Opinião

Que horas são aí?

11 dezembro 2020 9:00

A literatura existe para dar uma hipótese à piedade e para que a versão dos vencidos possa ser escutada

11 dezembro 2020 9:00

Lisboa continua a ser uma cidade literária. Isto é, uma cidade que não coincide necessariamente com a sua geografia visível. Uma cidade que é maior do que aquela que a cartografia designa. O trabalho de um escritor não é só uma operação de desmontagem do tempo: ele faz o mesmo em relação ao espaço. Em parte a cidade, tal qual historicamente se apresenta, pode ser reconhecível no que escrevem. Há a Lisboa de Cesário Verde e de Pessoa, de Saramago, Cesariny, Lobo Antunes ou Mário de Carvalho, de Sophia ou de Adília Lopes. Num dos livros desta última (“Poemas Novos”, 2004), a capa é mesmo um mapa (desenhado por Armanda Duarte) dos lugares habituais do seu girovagar lisboeta. Mas o contributo maior é o dos mapas aumentados que os romances, os contos, os poemas obrigam a produzir, porque nos informam que a paisagem que vemos esconde imprevisíveis elipses, que as ruas que percorremos se prolongam quando nos parecem que terminam, que há mais passagens, praças, colinas jardins e moradas, porque todas as cidades são cidades invisíveis. Por isso, quando um escritor morre, como ironicamente escreve Alexandre O’Neill, talvez o registo oficial seja apenas o de “uma tosse a menos na cidade”. Na verdade, porém, ele legou aos seus contemporâneos e aos vindouros um território que antes não existia, como por vezes o fazem as erupções vulcânicas com os seus derrames de lava.

Este é um artigo do semanário Expresso. Clique AQUI para continuar a ler.