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Expresso

Diário da Peste. Uma mulher diante de um tribunal

18.06.2020 às 19h49

Diário da Peste,
17 de Junho

Gráficos na televisão fazem curvas indesejadas. Curvas erradas.
Gráficos não humanos; uma biologia que não entende de médias, mediana, curva de Gauss, etc.
Como animal cego, a biologia avança sem ordem; só fúria.
Melancólica Jeri e intempestiva Roma juntam-se no furor com que atacam comida e ar puro fora de casa.
Mas são mansas.
Sapatos desinfectados por baixo, céu quase sem nuvens por cima.
A fúria não entra nas estatísticas; colapsa previsões e estudos de lápis técnico atrás da orelha.
Filme que anuncia o seu fim e recomeça.
O vírus no norte e no sul, jogo das escondidas: desapareci, apareci, desapareci.
Os mitos, Quignard, apontamentos.
Uma mulher diante de um tribunal.
Dizem-lhe: só pode salvar um dos homens.
O seu marido, o seu filho ou o seu irmão.
Apenas pode salvar um.
Ela afasta-se e pensa longamente. Depois regressa.
O meu irmão, diz.
Psyttaleia, pequena ilha no mar Saronikos de Atenas.
Uma análise dos esgotos urbanos.
Aumento drástico do uso de drogas e medicamentos psicotrópicos.
Uma soprano a cantar Cante Jondo de Lorca.
Zócalo, cidade do México. Louco com altifalante: el fin do mundo es invisible.
Inventei este louco, gosto de inventar loucos.
Importância do lixo, dos esgotos.
Os restos da cidade como os indícios de saúde e doença, como num humano.
Os dejectos são o sinal.
Não percas de vista os teus restos: Atenas, Lisboa, Nova Iorque, Londres. A polis tem de olhar para trás.
Psyttaleia, esgotos:
cocaína, record da década: 800 gr por dia
subida no uso de anfetaminas: 650%
do ansiolítico lorazepam: 77%.
dos antidepressivos: 31%.
Morreu o líder indígena brasileiro Paulinho Paiakan, “um dos maiores defensores da floresta Amazónia”.
Centenas estão a morrer com a pandemia.
“Nossos anciões são sagrados e fonte de sabedoria dos povos indígenas.” O estrangeiro e o amigo são os dois perigos. Na Amazónia e em Atenas. Em Londres e Nova Iorque.
Muitas notícias com esta estranheza: são os mais próximos os que mais contaminam.
Doença por afinidade e proximidade excessivas.
O solitário é o privilegiado nas doenças contagiosas; o alvo principal das doenças depressivas.
Formas de cumprimento à distância, com desenhos e identificação do local onde é mais comum.
Cotovelo com cotovelo, China.
Pé com pé, Líbano.
Punhos fechados que se aproximam mas não se tocam, Irão.
Ficam uns centímetros um do outro: punho e punho.
A mão felizmente não respira.
Lembro Bruce Lee: um golpe velocíssimo com a mão que trava a uns milímetros do rosto do outro.
Comunidade na rua: Bruce Lee lento e destreinado diante de outro ser vivo de igual desleixo.
Um golpe lentíssimo que pára a dois metros do outro. E em vez de se aproximar, diz adeus. Os humanos estão assim.
O portão avariado; guincha como se estivesse vivo.
O mito. Porque escolheu o seu irmão?
Ela responde: posso ter outro marido.
Posso ter outro filho.
Os meus pais já morreram, não posso ter outro irmão.
Ásia, alguns países - lema da semana: não te cumprimento porque te amo. Baixar a cabeça e a parte superior do tronco em reverência. Japão.
Índia: mãos juntas à frente do tronco e o baixar da cabeça.
Porque escolheu o irmão, perguntam de novo?
Porque é o único com quem posso relembrar a minha infância.
Zócalo, cidade do México. Louco com altifalante: el fin del mundo es invisible, el fin del mundo es invisible, el fin del mundo es invisible.

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Índice

As libelinhas aproximam-se dos cogumelos
Levai-me de novo para casa, levai-me de novo para o mundo
O nosso ensaio foi cancelado
A história não funciona assim