento psicológico é um fator crucial para um melhor ajustamento às mudanças inerentes ao diagnóstico, aos tratamentos e sobrevivência.

Os conhecimentos da ciência psicológica são eminentemente úteis para se lidar com as doenças, mas também para se manter a saúde. Por isso, que 2022, para além do reconhecimento do papel da Psicologia e dos seus profissionais em vários contextos, traga, no que diz respeito à doença oncológica, uma melhoria no acesso e no encaminhamento dos doentes e dos seus familiares para o acompanhamento psicológico individual ou em grupo.

Seria impossível terminar um texto sobre este tema sem referir a ótima notícia com que fomos brindados no dia 17 de dezembro, segundo a qual um tratamento experimental contra o cancro registou remissão completa em 18 doentes. Venham também mais destas notícias positivas, que por sinal deviam abrir telejornais em 2022.