João Cândido da Silva Coordenador do Expresso Online

Jejum intermitente

12 de julho de 2021

Bom dia,

As previsões apontam para um crescimento robusto da economia portuguesa durante o segundo trimestre de 2021, mas a extensão dos estragos causados pela pandemia de covid-19 é alarmante. Um estudo promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos descreve um cenário sombrio.

“Com os presentes dados é possível estimar com 95% de certeza que, entre 55% a 61% da população está numa situação de instabilidade económica, seja por estar em perigo iminente de entrar em desequilíbrio financeiro, ou por já ter entrado em desequilíbrio ao precisar de contrair dívidas para fazer face às despesas correntes do agregado”, afirma Maria Manuela Calheiros, professora da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, que coordenou a análise social do trabalho. A conclusão é preocupante e as perspectivas podem tornar-se piores.

A recolha de informação para o estudo em causa foi realizada com as moratórias ainda em vigor. Os impactos do fim deste regime, que tem permitido adiar o pagamento de encargos com créditos contraídos mas que termina em Setembro próximo, estão por medir. Será nessa altura que se começará a perceber quem se conseguiu salvar enquanto houve apoios para mitigar inevitáveis problemas de liquidez, mas que, após o regresso à normalidade contratual, terá de enfrentar o abismo da insolvabilidade, com as poupanças esgotadas e os rendimentos em queda.

O desastre que se desenha no horizonte exige uma abordagem mais pragmática e um novo equilíbrio entre as medidas necessárias para controlar a pandemia e aquelas que se destinam a recuperar a actividade económica. A aceleração do processo de vacinação é a aposta certa, mas tem de funcionar como o seguro capaz de cobrir os riscos de uma reabertura estável, previsível e coerente. O garrote que asfixia negócios e famílias precisa de ser aliviado.

O sector da restauração é um daqueles que tem sido mais causticado, quase como se fosse a principal fonte de surtos e o grande responsável pela propagação do vírus e das respectivas variantes. As restrições que entraram em vigor neste fim-de-semana foram apenas mais um golpe duro, um rombo adicional em contrapartida de uma miragem de benefícios, semelhante àquela que fundamentou a contenção da mobilidade na Área Metropolitana de Lisboa. As autoridades policiais controlaram entradas e saídas de cidadãos na região, mas a variante Delta seguiu viagem.

O Expresso testemunhou salas vazias, e as consequentes quebras na facturação, com a excepção daqueles estabelecimentos que, numa atmosfera de crise insustentável, podem contar com o débil balão de oxigénio dos serviços de esplanada. “Não se compreende que não se façam as mesmas exigências no interior dos cafés e pastelarias ao fim-de-semana. Isso faz sentido?”, questionou o proprietário de um restaurante. Não faz, nem as contradições ficam por aqui. As praias encheram-se de veraneantes sem máscara, nem respeito pelo distanciamento recomendado, os transportes públicos circulam apinhados e, ao contrário daquilo que sucede nos restaurantes, veículos e carruagens não são desinfectados antes de receberem os passageiros seguintes.

As incongruências descredibilizam as medidas sanitárias. A percepção, adianta o estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos, é a de que um terço dos cidadãos não respeita as recomendações da direcção-geral da Saúde. O Governo recebe nota positiva no combate à pandemia mas, na frente onde se acumulam danos e prejuízos, o veredicto é o de que está a falhar na gestão da economia. A dieta do jejum intermitente imposta aos restaurantes é um exemplo do fiasco.

OUTRAS NOTÍCIAS

Inglaterra começou melhor ao marcar um golo mal o jogo tinha começado, mas a selecção italiana reagiu e conseguiu chegar ao empate. Após o prolongamento, a decisão sobre o título de campeão europeu de futebol passou para as grandes penalidades e a sorte sorriu a Itália. Na crónica sobre a final do Euro 2020, Diogo Pombo escreve que “os italianos não são cínicos, nem só defendem, são é corajosos”. Para Cristiano Ronaldo, sobrou um prémio de consolação: foi o melhor goleador.

Com um golo de Dí Maria, a Argentina venceu a Copa América na final que disputou perante o Brasil no Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro. “Necessitava de me livrar desse espinho, de conquistar algo com a selecção, estive muito perto durante anos”, afirmou Lionel Messi, a estrela da equipa vencedora da competição.

Marcelo Rebelo de Sousa dá sinais de que pretende influenciar a criação de um caminho alternativo para a reestruturação da economia e o combate à crise social. Vai o Palácio de Belém transformar-se no muro das lamentações? Ouça a análise no podcastExpresso da Manhã”, com Paulo Baldaia e Ângela Silva.

PSD, Bloco de Esquerda, Iniciativa Liberal e Chega criticam a nomeação de Vítor Fernandes, antigo administrador do Novo Banco, para a gestão do Banco de Fomento. Em causa está o facto de Vítor Fernandes ser suspeito de ter ajudado Luís Filipe Vieira na realização das operações que o Ministério Público considera terem lesado o Estado.

“Alguns estão há três anos à espera da residência em Portugal. Trabalham, têm aqui os filhos, querem estudar, abrir negócios, querem poder conduzir, ir ver a família sem medo de não poder entrar de novo. Pelo menos uma centena de imigrantes reuniu-se na tarde deste domingo no Terreiro do Paço, em Lisboa, para pedir às autoridades que acelerem os seus processos de regularização”. Reportagem de Ana França.

“Aos 85 anos, a ‘Joana D’Arc dos oceanos’ — como a apelidou o explorador e cineasta James Cameron — continua incansável na sua defesa dos oceanos. Sylvia Earle esteve em Portugal para participar na Glex Summit, que decorreu entre Lisboa e os Açores ao longo dos últimos seis dias. O Expresso falou com a oceanógrafa, este sábado, num dos seus espaços favoritos de Lisboa — o Oceanário”. Entrevista de Carla Tomás.

Em Lisboa, várias dezenas de pessoas protestaram contra os actuais preços dos combustíveis. Queixaram-se de terem de suportar um custo elevado num cenário de crise e recordaram o peso da carga fiscal. “Vamos estar na rua daqui a 15 dias se não tivermos resposta e nos 15 dias seguintes, sempre aos domingos”, prometeu um dos organizadores.

Diogo Araújo Dantas é cabeça de lista do Partido Popular Monárquico na corrida eleitoral à Câmara do Porto e decidiu avançar com uma queixa junto da Comissão Nacional de Eleições. Alega que Rui Moreira incorreu numa prática abusiva ao usar a expressão 'Porto.' (Porto ponto) na denominação da recandidatura 'Aqui Há Porto.' O nome da cidade é uma marca registada desde 2015.

Rebelde, excêntrico e subversivo. O desenhador de humor Vasco de Castro morreu neste domingo aos 85 anos.

Em Espanha, Pedro Sánchez decidiu fazer uma remodelação do Governo. Para os analistas, a profundidade das mudanças operadas pelo primeiro-ministro causou surpresa. Ángel Luis de la Calle explica as mudanças e o respectivo significado.

Uma hora de voo, quatro minutos de gravidade zero. Richard Branson concretizou neste domingo um sonho antigo. "É um lindo dia para ir para o espaço", escreveu o empresário, dono da Virgin, na rede social Twitter.

PODCASTS A NÃO PERDER

Estamos perante o princípio do fim de Luís Filipe Vieira? Depois da semana que ficou marcada pela detenção do presidente do Benfica, a análise no "Expresso da Meia-Noite" pela comentadora da SIC Ana Gomes e os jornalistas Pedro Coelho (SIC), Miguel Prado (Expresso) e David Borges (comentador da SIC).

🐙 “Isto é sinistro, é um polvo de interesses que tem tido proteção política”. Como não dá mesmo para fugir ao tema, no "Tabu", espaço de análise na SIC Notícias, Francisco Louçã opina sobre a detenção de Luís Filipe Vieira e as implicações a nível político e económico.

🎯 “O Benfica deve convocar rapidamente novas eleições. Este caso prejudica a imagem de Portugal lá fora”. Nuno Rogeiro abre a análise do "Leste/Oeste" com o impacto internacional da notícia da detenção do presidente do SLB. Incontornável, dentro e fora do retângulo lusitano.

FRASES

"Faz pouco sentido que um homem com 72 anos, com família, filhos e netos e toda a sua vida organizada aqui tivesse a menor tentação de fugir para o estrangeiro por causa disto”, Magalhães e Silva, advogado de Luís Filipe Vieira

“Aprendemos as lições do passado, quando o papel do banco central não foi exatamente aquele que poderia ter sido", Mário Centeno

“Adorava testemunhar o mundo de há mil anos, antes de termos começado a exterminar a vida na terra”, Sylvia Earle, oceanógrafa

O QUE ANDO A LER

Uma visita à National Portrait Gallery, em Londres, desencadeou a curiosidade de Julian Barnes por uma figura retratada pelo pintor John Singer Sargent. Seguiu-se uma cuidada investigação para saber quem era, afinal, “O Homem do Casaco Vermelho” que surgia na tela. Finalmente, o autor britânico publicou um livro em que não só desvenda o mistério, como acaba por mergulhar nos meandros do período da vida francesa que foi apelidado de ‘belle époque’.

Samuel Pozzi, o modelo do quadro de Sargent que fascinou Barnes, foi um cirurgião famoso entre o final do século XIX e o início do século passado. Pioneiro da ginecologia, classificado pela actriz Sara Bernhardt como “Doutor Deus”, conviveu com membros da alta sociedade de França e com gente famosa das artes e das letras do seu tempo, como Marcel Proust e Oscar Wilde.

Se o pretexto de “O Homem do Casaco Vermelho" é a descoberta dos detalhes da vida de Pozzi, o livro acaba por ir muito mais longe. Revela os escândalos, os mexericos, as rivalidades e as desavenças políticas, com destaque para aquelas que rodearam o ‘caso Dreyfus’, que caracterizaram a era de criatividade e progresso que iria cessar com a eclosão da Primeira Guerra Mundial. O trabalho de pesquisa realizado pelo autor é meticuloso e este livro beneficia de dois dos grandes trunfos de Julian Barnes: o talento para contar histórias e a ironia afiada.

O QUE ANDO A OUVIR

Uneasy”, Vijay Iyer Trio. Um dos pianistas mais originais das últimas décadas regressa com um novo trio. A Vijay Iyer juntam-se Linda May Han Oh, no contrabaixo, e Tyshawn Sorey, multi-instrumentista que toma conta da bateria nesta gravação. Às composições originais de Iyer juntam-se versões de temas de Cole Porter e de Geri Allen, interpretadas com vigor e uma clara química entre os membros da banda.

Reciprocity”, María Grand. Terceiro álbum liderado pela saxofonista de origem suíça, com um trio feminino que inclui a contrabaixista Kanoa Mendenhall e a baterista Savannah Harris. A música evolui nos terrenos do jazz espiritual, inspirado na obra de nomes como Alice Coltrane e Pharoah Sanders, conduzida com segurança pelo saxofone melódico e pelas vocalizações de María Grand.

Sunrise Reprise”, Chris Potter. Há dois anos, Chris Potter lançou-se numa nova aventura musical com um trio integrado pelo teclista James Francies e pelo baterista Eric Harland. A estreia discográfica desta banda foi marcada pela edição de “Circuits” e “Sunrise Reprise” retoma o projecto. É mais uma peça brilhante na carreira do saxofonista, detentor de recursos técnicos deslumbrantes.

Kintsugi”, João Mortágua e Luís Figueiredo. O saxofonista João Mortágua e o pianista Luís Figueiredo lançam-se na livre improvisação, à qual juntam algum trabalho de pós-produção que inclui a adição de elementos de electrónica aos temas. “Kintsugi” é a primeira gravação deste duo que começou a colaborar há quase uma década e traduz-se em música estimulante e desafiadora.

E é tudo. Acompanhe a actualidade no Expresso, Tribuna e Blitz. Espreite as sugestões do Boa Cama Boa Mesa e tenha um excelente dia.

[Esta newsletter foi corrigida às 16h33 de 13 de Julho de 2021. Por lapso, na referência feita à notícia sobre a queixa do candidato autárquico do PPM à Câmara Municipal do Porto junto da Comissão Nacional de Eleições, mencionava-se, erradamente, que o objecto da iniciativa tinha a ver com a expressão 'Aqui Há Porto.' quando, na verdade, a controvérsia incide sobre a expressão 'Porto.'. Pela imprecisão, pedimos desculpa aos leitores e ao visado Diogo Araújo Dantas]

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