Paula Santos Diretora-adjunta

As aulas recomeçam. O futebol regressa e há polémicas que não saem do debate. Chegou a fase de Contingência

15 de setembro de 2020

Bom dia!

585, 687, 497, 673, 613
.

Já se deve ter deparado com estes números ou outros na mesma escala de valores, mas se ainda não se deu conta, detenha-se por momentos.

São cinco, a título de exemplo, mas podiam ser mais. Foram registados entre a última quarta-feira e domingo. Cinco dias, cinco atualizações dos novos casos de covid-19 em Portugal.

Esta foi a pior segunda-feira em número de casos desde abril (613) e antecede a entrada em vigor de uma nova fase na abordagem à pandemia. A situação de Contingência (chamemos-lhe assim) começa agora e prolonga-se, pelo menos até ao final do mês.

Reduzem-se os ajuntamentos, apertam-se as regras dos estabelecimentos comerciais e aplica-se, ao resto do país, a generalidade das limitações já impostas na região de Lisboa.

Mas há exceções (e são muitas) e dúvidas a conferir aqui.

A nova fase entra em vigor no dia em que se assinalam 41 anos do SNS. O Presidente da República não deixa passar a data sem elogiar os profissionais de saúde, ao mesmo tempo que defende um reforço de meios do Serviço Nacional de Saúde. Numa nota publicada no site da presidência, Marcelo Rebelo de Sousa agradece “o enorme sacrifício pessoal e familiar” e a dedicação daqueles que chama de “verdadeiros heróis”.

Estamos na semana do regresso presencial às aulas. Com as infeções a subirem de forma significativa e consistente e as escolas a reabrirem, está criado um rastilho que é preciso acompanhar com muita atenção. O Governo já assegurou que os planos não são para voltar a confinar e que as alternativas estão planeadas.

Num cenário que nunca se tinha colocado, não se estranham as preocupações dos pais ainda em fase de adaptação. Para alguns, que o Expresso acompanhou, o ano letivo coincidiu mesmo o arranque da semana e as mudanças são tantas que é preciso criar novas rotinas.

Os primeiros relatos deixam bem à vista as diferenças e as dúvidas e preocupações dos pais. “Então e o distanciamento?” a pergunta que se repete. O virologista Pedro Simas é defensor do regresso das aulas presenciais e, ao programa Polígrafo da SIC disse que “Portugal tem as ferramentas necessárias para prevenir a disseminação descontrolada”.

Cabe aos professores a difícil gestão das aulas em tempos de pandemia e para aqueles que estão sujeitos a fatores de risco, o ministro da Educação deixa a mensagem, “têm livre arbítrio” para decidirem se continuam ou não a trabalhar. A “escolha”, como lhe chama o ministro, pode implicar o recurso a baixa médica com pagamento de salário por inteiro apenas nos primeiros trinta dias.

Os números da covid-19 sobem mas não assustam a Liga de Futebol. Os jogos da primeira Liga arrancam mesmo na sexta-feira, garantem o presidente da Liga e o secretário de Estado da Saúde, apesar infeções já detetadas. Pedro Proença prepara-se aliás para tentar negociar o regresso do público às bancadas já em outubro, mas o Governo tem sido mais cauteloso na resposta.

Aqui, como lá fora, os estádios permanecem vazios e é nesse cenário que o Benfica procura daqui a uma horas um lugar na Liga dos Campeões.

O jogo com o PAOK da Grécia é decisivo para saber em que palco a equipa da Luz joga nas competições europeias e noutros tempos teria tido menos interesse por parte do treinador mais focado na Liga portuguesa. Mas Jorge Jesus mudou e assume que tem agora outras ambições. Mas isto é o jogo dentro das chamadas “quatro linhas”.

OUTRAS NOTÍCIAS


Começamos a segunda parte deste Expresso Curto pela notícia que continua a fazer correr tinta desde que foi revelada no sábado pelo Expresso.

António Costa e Fernando Medina fazem parte da Comissão de Honra da recandidatura do presidente do Benfica.

Costa já disse e repetiu que o faz a título pessoal e entende que são assuntos distintos. Fernando Medina, sem surpresas, não pensa de maneira diferente. Não encontra “qualquer tipo de incompatibilidade” nem entende que a decisão possa influenciar a forma como exerce as suas funções. Estranha mesmo a multiplicação de notícias sobre o assunto, o que não tinha acontecido no passado.

O primeiro-ministro e o autarca de Lisboa não encontraram razão para mudarem de opinião sobre a renovação do apoio a Vieira, apesar de o presidente do Benfica e do próprio clube estarem, desde há alguns anos, envolvidos em vários casos de justiça que podem mesmo vir a ter novos desenvolvimentos em breve.

Costa e Medina têm estado praticamente isolados contra uma larga maioria de opiniões críticas, que vão desde partidos a comentadores e candidatos presidenciais a que nem escaparam as dúvidas do Presidente da República que vai falar sobre o tema com o Chefe de Governo.

Há também quem tente contornar o tema o mais possível, como foi o caso da ministra Mariana Vieira da Silva que não o queria comentar mas acabou a defender a ideia de que se trata de uma escolha feita “a titulo pessoal”. Ao Expresso, Daniel Oliveira fala do que “Costa desaprendeu do caso Sócrates”. Vale ainda a pena referir a opinião de Pinto da Costa que se interroga – note bem – se os apoios agora revelados serão benéficos para Luís Filipe Vieira. O alvo, claro está, é António Costa.

Sobram motivos para que o tema continue a marcar a atualidade.

8,6 milhões de euros. É o valor do empréstimo concedido pelo Novo Banco para socorrer uma empresa de Luis Filipe Vieira no Brasil. O financiamento, aprovado há 3 anos, serviu para atenuar problemas de tesouraria no grupo Promovalor, do qual Vieira é o maior acionista. Conta-lhe os detalhes da operação.

Ainda o Novo Banco. A auditoria não revela os nomes dos grandes devedores mas o recurso à memória e à pesquisa de informações mais antigas deixa à vista cenários que permitem chegar a conclusões. E é aí que encontramos os nomes de duas empresas: A Ongoing e a Sogema. Mas há mais.

Não faltam ingredientes para não perder de vista a audição de António Ramalho esta terça-feira no Parlamento. O Presidente do Novo Banco vai ser ouvido na Comissão de Orçamento e Finanças para falar sobre negócios da alienação de imóveis e carteiras de crédito. E do mais que a audição trouxer.

O ex-presidente do Tribunal da Relação de Lisboa está a ser investigado por crime de abuso de poder. O “Público” escreve que o Ministério Público investiga Orlando Nascimento à margem da Operação Lex.

A antever as eleições para a presidência da República, há uma proposta do PSD que defende o voto antecipado para os eleitores vítimas de confinamento obrigatório por causa da pandemia. O projeto partiu do grupo parlamentar social democrata e recupera uma ideia que já tinha sido posta em cima da mesa, mas que não obteve resposta.

O PS e as presidenciais. Será já em Outubro que a decisão socialista fica fechada, escreve a TSF que diz que vai ser convocada uma reunião da Comissão Nacional socialista para a primeira quinzena com o tema na agenda, mas também para falar do Orçamento do Estado.

Mil euros. Caso encerrado. O Ministério Público deu como provado que a deputada do PS Hortense Martins e o pai falsificaram documentos oficiais mas resolveu o caso sugerindo o arquivamento do processo a troco de um pagamento de mil euros.

Quais são afinal os planos da TAP para 2021? A transportadora foi (outra vez) acusada de ignorar o Porto nas rotas turisticas. Defende-se agora dizendo que os planos ainda não estão fechados.

Ainda não há escalas em Lisboa. Os navios de cruzeiro, que contribuíam para as enchentes turísticas na cidade, têm-se mantido ao largo e assim vão continuar pelo menos até ao fim do mês do setembro. A isso obrigam os números da pandemia.


LÁ POR FORA


“O Íemen é uma tragédia guardada para o futuro”
– as palavras são de Amhed Benchemsi, um dos responsáveis pela Human Rights Watch, ao analisar para o Expresso a situação que o país atravessa. A palavra “tragédia” nada tem de excessivo quando ficamos a saber que, por dia, o o número de crianças com fome pode atingir as 400 mil e que 80% da população precisa de ajuda para sobreviver.

Brexit. O acordo está fechado e não depende da legislação inglesa, mas Boris Johnson parece querer fazer tábua rasa de uma parte do que ficou estabelecido entre o Reino Unido e a União Europeia. Levou a votos a chamada “Lei do Mercado” e, numa primeira fase, teve o Parlamento do seu lado.

Bielorrússia. Putin saiu em socorro do seu homólogo Alexander Lukashenko (com quem se reuniu na Rússia) ao anunciar o apoio à reforma constitucional em curso pensada para estancar a enorme vaga de protestos.

O Expresso a bordo de um navio de resgate de refugiados que opera no Mediterrâneo. Marta Gonçalves conta a história de uma inspeção policial que punha em risco a missão em alto mar. Aproxima-se o momento da partida.

Causar a morte de alguém por negligência ao conduzir e ficar preso para o resto da vida. É isto mesmo, o que defende a proposta do ministro britânico da justiça que vai ser apresentada esta semana. Irrepetível em Portugal.

Já esteve mais longe a compra da rede TikTok pela Oracle, numa guerra americana de milhões que também envolve a Microsoft e e Walmart.

As nuvens de Vénus. Um grupo de astrónomos detetou a presença de um gás na atmosfera do planeta que pode ser justificado pela existência de micróbios. Será possível “viver” nas nuvens? A pergunta surge depois da publicação do estudo da revista “Nature Astronomy”. Há uma portuguesa entre os investigadores.


O QUE ANDO A OUVIR


Apresento-lhe o novo Podcast do Expresso dedicado a África. Acabado do estrear, debate quinzenalmente os temas mais importantes e desafiantes do continente africano.

Esta semana analisamos de que forma será possível equilibrar o crescimento demográfico com o desafio da transformação estrutural. E vamos fazê-lo à conversa com o Alto Comissário da União Africana para as relações com a União Europeia. Um trabalho conduzido pela jornalista do Expresso, Cristina Peres.

África Agora, tome nota.


FRASES


Jorge Jesus: “A minha grande ambição agora já não é só ser campeão nacional”

Marcelo Rebelo de Sousa: “verdadeiros heróis, têm dedicado o melhor de si próprios a cuidar dos portugueses” – Mensagem dedicada aos profissionais de Saúde.


O QUE ANDO A LER


Já tinha passado os olhos pela capa e pelas páginas que antecedem o início da narrativa semanas antes de me lançar verdadeiramente na leitura. No fundo, uma espécie de exercício de antecipação incontida que só serviu para aumentar a expectativa de encontrar um daqueles enredos que nos prende de fio a pavio e surpreende ao virar de cada página.

O livro mais recente de Joel Dicker não desilude. Ainda recente na memória, “o desaparecimento de Stephanie Mailer” era a minha meta a superar. Mas este é um livro diferente. É um texto em que o próprio escritor entra em cena, o que faz com que a história se desenrole em vários cenários paralelos, onde ele próprio evolui ao nível de qualquer outro personagem.

Entramos no universo de vida do autor e deixamos de distinguir a realidade da ficção, sendo que sobressai claramente a homenagem (real) ao homem a quem dedica o livro e a quem assume que muito deve na sua caminhada de escritor: Bernard de Fallois “editor, amigo e mestre” que morreu em 2018.

O resto é a confirmação dos mais recentes romances. A dose certa de suspense, os ingredientes que alimentam um mistério onde não falta um inexplicado crime e as histórias de vidas que nos levam por caminhos inesperados, onde as ideias que tomamos como certas à partida, são tudo menos isso.

Retenho um trecho onde o escritor de 35 anos responde à pergunta sobre o seu próprio trabalho: - E como se cria uma intriga? Ora, uma intriga, como o nome indica, deve partir de perguntas. Comece por criar a trama de maneira interrogativa. Quando respondemos às perguntas, os personagens, os lugares e as ações surgem por si mesmas.

Simples? Complexo, seguramente, “O enigma do quarto 622”.


E é por aqui que me despeço por agora. Já sabe onde nos encontrar para se manter atualizado.

Expresso, Tribuna, Blitz. Tenha uma ótima terça-feira!

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