Opinião

EUA. Sete sinais de esperança

Germano Almeida

Germano Almeida

Autor de quatro livros sobre presidências americanas

13 fevereiro 2021 23:13

Depois da votação do impeachment a Trump, este artigo ajuda a perceber o que se passou no Senado norte-americano este sábado. Mas ajuda sobretudo a perceber o que se pode passar na política norte-americana daqui em diante. Seja para Donald Trump, seja para Joe Biden

13 fevereiro 2021 23:13

Não houve dois terços – mas isso nunca aconteceu na História americana. A absolvição dá força simbólica a Trump para seguir o seu “movimento belo”. Mas os sete votos republicanos dão também legitimidade a Joe Biden para formar uma espécie de “maioria de bom senso” no Senado, enquanto os republicanos seguem a guerra interna entre duas alas cada vez mais inconciliáveis: os institucionalistas clássicos (Liz Cheney, Mitt Romney, agora Bill Cassidy) e os herdeiros do populismo irresponsável trumpista (Ted Cruz, Josh Hawley). Pelo meio, Mitch McConnell e o seu estilo salomónico: votou pela absolvição e minutos depois jurou que Trump foi o responsável pela invasão do Capitólio. Bem-vindos à louca direita americana, versão 2021.

Sete republicanos acompanharam os 50 democratas na condenação a Trump.

Faltaram dez para os dois terços, mas houve maioria simples no segundo "impeachment" a Trump, mais seis que no primeiro.

Trump fica na História como o primeiro Presidente a ser alvo de dois "impeachment" -- e o primeiro a ser absolvido duas vezes no Senado, depois de ter sido condenado duas vezes na Câmara dos Representantes. Aqui ficam os nomes dos sete republicanos que tiveram a coragem de rejeitar vergar-se à herança do inominável episódio de 6 de janeiro de 2021 no Capitólio: Richard Burr (Virgínia), Bill Cassidy (Luisiana), Susan Collins (Maine), Lisa Murkowski (Alasca), Mitt Romney (Utah), Ben Sasse (Nebraska), Pat Toomey (Pensilvânia).

O senador Bill Cassidy, que é de um estado que em novembro enorme maioria a Trump, a Luisiana, justificou assim o seu voto: “Fui pelo “impeachment” porque Trump é culpado”. Simples.

Num contexto de arranque de ciclo político na América, com um Presidente democrata na Casa Branca e empate 50-50 no Senado entre democratas e republicanos, sete votos republicanos pode ser um sinal animador para uma base de trabalho bipartidário nos temas essenciais para os próximos tempos.

Depois dos advogados de Trump terem abdicado dos dois dias que tinham para apresentar a defesa – fizeram-no em apenas três horas e meia, com um chorrilho de mentiras e falsas declarações ditas em pleno Senado – a votação já este sábado passou a ser o cenário mais provável.

Mesmo assim, o dia começou com os democratas a conseguirem votos suficientes para chamar testemunhas, tendo tido o apoio de cinco senadores republicanos, incluindo uma mudança inesperada de voto do senador Lindsey Graham.

Só que nas horas seguintes um acordo entre os acusadores democratas e os advogados de Trump anulou a chamada de novas testemunhas, a troco da inclusão no julgamento de um “statement” da congressista republicana Jaime Herrera Beutler, um dos dez membros republicanos a ter votado pelo “impeachment” na câmara baixa, que afirmara ontem que o líder da minoria republicana na Câmara dos Representantes, Kevin McCarthy, lhe disse que Trump se tinha colocado ao lado dos invasores durante o assalto ao Capitólio.

Em causa está um telefonema de Trump a Kevin McCarthy, líder da minoria republicana na Câmara dos Representantes, enquanto o Capitólio estava a ser alvo da invasão dos vândalos, o então Presidente Trump disse que "os manifestantes se importavam mais com os resultados das eleições que McCarthy". McCarthy ripostou que os invasores eram apoiantes de Trump e implorou Donald a que os travasse. Perante a crítica de Trump em plena invasão do Capitólio, Kevin McCarthy, furioso, disse ao então Presidente dos EUA que estavam a entrar pelo seu gabinete partindo as janelas.

AS ALEGAÇÕES FINAIS MANTIVERAM O ESSENCIAL

Os advogados de Trump a insistir no direito do seu cliente a dizer o que quisesse e a considerarem que não havia ligação entre o que lançou à multidão e o que ela fez a seguir. Quanto ao lado da acusação, fixem este nome: Joe Neguse | A revelação do "impeachment". Agora dá para perceber por que é que os democratas o colocaram como segundo principal "manager" do processo de acusação a Trump. O jovem congressista do Colorado, 36 anos e filho de refugiado da Eritreia, teve desempenho brilhante nas alegações finais, há minutos. Profundo e sólido. Sério e inspirador.

A força da América é que mesmo nos piores momentos descobre sempre a melhor forma de encontrar o Futuro.

aiC / diC

Há um aiC e um diC na História da democracia americana: antes da invasão do Capitólio e depois da invasão do Capitólio. O ato inominável de 6 de janeiro de 2021 ficará como marca inegável, indisfarçável e inapagável da pior presidência americana das últimas nove décadas: a presidência de Donald Trump.

Haver dois terços dos votos no Senado era altamente improvável -- nunca na História americana isso aconteceu. Mas as instituições democráticas, que nos últimos três meses deram provas notáveis de resistência perante um Presidente antidemocrático que tentou perverter um resultado eleitoral, não podiam ficar indiferentes à invasão do Capitólio.

E convém explicar que na história de quase dois séculos e meio de presidência americanas, nenhum Presidente foi destituído por dois terços do Senado – o único que saiu na sequência de um “impeachment” foi Nixon, mas pela sua própria demissão, na véspera disso poder acontecer. Mas este caso não é o Watergate. Não é Monica Lewinsky para Clinton. Nem sequer é o caso (também bastante grave) do primeiro “impeachment” a Trump (o escândalo ucraniano). Donald Trump, pior Presidente americano dos últimos 90 anos e único a fazer um mandato inteiro sem um dia sequer com 50% dos americanos a aprová-lo, já não se livra também de ser o primeiro Presidente da História americana a ser condenado na Câmara dos Representantes duas vezes por “impeachment”. Será também o primeiro a ser absolvido duas vezes no Senado? É possível. Mas isso não retira legitimidade, muito menos oportunidade, a este processo. Uma coisa é olhar para o momento. Mas a dimensão histórica, pela negativa, de 6 de janeiro torna necessária uma análise mais vasta e de longo prazo.

As instituições democráticas nos EUA -- que deram nos últimos três meses provas notáveis de resistência perante um Presidente irado e antidemocrático – não podem deixar em claro, por mera leitura tática do momento, um ataque tão ignóbil. O modo como o julgamento do Senado vier a ser encarado pelo senadores republicanos definirá muito do que resta da saúde democrática do partido que já foi de Lincoln, Eisenhower, Reagan, Bush pai ou John McCain – mas, desgraçadamente, agora é de Donald Trump, alguém que não foi bem um Presidente dos EUA e que teve o desplante de acreditar que conseguiria perverter a vontade popular.

A questão, numa perspetiva mais vasta, que se coloca é: como lidar com a doença agravada pela Presidência Trump, mas que já existia na sociedade americana, de rejeitar os factos e pisar a boa convivência democrática?

Sheila Jackson Lee, democrata do Texas, faz um paralelo com o 11 de Setembro de 2001: “Só nesse dia ouvi coisas como na invasão de 6 de janeiro de 2021 como ‘fujam!’, ‘despachem-se, saiam daqui!’. Baixámo-nos e em conjunto com colegas amigos começámos a rezar”. A congressista Jackson Lee não tem dúvidas em classificar a origem do ataque: “Supremacismo branco, insurrecionistas e terrorismo doméstico. Gente que ostentava a bandeira confederada e símbolos claramente racistas. E todos esses sentimentos não podem prevalecer na América”.

COMPREENDER O INACEITÁVEL

Quem são os invasores do Capitólio? Muitos são extremistas e pertencem a grupos ligados a Supremacia branca, como os Proud Boys, que foram vergonhosamente legitimidados por então Presidente Trump no debate com Biden, mas a maioria será gente mais normal (com a relatividade que o termo normal terá sempre) do que possamos imaginar.

Robert Pape, professor de Ciência Política da Universidade de Chicago, e Keven Ruby, investigador principal do Chicago Project on Security and Threats, assinaram ensaio conjunto, na “The Atlantic”, em que analisam ao detalhe o perfil dos invasores do Capitólio e falam num novo tipo de radicalismo americano: “Não são como os outros extremistas”. Um olhar mais próximo e atento às pessoas que participaram na invasão de 6 de janeiro aponta para uma conclusão diferente e potencialmente para um problema mais perigoso: um novo tipo de violência de massas composto por grupos de apoiantes “normais” de Trump – classe média e, em muitos casos, gente de meia idade sem ligações evidentes a grupos de extrema-direita – juntos, sim, a extremistas numa tentativa de inverter a eleição presidencial.

Para compreendermos os eventos de 6 de janeiro e propor soluções para prevenir a sua repetição, os americanos precisam de um entendimento mais fino e profundo sobre quem atacou o Capitólio. Compreender a ideologia e as crenças de quem comete violência política é importante, mas também é saber que tipo de pessoas são e que vidas levam”. Como lidar com o facto de vários milhões de americanos não censurarem o ataque ao Capitólio?

Zack Stanton, no Politico”, sentencia: “O problema não é apenas uma insurreição. O problema é a radicalização em massa”.

Richard H. Pildes, um dos principais especialistas em Direito Constitucional na América, na “The Atlantic”: “Em contraste com a possível incerteza sobre as implicações do significado das palavras que proferiu a 6 de janeiro, não poderá haver dúvidas em relação ao facto de Trump ter usado o seu púlpito presidencial, dia após dia, para deslegitimar a eleição que o derrotou”.

BIDEN ASSISTIU À DISTÂNCIA, IMUNE AOS ESTILHAÇOS DA ABSOLVIÇÃO

Joe Biden optou por “assistir à distância” a um julgamento que sempre considerou necessário e inevitável para sarar a ferida antidemocrática aberta pela invasão gravíssima – mas tendo sempre a noção que era quase impossível chegar-se aos dois terços, como se verificou.

As primeiras três semanas de Presidência Biden foram suficientes para se perceber que passou a haver na Casa Branca uma Administração competente, eficaz e confiável: aumento de 30% na capacidade de vacinação é a maior prova disso. Objetivo de vacinar toda a população adulta americana até ao verão parece cada vez mais próxima e vai acelerar recuperação económica a partir daí.