Opinião

As causas. O paraministro (ou lá o que é) e a oportunidade que a Direita Liberal não devia perder

2 junho 2020 22:30

O guião de “As Causas”, o programa de José Miguel Júdice na SIC Notícias, agora também é publicado no Expresso - sempre às terças-feiras a partir das 22h30

2 junho 2020 22:30

COSTA SILVA E PRESIDENCIAIS

O paraministro, ou lá o que é, tem tudo que ver com as presidenciais e com uma oportunidade que a Direita Liberal não devia perder.

O PARAMINISTRO OU LÁ O QUE É…

António Costa foi buscar à gestão privada António Costa Silva (apesar do nome, e dos hábitos do PS, não são primos).

Ele é quem vai coordenar a definição estratégica e a seguir provavelmente a execução do plano de aplicação de 45 mil milhões de euros que começarão a chegar – talvez até ao fim do ano – da Europa.

Foi uma surpresa total, o que significa que o Governo conseguiu evitar as fugas e pôde definir o momento, a forma e o conteúdo da bombástica notícia.

O requinte da confidencialidade chegou ao ponto de Costa Silva ter publicado as linhas gerais da estratégia e nem isso ter motivado alguém a dar com a língua nos dentes.

E é uma boa notícia pela qual o primeiro-ministro merece elogios. Dir-se-ão a seguir as razões.

Mas nunca há bela sem senão. A seguir se falará do que me preocupa.

ELOGIOS AO ANTÓNIO BORGES DO PS

Em primeiro lugar não ter sido escolhido um político partidário ou um ministro para esta tarefa. É um elogio pela negativa, mas muito importante. Todos estarem contra é para mim um bom sinal…

Tudo o que me preocupa se manteria se não fosse assim. Mas as vantagens esfumavam-se: seria tudo muito menos profissional, decente, independente e imune a pressões.

Em segundo lugar o nome escolhido. Não o conheço bem, mas o que sei só me permite elogios. As primeiras declarações à SIC agradaram-me: (i) não quer ser ministro, (ii) está a trabalhar pro bono, (iii) não abandona a sua vida profissional, (iv) se não gostarem só precisam de lhe dizer.

Costa Silva não precisa do poder político, não está a trepar para uma posta futura, é competente e experiente em gestão, pensa bem e é um homem culto. E, como é de moda na sua geração, passou pela extrema-esquerda. Esteve três anos detido em Angola pelas suas convicções, o que só reforça a minha boa impressão.

Finalmente o ter revelado num texto publicado em 21 de maio no Público aquilo a que vem, como pensa a missão, qual a estratégia. É raro que assim se faça, pois esta é uma forma de queimar os barcos, pois assim só se fazem inimigos. Mas para mim é bom sinal.

Convinha que o PS pedisse desculpa a Passos Coelho pelo que disse quando este escolheu o seu Costa Silva, que preferia que lhe chamassem António Borges (e sobre isso leiam José Diogo Quintela, hoje no Observador, até para se rirem…)

A ESTATIZAÇÃO ESTRANGEIRADA E TECNOCRÁTICA

A primeira preocupação é óbvia. Entre aquilo que o Governo deixou/quis que se soubesse no sábado e o que foi dito a Marques Mendes para ele divulgar no domingo, há uma grande diferença:

  1. Afinal é um trabalho até ao final do mês apenas e começara há mais de um mês;
  2. Afinal é algo que ele apenas em 2 dias conseguiu esboçar;
  3. Afinal ele não tinha contrato (mesmo sendo pro bono devia ter…) apesar de já ter feito muito trabalho;
  4. Afinal ele não é mais do que um consultor do primeiro-ministro … mas apesar disso desdobra-se em entrevistas, o que faz pouco sentido.

Isto começa mal. É evidente que houve pressões de dentro do Governo contra ele ser “paraministro” (o título não foi seguramente inventado pelo David Dinis), seguramente há quem queira no governo ficar com o bolo de 45 mil milhões e o poder que vem com ele.

Em segundo lugar, a estratégia dá motivos para preocupação. Há nela uma tendência tecnocrática, estatista e ilusória de fazer um país novo em 10 anos, de reforçar a lógica da “Nova Política Económica” (o Estado decide onde as empresas privadas devem investir), uma aposta prioritária em investimento público cuja rentabilidade é sempre baixa, a ilusão de que a “reindustrialização” pode ser feita a regra e esquadro.

O risco é evidente. Sempre que em Portugal se tentou isso ganharam os “insiders”, os que vêm da política para os negócios, os dotados de grandes “egos”. E no passado desbaratou-se dinheiro em megalomanias, vias que não levavam a lado nenhum, elefantes brancos e muitos consultores.

Em terceiro lugar o que foi dito no domingo na RTP, visto em conjunto com o curriculum de Costa Silva, reforça a preocupação:

  1. Em 40 anos de brilhante atividade profissional centrou-se apenas (além do ensino público) em grandes empresas estatais (Sonangol e a atual Partex), em instituições parapúblicas como o Instituto Francês do Petróleo, ou em grandes empresas de O&G que vivem a fazer contratos com Estados (a multinacional CGG e a Partex do tempo da Gulbenkian);
  2. Nunca realmente trabalhou em ou para Portugal e nem sequer em ou para empresas com o perfil médio que define mesmo as chamadas grandes empresas portuguesas (com meia dúzia de exceções).

Do que se trata é de fazer entrar o Estado na economia produtiva para ficar. Para isso o paradigma da indústria de O&G é um bom exemplo. Nada de mal em geral, mas em Portugal, pequeno e pobre país, não se admirem que eu revele um forte pessimismo.

Esta é a última e principal preocupação. Vamos andar entretidos com grandes desígnios a médio prazo. Mas nada nisso tem que ver com a atual realidade empresarial nacional (para a qual, aliás coerentemente, Costa Silva não teve uma palavra) e o novo “ouro do Brasil” (45 mil milhões de euros) vai escoar-se e pouco ou nada – nem sequer o Palácio de Mafra – ficará a seguir.

Mas as coisas são o que são. Apesar de Rui Rio ter ontem assinalado o risco da estatização, com isto Marcelo vai ser reeleito triunfalmente aos discretos ombros do PS e do PSD, estes ganharão as autárquicas em 2021, o PS vai governar até 2027 se necessário com o PSD.

O que nos leva direitinho ao tema das presidenciais.

AS PRESIDENCIAIS DO BLOCO CENTRAL

O tema nasceu na Autoeuropa, mas agora todos os partidos e o ungido Presidente-Rei não querem falar disso.

A minha intenção era não tratar do tema agora, mas a divulgação da estratégia que foi sugerida, e/ou apoiada e/ou será implementada por Costa Silva, e o acesso a uma sondagem da “Pitagórica” fez-me mudar de opinião.

Começando pela sondagem: ela seguiu-se ao “Acordo da Autoeuropa” e revela que (i) o PS tem hoje maioria absoluta, (ii) o PSD cerca de metade, (iii) o Chega passou a terceiro partido.

E quanto a presidenciais (i) a imagem de Marcelo no PS (99% acham boa ou muito boa a atuação presidencial) compara com 23% do PSD a pensar o mesmo, (ii) 85% dos socialistas concordam com o apoio de Costa à reeleição, (iii) 65% do PSD votará também na reeleição, (iv) CDS e outra Direita será menos ainda, (v) mas eleitores do PCP e BE apoiam mais do que o PSD.

Ou seja, o bloco central PS/Marcelo está indestrutível pois o abraço do urso limitou as hipóteses de liberdade de manobra presidencial. E o PSD não vai ter outra alternativa que não seja apoiar também, pelo que em janeiro o bloco central será o grande vencedor.

E até lá a estratégia estatizante de Costa Silva talvez seja um pouco alterada e moderada para (i) o PSD poder caber na tenda, e sobretudo (ii) para evitar a Marcelo o drama interior que daí nasce.

Realmente Marcelo não pode opor-se à estratégia estatizante (o que o PS não perdoaria) nem apoiá-la (o que o PSD e a Direita em geral não aceitaria). E essa guerra também não convém ao PS.

Com essas mudanças o PSD entra na tenda de mão dada com o Presidente, ambos esperando que com o tempo as coisas melhorem um pouco mais do seu ponto de vista.

UMA OPORTUNIDADE PARA A DIREITA LIBERAL

Mas tudo isso vai reforçar o mal-estar à Direita, que é já bem patente na sondagem, designadamente pois mesmo incluindo o PSD só 25% acham que o Presidente tem estado bem e são cada vez mais os seus eleitores que criticam o PSD e CDS.

Tal como estão as coisas Marcelo vai ser apoiado para uma vitória esmagadora pelo bloco central e com um programa de desenvolvimento para os próximos 10 anos que será o que propõe Costa Silva, mais os apoios estatais a empresas que serão avançados esta semana pelo PSD.

Quem não goste disso à Direita tem o caminho do Chega (já o 3º partido nacional) ou a abstenção. A não ser que surja um candidato à Direita como alternativa, (i) pelo descontentamento com a deriva estatizante, (ii) contra a relação conjugal de Marcelo com o PS e (iii) contra o populismo e o Chega.

Esse candidato de Direita moderada não vai ganhar. Mas pode acalentar-se em momentos de desânimo recordando a ultraminoritária Nova Esperança, em 1983-5 no PSD, de onde saíram três que foram líderes do PSD e primeiros-ministros, um deles presidente da Comissão Europeia e outro Presidente da República.

Em minha opinião o candidato liberal deve avançar este mês como resposta ao Acordo da Auto-Europa e ao projeto estratégico estatizante de Costa Silva.

Com isso há vantagens: (i) meses de visibilidade para ideais liberais, (ii) surgir como contraponto ao poder avassalador do bloco PS/Marcelo/PSD, (iii) sair por certo com um resultado respeitável que lhe permita a seguir ser o foco de um projeto político de alternância, (iv) limitar o crescimento do Chega, (v) condicionar muito mais Marcelo do que se não existisse.

Neste momento só vejo dois nomes possíveis: Adolfo Mesquita Nunes e Cotrim de Figueiredo. Também parece que esta semana o Professor André Dias (que ficou famoso pela sua posição em relação ao coronavírus) pode admitir a sua candidatura. Não faço ideia se querem ou se há melhor. A ocasião, a oportunidade, a estratégia, a base de apoio, tudo existe. Se há homem ou mulher para a missão, ver-se-á.

O ELOGIO

À União Europeia, à Comissão, a Macron e Merkel, a todos os que finalmente querem dar os passos para salvar a Europa.

Sempre acreditei e disse que seria assim. Vai haver menor valor de subsídio e mais de empréstimo, vão existir condições, vão reforçar-se as políticas e o poder europeu sobre todos nós. O que se calhar é justificado… mas não quero imaginar qual seria a alternativa.

LER É O MELHOR REMÉDIO

A Escola Nacional de Saúde Pública realizou com a Universidade Nova o primeiro estudo sobre os mortos por ou com Covid 19, feito sobre mais de 20 000 infetados conhecidos (data de referência 28 de abril).

Considero ser de leitura obrigatória e está acessível pelo menos no site do Público onde recolhi o ensaio.

A conclusão é que a morte ocorre quase só quando existe um cocktail com (i) idade superior a 70 anos, (ii) doenças entre as quais dos rins, coração ou neurológicas, (iii) imunodepressão para hospitalização e cuidados intensivos.

Era isto que me diziam os especialistas que há 2 meses me foram informando, mas agora é tudo quantificado até com os fatores de risco (por ex. acima de 90 anos 226 vezes mais do que até aos 50 anos).

A PERGUNTA SEM RESPOSTA

A contaminação foi muito maior a início no Norte e mais recentemente na Grande Lisboa.

Era curioso que alguém no Ministério da Saúde tentasse perceber e explicar. Eu tenho uma ideia, mas fica como pergunta, cuja resposta será útil para a história destes meses.

A LOUCURA MANSA

A violência desregrada que está a acontecer nas grandes cidades dos EUA vai colocar Trump de novo como provável vencedor das eleições em Novembro.

Eu sei que – na frase sibilina do grande embaixador que é Francisco Seixas da Costa – Joe Biden é um “genérico” do Obama. Mas mesmo assim, tinha a eleição ganha.

Um polícia selvagem e racista pode ter mudado a história num sentido horrível.

E a loucura? É da esquerda americana pusilânime nuns casos, a apostar no quanto pior melhor em outros.