Opinião

Não há forma de isto correr bem

30 setembro 2020 7:28

Germano Almeida

Germano Almeida

Autor de quatro livros sobre presidências americanas

Donald Trump e Joe Biden no primeiro debate das eleições presidenciais norte-americanas de 2020, em Cleveland, no Ohio

jim lo scalzo

Eleger para Presidente dos EUA um “bully” egocêntrico e mentiroso, sem qualquer preocupação pelo respeito pelas regras e pelas instituições, teria sempre consequências. O comportamento de Donald Trump fez do primeiro debate presidencial 2020 o momento mais baixo de que há memória nas corridas à Casa Branca. Biden ainda tentou não cair na armadilha, mas quando se tenta lutar com quem está coberto de lama é quase impossível não ficar coberto de lama. Deu empate nivelado por baixo. Perderam os dois. E agora: como é que se volta atrás?

30 setembro 2020 7:28

Germano Almeida

Germano Almeida

Autor de quatro livros sobre presidências americanas

Joe Biden até pode vir a ganhar a eleição. Neste momento, esse é o cenário mais provável. Mas o “povo Trump”, mais de 40% do eleitorado americano, continuará lá. E não vai aceitar a derrota.

Quando o eleitor Trump vê o seu candidato dizer que há “fraude gigantesca” nos votos por correspondência, como se pode esperar que vá aceitar tranquilamente uma derrota nas urnas, que para mais poderá só ser clara dias depois das eleições?

O debate de Cleveland confirmou o pior: a política americana deixou-se afundar num pesadelo.

O Presidente dos EUA (muito atrás nos votos por correspondência) recusou-se a garantir que não declarará vitória antes de todos os votos estarem devidamente contados.

Não se vê como possa correr bem.

Trump fez do debate um comício e adotou constante tática de falar por cima, interromper e fazer papel de “troll”.

Biden tentou não cair na armadilha, mas não resistiu a responder. Chamou Trump de “palhaço”, mandou-o calar “shut up, man”.

Fica impossível decretar “quem ganhou” o primeiro.

Em fase de polarização extrema, com pouco mais de 10% de indecisos, quem já tinha decidido votar Trump acha que foi Trump a ganhar, quem já tinha escolhido Biden atribui o triunfo a Biden.

Não por acaso, pesquisa CBS News, feita logo a seguir ao debate, dá 48% a atribuir vitória a Biden, 41% a Trump – precisamente a diferença de 7 pontos que a média de sondagens apontava antes do debate.

Joe teve a frase da noite, sobre a gestão de Trump na pandemia: “It is what it is because you are who you are”. Mas como o registo que fica é o de um caos degradante, essa frase não ficará.

Biden mostrou preparação competente. Não se espetou nos números nem se perdeu em “gaffes”, como muitos anteviam.

Trump tentou encostar Biden à esquerda, acusou-o de estar dominado pelo “socialismo” e por Sanders. Jogou a carta da “Lei e Ordem”.

Biden prometeu devolver os EUA ao Acordo de Paris, propôs a criação de uma comissão que junte os diversos intervenientes da tensão racial.

Trump recusou-se a demarcar-se dos supremacistas brancos, Biden acusou Trump de querer aproveitar a maioria conservadora no Supremo para destruir o ObamaCare em definitivo.

Joe disse que Donald é “o pior presidente de sempre”. Donald disse que Joe “não é esperto”.

Dois mundos opostos, sem qualquer ponto de contacto. Nem querem.

A política e a sociedade americana saíram muito mal tratadas do debate de Cleveland. Há um ambiente malsão no ar.

Há uns meses, no auge dos confrontos nas ruas na sequência dos protestos pela morte de George Floyd, escrevi um artigo que tinha como título “A Segunda Guerra Civil Americana”.

Espero ter exagerado. Mas temo que não.

Xi Jinping e Vladimir Putin devem ter tido uma noite divertida.

E dois jornalistas norte-americanos devem ter ido deitar-se mesmo muito assustados: Steve Scully e Kristen Walker, os moderadores dos outros dois debates entre Trump e Biden.

Christina Cauterucci, na “Slate”, já lançou o apelo: “Cancelem os outros debates. Este espetáculo degradante nada mostrou aos eleitores que eles já não soubessem antes”.