Pedro Cordeiro Editor da Secção Internacional

Das tripas coração, dos pulmões cérebro

14 de setembro de 2020

Bom dia e boa semana!

Até ao dia em que sai a próxima edição do Expresso em papel, os milhares de alunos do ensino obrigatório que ainda estão de férias vão regressar progressivamente às aulas. Ficará reposta a normalidade possível naquele que foi um dos universos mais emblemáticos do confinamento, já que a ordem do Governo para fechar as escolas foi, há cerca de meio ano, o sinal mais claro aos portugueses sobre o muito que a vida ia mudar. E mudou, aqui e alhures. No recomeço, também aqui e alhures há regras distintas.

A volta às aulas só pode fazer-se por tentativa e erro. Parece evidente o desejo de evitar novo fecho generalizado, quer dos estabelecimentos de ensino quer do resto do país, mas ninguém sabe como vai evoluir a pandemia (o número de casos cresce em Portugal e não só, o que era de esperar) e nem todos estão dispostos a seguir o apelo à confiança do secretário de Estado da Educação. Nos primeiros dias com escolas a funcionar, já houve turmas mandadas para casa, o que tampouco constitui surpresa, embora se pretenda exceção, explica a diretora-geral da Saúde.

Não há grande discussão em torno da importância para o aluno, que tem de estar no centro da escola, de as aulas serem presenciais. Há vertentes do ensino que o jamais se cumprirão à distância, pese embora o louvável esforço da passada primavera para concluir o ano letivo. A proximidade na relação professor-aluno e a interação em sala e fora dela (com o docente e com os pares) são cruciais para tudo o que na escola não se cinge a “dar matéria”.

Como disse o Presidente da República, “o ensino não presencial não é verdadeiramente ensino completo”. Acrescento que a desigualdade no acesso à educação, que a pandemia pôs a nu e agravou, é prenúncio de desigualdades mais profundas na vida subsequente. Já agora, recomendo este trabalho sobre os riscos e as angústias da já chamada ‘geração c’. De coronavírus.

Nesta incerteza, é bom saber que a GNR tem em curso uma operação para esclarecer pais e alunos. É interessante saber que, à medida que as famílias se preparam para esta gesta, não é a vida na escola que mais inquieta encarregados de educação. Quanto aos professores, variável também importante em toda esta equação — indispensáveis para o êxito (nas circunstâncias) dos II e III períodos do ano 2019-2020 e do que tivermos pela frente —, os que fazem parte de grupos de risco ainda não sabem bem o que os espera.

Marcelo Rebelo de Sousa aconselhou humildade no regresso, pedindo aos cidadãos que façam “das tripas coração”. “Agora, isso obriga a um esforço que, eu percebo os professores e os sindicatos dos professores, é muito difícil, percebo os pais e associações de pais, é muito difícil, percebo os jovens, porque para eles ainda é mais difícil. Mas vamos ter de lidar com isto, quem sabe, meia dúzia de meses”, reconhece o chefe de Estado.

O Governo assumiu o regresso físico à escola como plano A, mas reservou a hipótese de haver planos B (misto) e C (remoto), dependendo dos dados epidemiológicos da covid-19. Para já, e a irmos para uma das duas (como aconselham alguns peritos), faltam computadores. Virão em breve, garante o Executivo.

Virão ou não, como noutras promessas. Até lá, e desde já, e urgentemente, a situação ímpar que vivemos deve impelir-nos a repensar a escola. Tendo em conta a necessidade de impor regras que minimizem os riscos para a saúde de alunos, funcionários e respetivas famílias, mas nunca esquecendo, como alertam especialistas citados pelo “Público”, que um regresso “militarizado” à escola pode desencadear uma pandemia de saúde mental.

Respiremos fundo, portanto, e vamos a isto. Pelos nossos miúdos, que são o futuro de Portugal. Navegar é preciso, em águas agitadas. Viver também é preciso.

Outras notícias de cá

ENCARNIÇADOS A presença do primeiro-ministro e do presidente da Câmara de Lisboa na comissão de honra da recandidatura de Luís Filipe Vieira à presidência do Benfica continua a gerar indignação. Marcelo assegura que vai falar com António Costa sobre o assunto e, se o chefe dos encarnados fala em calúnia, o desconforto é indisfarçável. Autarca e governante alegaram que apoiar Vieira (atolado em investigações e suspeitas) nada tem que ver com a sua vida política, mas é legítimo perguntar, sem a parte política das suas vidas, que notoriedade os levaria à comissão de honra. Fatal é também recordar as palavras do chefe do Executivo há quatro anos, quando João Soares se demitiu após uma intervenção desastrosa nas redes sociais: “Já recordei aos membros do Governo que, enquanto membros do Governo, nem à mesa do café podem deixar de se lembrar que são membros do Governo”. Ana Gomes ecoa o sentir de grande parte do país (não é sequer a primeira socialista a fazê-lo) e Ana Sá Lopes defende que a candidata presidencial que, escreve Anselmo Crespo, traz valor acrescentado à disputa de janeiro de 2021 até pode vir a beneficiar desta promiscuidade entre política e futebol. Fica a dúvida: foi total falta de faro político, sensação de impunidade ou comprometimento que ditaram tão desaconselhada decisão?

CINEASTA PREMIADA A portuguesa Ana Rocha de Sousa foi premiada múltiplas vezes no Festival de Veneza pela sua longa-metragem de estreia, “Listen”, sobre vidas precárias no abastado Reino Unido. O chefe de Estado já lhe mandou os parabéns.


PROTEÇÃO DIVINA Imagens das celebrações de domingo no santuário de Fátima mostraram uma acumulação de pessoas que é duvidosa no momento em que as autoridades reforçam as restrições. Os responsáveis pelo recinto afirmam tê-lo fechado mal sentiram que havia riscos. O respetivo reitor fala ao Expresso de como aquele local de peregrinação tem vivido com a pandemia.

OS PLANOS DO (OUTRO) COSTA António Costa Silva, escolhido pelo Governo para gizar o plano de recuperação do país pós-covid, apresenta amanhã as linhas gerais do seu trabalho.

JOGOS ADIADOS Ontem era para haver Sporting-Nápoles, no âmbito do torneio dos cinco violinos, mas contágios com covid-19 na equipa leonina ditaram o adiamento da partida. Também o Feirense-Chaves foi impedido de realizar-se, este bem em cima da hora.

Outras notícias de lá

老大哥 IS WATCHING YOU A firma chinesa Zhenhua Data compilou dados sobre milhões de pessoas em todo o mundo, figuras públicas e não só. A lista inclui políticos, militares, membros da família real britânica, empresários, académicos e outros notáveis. A revelação fez-se sentir na Índia, que há dias trocou tiros com a China nos Himalaias, e também na Austrália. O número de países afetados será vasto, incluindo os Estados Unidos e o Canadá. Não admira que um livro recente do major-general Carlos Branco defenda que Pequim vai ser um osso mais duro de roer para Washington do que Moscovo foi na Guerra Fria.

Я выиграл! A oposição russa reivindica vitórias simbólicas nas eleições regionais de ontem. Saiba o que esteve em causa nesta ida às urnas, num momento de grande tensão para o país mais vasto do planeta. Pressionado pelo Ocidente devido ao envenenamento do opositor Alexei Navalny, a braços com a rebelião na Bielorrússia contra o ditador Alexander Lukashenko (que pede ajuda a Vladimir Putin), o Kremlin quer tudo menos agitação pós-eleitoral.

BYE-BUY? Quase nove meses depois de ter saído da União Europeia e a pouco mais de três do fim do período de transição do ‘Brexit’, o Reino Unido ainda não chegou a acordo com os 27 sobre a relação bilateral futura. O anúncio de Boris Johnson de que violará o direito internacional, ignorando o que ele próprio combinara com Bruxelas sobre a Irlanda do Norte, enfureceu as capitais europeias e também horrorizou concidadãos do primeiro-ministro. Bernardo Pires de Lima analisa o caso no “DN”. A proposta de Johnson vai hoje a debate na Câmara dos Comuns e não é certo que passe, embora o Governo conservador tenha maioria absoluta.

TRUMP ON FIRE Com os incêndios florestais a juntarem-se às agruras pandémicas, prossegue a campanha para as presidenciais nos Estados Unidos. Donald Trump passou o fim de semana no Nevada, tentando debelar as acusações de ocultação da gravidade da covid-19 que resultam de entrevistas ao veterano jornalista Bob Woodward. O Presidente republicano continua a lançar acusações infundadas de manipulação das eleições pelos adversários democratas, pelo que é útil saber como aferir a fiabilidade de um ato eleitoral. E se há dias lembrávamos as vítimas dos atentados de 11 de Setembro de 2001, recordemos que a de novembro é a primeira eleição em que os nascidos nesse ano vão votar.

שלום ou سلام Os Emirados Árabes Unidos e Israel assinam amanhã na Casa Branca o estabelecimento de relações diplomáticas. Com o Bahrein a anunciar idêntica intenção, juntam-se ao Egito e à Jordânia enquanto países árabes a reconhecer o Estado judaico. O êxito diplomático de Trump não pode ser desmentido, como frisa o Leonídio Paulo Ferreira. resta saber que réditos eleitorais poderá valer-lhe.

HAMILTON, WHO ELSE? O grande prémio de Fórmula 1 da Toscânia foi acidentado, mas não espantou.

PAS SEULS A redação do “Charlie Hebdo” volta a ser alvo de ameças extremistas da Al-Qaeda, mais de cinco anos após a chacina na sua redação. Inúmeros intelectuais franceses prometem aos autores daquela revista satírica que estarão a seu lado na defesa da liberdade de expressão.

Frases

“Não quero acreditar que o primeiro-ministro ache que as eleições do Benfica são mais importantes que as eleições para Presidente da República”, disse Ana Gomes

“Não estou só a contar uma história, estou a retratar a realidade das adoções forçadas”, explicou Ana Rocha de Sousa, premiada no Festival de Cinema de Veneza

“Foi a paixão deles que me trouxe até onde estou hoje”, contou Kamala Harris, candidata a vice-presidente dos EUA, falando dos seus avós

O que ando a ver e a ouvir

Além da temporada de música da Gulbenkian, que amanhã começa a vender bilhetes avulsos para um número limitado de concertos, quero ir a Belém ver Julian Opie e a Santa Apolónia ver mais concertos da série Boca do Lobo, após o maravilhoso serão com a harpista Angélica Salvi, sexta-feira passada. Também ouvi, sábado, o concerto dos 70 anos de Jorge Palma, que pode ouvir aqui na íntegra ou revisitar em fotos e prosa aqui. Em breve ouvirei o que outro músico português, Samuel Úria, disse ao podcast da Blitz. Para já conheci a sua nova canção “Muro” e a colaboração com Sérgio Godinho para retratar “O novo normal”.

Entretanto, se ainda não ouviu a edição da rentrée do podcast O Mundo a Seus Pés, da secção internacional do Expresso, saiba que ainda vai a tempo. E que dentro de horas poderá conhecer África Agora, o novo podcast da mesma secção, que alternará semanalmente com aquele. É conduzido pela Cristina Peres, grande conhecedora do assunto.

O que ando a ler

Acabou ontem a Feira do Livro por que mais esperaram os fiéis da dita. Não vos maço com a longa lista do que lá comprei, antes dou conta de quatro-livros-quatro que me deliciaram nas últimas semanas.

De Teresa Veiga, uma das pessoas que melhor escreve na nossa língua, “Cidade Infecta” (Tinta-da-China), seu segundo romance e primeiro livro em cinco anos. Uma história num certo Portugal passado de que muito subsiste, que se lê com vontade, com a módica dose de perversidade a que a autora nos habituou e, sobretudo, um acutilante sentido de observação do seu semelhante.

No ensaio, a mais recente publicação de Bernardo Pires de Lima, um dos mais interessantes analistas de política internacional do país. Virado quer para fora quer para dentro, deu à estampa “Portugal na Era dos Homens Fortes – Democracia e Autoritarismo em Tempos de Covid” (Tinta-da-China). Trata-se de atualíssimo retrato de aspirantes a tiranos que ascendem, com a pandemia a servir de pretexto a tendências já antes visíveis. E propõe, o que é sempre meritório, vias para o Ocidente liberal e democrático, de que o autor se assume defensor, superar tamanho desafio.

Na poesia, uma estreia. “Observação da gravidade” (Guerra e Paz), de André Osório, é uma agradável surpresa. O poeta, mentor da revista literária “Lote”, propõe vias de intimismo, autointerrogação, apontamentos biográficos reais ou criados, numa sonoridade cativante. Transcrevo o breve poema “Húmus”:

Que a tua língua
se encontre com o deserto
da minha pele.

Já vi coisas mais belas
nascer do húmus.


Na novela gráfica, “Aqui é um bom lugar” (Planeta Tangerina), de Ana Pessoa e Joana Estrela. É uma espécie de scrapbook, galardoado em 2018 com o prémio literário Maria Rosa Colaço de literatura juvenil e recomendável também para idades mais avançadas. Na transição do liceu para a universidade, e fechando assim o ciclo deste Expresso Curto, todos encontraremos aqui motivos de identificação.

Despeço-me então, com votos de boa semana, o conselho de cumprir as regras de segurança e saúde (que mudam amanhã) e o consolo de saber que o preço da gasolina desce. Recordo, como sempre, que o Expresso está sempre aqui para vos informar.

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