Opinião

Do superior aos cargos de chefia ainda vai uma longa distância

Ana Gabriela Cabilhas

Ana Gabriela Cabilhas

Presidente da Federação Académica do Porto

8 março 2021 9:33

Se, desde 1986, mais de metade dos diplomados são mulheres, como é que, segundo a consultora McKinsey, com dados referentes a 2018, só 22% das mulheres ocupam cargos nos conselhos de direção de empresas, e apenas 10% das mulheres está em comissões executivas? A pergunta é de Ana Gabriela Cabilhas, presidente da Federação Académica do Porto, que decidiu deixar claro que o Dia Internacional da Mulher não são só flores e chocolates. “Sei o que devo a todas aquelas que nele estão simbolizadas e ao tanto que ainda temos por conquistar”, justifica

8 março 2021 9:33

8 de março, Dia Internacional da Mulher. Não aprecio ter um dia dedicado ao meu género, mas sei que o devo a todas aquelas que nele estão simbolizadas e ao tanto que ainda temos por conquistar.

O Ensino Superior foi, durante décadas, quase exclusivo para estudantes do sexo masculino. Com o progresso da participação feminina, chegamos ao ponto em que, anualmente, mais de metade dos diplomados são mulheres, muito graças à reconfiguração do seu papel na sociedade portuguesa. Ter uma participação ativa no Ensino Superior e na Ciência é uma conquista que merece ser celebrada. Mas ainda há um longo caminho a percorrer.

A limitação das opções formativas e, consequentemente, das saídas e carreiras profissionais, começa com estigmas, preconceitos e estereótipos de género, muitas vezes criados ao longo do percurso escolar. Só quando já estamos no Ensino Superior é que nos apercebemos do impacto que, uma escolha com base em ideias pré-concebidas, pode ter na determinação do nosso futuro, inclusive em matéria salarial. E as assimetrias salariais não podem ser celebradas.

Precisamos de evitar futuras diferenças salariais significativas entre homens e mulheres, consolidando o progresso e as conquistas alcançadas ao longo do tempo. Urge combater a segregação profissional, diminuindo a distância entre o percurso atual e o futuro ao qual queremos chegar.

Se, desde 1986, mais de metade dos diplomados são mulheres, como é que, segundo a consultora McKinsey, com dados referentes a 2018, só 22% das mulheres ocupam cargos nos conselhos de direção de empresas, e apenas 10% das mulheres está em comissões executivas? O problema começa nas progressões de carreira que, tal como indicam os dados, são mais recorrentes no sexo masculino.

É na Academia que se começa a construir o mercado de trabalho e é exatamente aqui que devemos desconstruir ideias e preconceitos, empoderando as mulheres em cargos de chefia e liderança. Olhando para a Academia, reparamos que persistem obstáculos à ascensão das mulheres na carreira académica e a dificuldade em serem nomeadas ou eleitas para cargos de liderança. Das Instituições de Ensino Superior que compõem o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas e o Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos, apenas 5 mulheres são Reitoras ou Presidentes.

Já na estrutura federativa à qual presido, cerca de 44% das associações de estudantes são presididas por mulheres, números que traduzem uma mudança progressiva dos tempos e o potencial de afirmação de jovens mulheres pelo seu mérito, valor e competências.

No Ensino Superior preparam-se estudantes e jovens para a vivência no presente e no futuro, que não se sabe qual é, mas que se prevê, e é aqui que a formação e a educação surgem como respostas aos problemas que se temem e aos objetivos que se almejam alcançar. No âmbito da sua responsabilidade social, as Instituições de Ensino Superior devem inspirar outras transformações na sociedade, pela capacidade de promoverem a igualdade de género e de a colocarem no centro de decisão política, a nível académico e científico.

No dia Internacional da Mulher tenho dois pedidos: o primeiro, que os interesses e as preocupações das mulheres (que devem ser de todos) tenham espaço na agenda política e o segundo, assumir a educação, desde o pré-escolar ao Superior, como a base de evolução da sociedade, capaz de gerar a mudança cultural e de mentalidades, com cidadãos mais nformados e esclarecidos. Não é por acaso que a Federação Académica do Porto tem mantido o seu lema “Por uma Prioridade na Educação” ao longo do tempo.

Que as flores e chocolates deste dia sejam o empenho de todos na luta pela igualdade de género, promovendo uma participação alargada das mulheres em atividades de investigação, inovação e liderança estratégica e institucional.

* Ana Gabriela Cabilhas é presidente da Federação Académica do Porto