Opinião

Entre recordes e Covid-19: o investimento direto estrangeiro em Portugal

Florbela Lima

Florbela Lima

Partner e Leader EY-Parthenon

20 julho 2020 9:35

O surgimento da COVID-19 está a ter um forte impacto nos projetos de IDE anunciados em 2019 por toda a Europa. Com o investimento muito orientado para as áreas do digital e dos serviços, Portugal, no entanto, apresenta sinais positivos, de resiliência, face ao observado noutros países europeus

20 julho 2020 9:35

A edição de 2020 do EY Attractiveness Survey Portugal, onde se analisam as tendências do investimento direto estrangeiro (IDE) e os fatores de atratividade do nosso país, mostram que Portugal atingiu, em 2019, um recorde de 158 novos projetos anunciados (comparativamente com 74 em 2018) a que corresponderam mais de 12.500 postos de trabalho criados. Estes resultados posicionaram Portugal no 8º lugar entre as economias mais atrativas para investidores estrangeiros.

Estes projetos são em setores diversificados, os mais tradicionais como produção industrial, business services, logística e transportes, como também em setores associados a uma imagem de país inovador e com competências específicas em áreas tecnológicas. Assim, verificou-se um aumento de projetos na área de digital (em que com 42 novos projetos assumiu a liderança), investigação e desenvolvimento, agroalimentar.

Num ano marcado pela incerteza e pela escalada de tensão nas trocas comerciais mundiais, Portugal conseguiu diversificar a origem do IDE e atrair geografias altamente qualificadas. Houve uma constância na seleção de Portugal por parte de países habitualmente presentes no nosso país, como França, Reino Unido e Alemanha, e simultaneamente, houve um reforço de investimentos de países como os Estados Unidos, com um total de 26 projetos.

Também a nível da localização escolhida para a implantação desses projetos em território nacional, verificamos que praticamente todas as regiões foram eleitas como localização para novos investimentos, com a zona de Lisboa e do Norte de Portugal a assumirem a liderança, com um total de 62 e 51 novos projetos, respetivamente.

Portugal sempre foi reconhecido internacionalmente pelos ativos estruturais que oferece, nomeadamente clima favorável, estabilidade social e política e um contexto de trabalho e integração de outras culturas amigáveis. Igualmente tem sido reconhecido o trabalho que tem vindo a ser feito para melhorar a atratividade internacional do país e eliminar as áreas mais frágeis.

Como resultado destas ações, a imagem de Portugal tem evoluído para um país tecnologicamente avançado e com um ambiente altamente inovador (exemplo disso é a classificação recente de Portugal como um país fortemente inovador, por parte do European Innovation Scoreboard). Também a pool de talentos que o país oferece, assim como regimes especiais que favorecem a relocalização de investimentos e pessoas, têm sido fatores identificados por investidores como altamente atrativos.

O surgimento da COVID-19 está a ter um forte impacto nos projetos de IDE anunciados em 2019 por toda a Europa. No entanto, Portugal apresenta alguns sinais de resiliência, estimando-se que cerca 20% dos projetos anunciados em 2019 se encontrem em risco, face à média europeia de 35%, sendo que se espera que investimentos em áreas tecnológicas, de saúde ou digitais mostrem maior resiliência à incerteza económica criada pela crise sanitária.

O período excecional de incerteza terá um impacto na economia e no investimento que se estenderá para além do curto-prazo. A atratividade de Portugal irá depender por um lado, do reforço dos seus ativos mais fortes e da melhoria dos seus pontos menos atrativos, e por outro, da forma como conseguir demonstrar que IDE em Portugal têm todas as condições para ser resiliente nesta altura de incerteza.

Florbela Lima, EY, Partner e Leader EY-Parthenon