Martim Silva Diretor-Adjunto

A bazuca da Europa afinal é um tiro no próprio pé

20 de julho de 2020
Costa e Merkel: em cimeira difícil, trocaram presentes

Costa e Merkel: em cimeira difícil, trocaram presentes

Stephanie Lecocq/Reuters

Bom dia,
Hoje é 20 de Julho de 2020 e no início desta semana o meu principal destaque é a complicadíssima cimeira europeia (já vai no quarto dia), que nos últimos três dias procurou fechar um acordo quanto ao mega-pacote de ajuda à recuperação depois da pandemia da covid-19. Um encontro, um mais, em que ficaram bem visíveis, quais fracturas expostas, as profundas divisões atuais entre os Estados europeus. Um triste espectáculo de norte contra sul, oeste contra leste, frugais contra os supostos gastadores.

Neste início de semana, há outros temas incontornáveis, como as duas grandes, e polémicas transferências do momento: o regresso de Jorge Jesus ao Benfica cinco anos depois, e a saída de Cristina Ferreira da SIC para voltar à TVI.

Venha daí comigo,

CIMEIRA DA UNIÃO EUROPEIA

Começemos pelo início. Há três meses, no pico da pandemia, criou-se a ideia de um fundo de recuperação para ajudar os países da Europa mais afetados. Macron e Merkel juntaram-se e afinaram o montante da 'bazuca': 500 mil milhões de euros. Com a ajuda da Comissão Europeia, o plano de Bruxelas alargou-se, com estímulos previstos que ascendiam a 750 mil milhões de euros, dois terços em subsídios, um terço em empréstimos.

Na altura muito se escreveu como este plano representava não só muito dinheiro (é muito mesmo) mas uma resposta capaz da União Europeia de reagir perante a anunciada maior crise de sempre: Muitos suspiraram de alívio.

Agora, em plena presidência alemã da UE, os líderes juntaram-se na sexta-feira para aprovar o pacote de ajuda. Mas, até agora, nada de fumo branco.

A chamada aliança dos frugais, entre Holanda, Áustria, Suécia e Dinamarca (e ainda com a Finlândia, que se juntou ao grupo), impede a luz verde, insistindo em que o pacote seja reduzido e as políticas compensatórias claras. Ou seja, quem recebe faz reformas estruturais. Os restantes países rejeitam que as ajudas por causa de uma pandemia tenham de ter o aval futuro dos ministros das Finanças europeus.

Ao mesmo tempo, e noutra frente, a Hungria, apoiada pela Polónia e Eslovénia, torce o nariz a que o dinheiro que chegue tenha como contrapartida a exigência do respeito pelo Estado de Direito (linha que o regime de Órban em Budapeste tem sucessivamente violado).


Enfim, um encontro que servia para aprovar uma ‘bazuca’ de muitos milhares de milhões de euros mas que, no final de contas, mais parece nesta altura um enorme tiro de bazuca da União Europeia no seu próprio pé.

António Costa, numa das pausas, afirmou: "Temos visões profundamente distintas do que é a União Europeia. E aquilo que é o espírito que tem de animar uma união como aquela que nós constituímos já não é partilhado por todos. Essa é a realidade".

Ponto de situação: Domingo à noite a reunião em Bruxelas foi interrompida, tendo sido retomada pelas cinco da manhã de hoje, mas rapidamente interrompida novamente. E deve prosseguir na tarde desta segunda-feira.


De acordo com as últimas informações, o que separa os dois grupos é agora algo como 50 mil milhões (o grupo dos frugais quer subsídios a fundo perdido no montante de 350 mil milhões e a outra metade em empréstimos; Alemanha, França e os países do Sul aceitariam ir até aos 400 mil milhões de subsídios e 350 de empréstimos). Mas além da diferença nos valores, também há divisões profundas sobre as garantias a dar pelos países que receberem as verbas.

Finalmente, e só para que se tenha uma ideia da enorme embrulhada em que estão os líderes: ao fim de três dias divididos sobre o plano de recuperação, os países europeus ainda nem começaram a discutir o montante do orçamento europeu, outro ponto altamente divisivo entre os estados-membros.


Eis um conjunto de resumos e relatos do que se está a passar em Bruxelas. Aqui a visão do El Pais, Aqui o que escrevia a correspondente do Expresso a meio da cimeira.

Esperemos, sinceramente, que esta segunda-feira nos traga boas novas.



CRISTINA FERREIRA
No panorama dos media nacionais, e em particular das televisões, o clima está ao rubro. Dois anos depois de ter perdido a sua estrela de audiências para a SIC (do grupo Impresa, proprietário do Expresso), a TVI (ela própria a viver um período atibulado, com o processo de compra da estação pelo empresário Mário Ferreira ainda a decorrer) foi à estação de Paço de Arcos resgatar a sua estrela perdida.

A notícia é de sexta-feira à noite mas motivou reacção firme da Impresa, que exige 4 milhões à apresentadora. E de Daniel Oliveira, o responsável máximo pela programação e entretenimento da SIC, que já veio deixar claro que a partir de agora Cristina Ferreira é adversária e concorrente direta - já hoje, o seu programa na SIC é substituído pela 'Casa Feliz', com João Baião ao leme, coadjuvado por outras estrelas da estação, como Diana Chaves.

Do que se sabe, Cristina Ferreira (que se explicou assim) volta para a TVI como responsável máxima pelo Entretenimento (pasta deixada vaga com a passagem de Nuno Santos para uma espécie de director geral da estação de Queluz), tornando-se ao mesmo tempo accionista da estação, ou seja, proprietária. De acordo com o Público, o total da transferência ascende a qualquer coisa como 7 milhões de euros.

Além das mudanças no entretenimento, também a Informação da TVI vai ter nova liderança, com a chegada de Anselmo Crespo, ex-SIC e ex-TSF, para substituir Sérgio Figueiredo.

À margem dos protagonistas, também Rui Rio, presidente do PSD, se veio meter no assunto, dizendo não perceber como é que uma estação que recorreu aos apoios de emergência do Estado para os media no âmbito da pandemia (15 milhões no total) agora se permite fazer uma contratação milionária como a de Cristina Ferreira. Para os leitores que não saibam, e a bem da necessária transparência, é de referir aqui que também a Impresa recorreu aos apoios estatais, em forma de publicidade do Estado a ser utilizada nos meios de comunicação social do Grupo.



JORGE JESUS
Começemos por relembrar a muito atribulada saída de Jorge Jesus do Benfica há cinco anos, em clara ruptura com Luís Filipe Vieira, e rumando ao Sporting (o que motivou inclusivamente guerras na Justiça). Pois, agora, e perante a crise dos encarnados, com o presidente envolvido em sucessivos casos nos tribunais e o clube a deixar escapar o título nacional para o FC Porto, a quem foi Vieira recorrer? Ao antes amado e depois odiado e agora novamente amado treinador que deu três títulos em seis anos ao Benfica. Jesus voltou…

Eis o que se conhece do regresso: um contrato de três épocas, com um salário de três milhões de euros limpos por ano. E ainda com a possibilidade de ingressarem na equipa técnica Luisão e Aimar (duas peças chave das equipas de Jesus na primeira passagem pelo Benfica).


Nesta altura, Luís Filipe Vieira está no Brasil, com Jorge Jesus, a preparar o regresso do treinador a Lisboa (o que deve acontecer estar terça-feira). A impresa desportiva fala também na tentativa de trazer alguns reforços para a equipa do Benfica na próxima época.


Quem considerou esta contratação de Vieira um sinal de desespero para desviar as atenções dos processos judiciais em que está envolvido foi Marques Mendes.

OUTRAS NOTÍCIAS,

Cá dentro,

As temperaturas elevadas levam a que o estado de alerta contra incêndios tenha sido prolongado deste fim de semana para a próxima terça-feira.

Mais de meia centena de cães e gatos morreram na sequência de um fogo que atingiu um canil clandestino na zona da Serra da Agrela, em Santo Tirso. ainda assim, muitos animais foram salvos devido à intervenção de populares. Na base do sucedido estará o facto de a proprietária do canil ter recusado ajuda e de a GNR ter na sequência disso ter impedido a entrada para salvar animais. A associação que ajudou a resgatar animais conta o que encontrou no abrigo. Este canil já tinha sido investigado pelo MP.

O surto de covid 19 num lar de Reguengos de Monsaraz tem sido uma preocupação nos últimos dias e semanas. Agora, a boa notícia dando conta da recuperação de 21 dos infetados.


Pedro Nuno Santos viu falhar a estratégia de aumentar o peso interno no partido, as eleições para as federações distritais do PS que decorreram no fim de semana, avança o Público.

Para esta terça-feira está marcada a apresentação oficial do plano de recuperação gizado pelo Governo, e com a assinatura de Costa Silva. E no dia seguinte é a vez dos deputados no Parlamento debaterem o Estado da Nação (pelo menos este debate Rui Rio ainda não veio propor que deixe de existir).

Mas já hoje, segunda-feira, é a vez de Mário Centeno tomar posse como novo Governador do Banco de Portugal. Deixa o cargo Carlos Costa. Neste artigo, que passa em revista o que o atual Governador andou a fazer no último ano, pode ter uma ideia da carga de trabalhos de quem ocupa o lugar.

Ainda sobre a acusação judicial no processo da queda do Grupo Espírito Santo, e em que o principal visado é Ricardo Salgado, Marques Mendes veio considerar a acusação como particularmente "robusta".
Aqui lhe deixo alguns dos textos que os jornalistas do Expresso escreveram depois de analisarem o documento de mais de 4 mil páginas: Como esconder um hotel; As últimas fugas num cenário de puro ilusionismo; A reunião secreta no lago de Como;


O trabalho do fotógrafo do Expresso Rui Duarte Silva realizado nas últimas eleiçõs legislativas foi premiado.


Lá fora,
Joe Biden, o candidato Democrata à presidência dos EUA, veio responder a uma entrevista de Donald Trump este domingo, dizendo que se perder as eleições e não quiser deixar a Casa Branca será expulso. Trump não deixou totalmente claro o que fará se não for o vencedor das eleições de novembro.

Sobre a entrevista do presidente dos EUA, houve vários momentos assim algo para o bizarros. Que metem até elefantes e testes para avaliar a capacidade mental. Veja-os aqui.

Por falar em bizarrias e momentos estranhos, o rapper norte-americano Kanye West fez assim uma espécie de comício de campanha (já anunciou que é candidato à Casa Branca) vestido de colete à prova de balas.


Morreu John Lewis, histórico lutador pelos direitos cívicos nos EUA:

As autoridades de Amesterdão, na Holanda, decidiram este fim de semana interditar uma parte do famoso bairro Red Light District, depois de estar à pinha de visitantes no último sábado. Depois do confinamento por causa da covid 19, a atividade do bairro dedicado à prostituição voltou ao normal.

Como é que as grandes cidades europeias que viviam fortemente ancoradas no turismo podem renascer e procurar alternativas? Um texto do Guardian que vale a pena a ler.


foi lançada a primeira missão espacial árabe a Marte.


DESPORTO
Aves. Enquanto uns festejam o campeonato, outros vivem dias difíceis. O Desportivo das Aves já tem a despromoção para a II Liga assinada, mas ainda tem dois jogos para cumprir na I Liga, e um deles já esta terça-feira, com o Benfica. Mas o clube não paga salários há três meses e agora nem o seguro contra acidentes de trabalho dos jogadores conseguiu pagar. Consequência: não vai jogar com os encarnados. A situação pode ainda conhecer desenvolvimentos nas próximas horas.


Miguel Oliveira. O piloto português partiu do 17º lugar mas conseguiu terminar a corrida de Moto GP este domingo em oitavo, a sua melhor classificação de sempre.


Fórmula 1. O inglês Lewis Hamilton soma e segue e este fim de semana carimbou mais uma vitória num Grande Prémio de Fórmula 1.

Inglaterra. O Chelsea bateu o Manchester United de Bruno Fernandes e qualificou-se para a final da Taça de Inglaterra.

Renato Sanches. O futebolista português testou positivo para covid 19


FRASES
A falta de acordo "será uma péssima notícia para a Europa, um péssimo sinal para os agentes económicos e todos os europeus", António Costa, primeiro-ministro, à margem da cimeira europeia


"O Conselho Europeu dos últimos dias pode não ter passado de uma imagem do que pode vir a ser a 'Europa dos últimos dias'", João Gonçalves, no Jornal de Notícias

"A crise provocada pela covid 19 acabou por ser a grande oportunidade que este Governo teve para travar aquilo que seria o fim da nossa empresa aérea", António Pedro Vasconcelos e outros, no Público

"Se os médicos não pararem um bocado, pode ser desastroso", Miguel Guimarães, Bastonário da Ordem dos Médicos, ao Jornal de Negócios




O QUE ANDO A LER
Entretidíssimo, nos últimos dias, com a notável biografia, política, de Amália Rodrigues, o expoente máximo do fado em Portugal, pela pena de Miguel Carvalho, excelente jornalista da Visão e já autor de outros livros igualmente notáveis. Aqui não se fala tanto dos amores e desamores, dos casamentos e relações, dos fados, letras e músicas. Claro que também se fala sobre isso, mas o livro tem um outro ângulo e abordagem, olhando para Amália Rodrigues enquadrada no período político em que viveu: o salazarismo e a resistência ao regime, primeiro. E o período revolucionário e pós-revolucionário.

Como escreveu o meu colega Miguel Cadete, esta biografia, “Amália – Ditadura e Revolução”, editada pela D. Quixote, “impede que nos continuemos a esconder em hagiografias sem sombra de pecado”.

Imperdível neste verão, e numa altura em que se assinalam os cem anos do nascimento da maior diva do fado nacional (a data exacta é 23 de Julho, precisamente esta semana).

Ao longo do dia pode acompanhar toda a actualidade no Expresso, Tribuna e Blitz.

Tenha um excelente dia

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