Opinião

Carta aberta sobre a integridade patrimonial dos Painéis de S. Vicente de Fora

26 maio 2020 9:37

Um conjunto de personalidades onde se contam escritores, editores, jornalistas, investigadores e historiadores endereçaram uma carta aberta ao Presidente da República, primeiro-ministro, ministra da Cultura e Fundação BCP Millennium tendo em vista o restauro dos Painéis de S. Vicente que está atualmente a decorrer no Museu Nacional de Arte Antiga

26 maio 2020 9:37

Ao Presidente da República,

Ao Sr. Primeiro Ministro,

À Sr.ª Ministra da Cultura e

À Fundação Millenium BCP,

Está a começar o segundo restauro dos Painéis de S. Vicente de Fora, também designados por Painéis de Nuno Gonçalves. Esse restauro coloca em risco a integridade patrimonial deles, que conhecemos na versão incontestada do primeiro restauro, devida a Luciano Freire. Somos cidadãos interessados na conservação do nosso património cultural. Este inesperado restauro é suscetível de ser afinal a repintura de um elemento decisivo da nossa iconografia. O problema emerge para o conjunto dos Painéis mas coloca-se com particular acuidade em pormenores deles, nomeadamente as letras e números pintados no botim do adolescente no painel do Infante. Eles contêm a datação dos Painéis (1445) e a sua autoria, um pintor cujas iniciais eram NG e que só não será Nuno Gonçalves se em 1445 houvesse outro pintor régio cujas iniciais fossem também NG. Estes elementos decisivos para a autoria e datação dos Painéis são uma pequena área, fácil de repintar numa «melhor» decoração. Houve quem entre os nossos respeitados historiadores de arte classificasse aquelas letras e números de «decoração».

Reproduzimos de seguida essa pequena área identitária dos Painéis em risco de repintura.

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NB: Acima à esquerda, botim do adolescente do Painel do Infante, rodado a partir do original a fim de permitir a leitura; à direita: decomposição das letras pintadas (Jorge Filipe Almeida e Maria Manuela Barroso de Albuquerque, Os Painéis de Nuno Gonçalves, Verbo, Lisboa, 2003)

Consideramo-las em perigo porque o ethos atual da restauração de pinturas antigas a óleo autoriza os restauradores a repintarem o quadro baseando-se em princípios que excluem o respeito pela obra a restaurar. Citemos a este propósito José de Figueiredo, o homem que restituiu os Painéis à vida, cujas palavras continuam atuais: «Não há operação mais grave do que a limpeza de um quadro. Mal feita, a obra de arte pode considerar-se perdida. E assim diz algures muito justamente um grande técnico francês que o mal dos repintadores é nulo comparado com os que causam os que, sem competência para isso, se propõem restituir ao estado primitivo as pinturas alteradas com retoques posteriores. O segundo mal tem remédio; o primeiro não. Pois enquanto um técnico hábil pode eliminar o que foi acrescentado, o que não pode de forma alguma é restituir-lhe o que as lavagens inconscientes lhe arrancaram» (O Pintor Nuno Gonçalves, p. 26).

O caso é hoje mais arriscado do que no tempo do grande diretor do Museu das Janelas Verdes. Hoje o ethos dos restauradores de óleos antigos (que são simultaneamente historiadores de arte e diretores de museu) permite-lhes instruir os seus competentes técnicos para repintarem (e lavarem) em vez de restaurarem. Evoquemos dois casos célebres. Há umas duas décadas os restauradores de um óleo de El Greco consideraram-se autorizados a repintarem-lhe a assinatura, que se tornou quase ilegível. O que causou um escândalo nacional no país vizinho. Mais recentemente os «restauradores» do Políptico da Adoração do Cordeiro Místico dos irmãos Van Eyck, autorizaram-se a humanizar o focinho do anho e a tornar iguais as suas orelhas. O que causou escândalo.

A assinatura de um quadro de El Greco em Espanha ou um cordeiro de Cristo dos Van Eyck nos Países Baixos estão muito longe de revestirem o significado simbólico que para os portugueses reveste a integridade dos Painéis. Por isso os signatários consideram que o restauro dos Painéis, que são um ícone nacional, deve ser precedido da expressa renúncia ao suposto direito de repintura que estaria incluído no restauro. O que não aconteceu e é a primeira causa concreta de preocupação. Anuncia-se que o público será autorizado a presenciar (os) trabalhos desse restauro mas esta medida de relações públicas, aliás louvável, não substitui esse compromisso dos responsáveis.

Uma segunda razão aumenta a nossa preocupação. A Sr.ª Ministra da Cultura, Doutora Graça Fonseca, não respondeu a uma exposição do Doutor Jorge Filipe Almeida, datada de 3 de dezembro de 2019, sobre a questão da ameaça à integridade dos Painéis. Deste silêncio não é lícito deduzir que no presente restauro tutele efetivamente o valor da integridade patrimonial dos Painéis.

Queremos crer que o mecenas do restauro dos Painéis, a Fundação Millenium, um organis​mo respeitado culturalmente, velará por essa integridade.

Por isso, na nossa exclusiva qualidade de cidadãos interessados, pedimos pela presente ao Sr. Presidente da República, Professor Marcelo Rebelo de Sousa, ao Primeiro-Ministro, Dr. António Costa, e à Ministra da Cultura, Doutora Graça Fonseca, que tomem as medidas cautelares adequadas a garantir que o restauro dos Painéis de S. Vicente de Fora, em particular da minúscula zona acima reproduzida, não destrua uma peça decisiva do nosso património por via de uma repintura, disfarçada de restauro, que nos privaria da possibilidade de a datar e de identificação iconológica do seu autor, em conhecimento de causa.

Essas garantias incluem a produção de uma fotografia frontal de cada um dos seis Painéis no começo do restauro. Essas fotografias, uma vez impressas no tamanho dos Painéis, permitirá uma leitura delas tão boa como a do original. Essas garantias devem constar de um programa de restauro adequado e publicitado com o começo do restauro.

Solicitando a vossa adequada e oportuna intervenção, subscrevemo-nos com cumprimentos de elevada consideração


Lisboa, 21 de maio de 2020

Alexandre Manuel, jornalista e professor universitário

Amadeu Lopes-Sabino, escritor

Aniceto Afonso, historiador

Arnaldo Madureira, professor universitário e historiador

Avelino Rodrigues, jornalista de investigação

Carlos Almada Contreiras, historiador

Carlos Blanco de Morais, professor catedrático de Direito e analista de política internacional

Carlos Gaspar, investigador em relações internacionais

Carlos Matos Gomes, escritor

Catarina Figueiredo Cardoso, curadora independente

Cecília Barreira, historiadora da cultura

Guilherme Valente, editor e ensaísta

Irene Pimentel, historiadora

José António Veloso, jurista e investigador

Jorge Bacelar Gouveia, professor catedrático de Direito

José Carlos Costa Marques, escritor

José Vera Jardim, ex-ministro da Justiça e jurista

Luís Salgado de Matos, cientista social

Margarida Ponte Ferreira, escritora

Maria do Carmo Moser, produtora de filmes

Miguel Freitas da Costa, ensaísta

Nuno Júdice, escritor

Paulo Cintra, fotógrafo

Teresa Venda, ex-deputada e administradora