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Expresso

Jorge Araújo Editor da E

Na hora da nossa morte

19 de Fevereiro de 2020

A morte é um dia como os outros, só que acaba mais cedo. Mas a morte ninguém discute. Todos sabemos que a vida tem princípio, meio e fim. Que às vezes caminha em linha recta, outras aos ziguezagues. E que é no fim que somos todos verdadeiramente iguais. Brancos, negros ou de qualquer uma cor do arco-íris, todos reduzidos a pó. Com mais ou menos lágrimas, deixando mais ou menos saudade.

A grande questão é a hora da morte. Morremos quando “chegou a nossa hora”? Ou morremos quando decidimos que a vida já é morte? Dito desta maneira, pode parecer que o debate sobre a eutanásia, que tanta tinta tem feito correr, é mais sobre a morte do que sobre a vida. Não estou certo disso. Quando um homem se reconcilia com a vida, a morte pode ser a única estrada.

Nos últimos tempos, a eutanásia alimenta discussões. Os dois lados da barricada esgrimam argumentos - é curioso como uma barricada tem sempre dois lados e nunca um pouco de bom senso – a igreja apostou tudo num referendo, admite-se que Marcelo Rebelo de Sousa avançe para o veto e encaminhe o diploma para o tribunal constitucional.

Certo é que o debate sobre a despenalização da eutanásia acontece amanhã no parlamento. E tudo indica que o sim é um dado adquirido.

Os deputados sabem que o Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV) mostrou, ontem, um cartão vermelho aos quatro projectos-lei.

Em sua defesa, o CNECV afirma que “não constituem uma resposta eticamente aceitável para a salvaguarda dos direitos de todos e das decisões de cada um em final de vida, não considerando nem valorizando os diferentes princípios, direitos e interesses em presença, que devem ser protegidos e reafirmados”. O debate no parlamento promete.

Na hora da verdade, alguns deputados, nomeadamente do CDS, devem levar a lição bem estudada. Hoje à noite, o auditório municipal Eunice Muñoz, em Oeiras, vai ser palco de um colóquio sobre a Eutanásia, promovido pelo partido que já foi de Paulo Porta e agora é de Xicão. Para além do presidente do partido, o destaque vai para a especialista em cuidados paliativos, Isabel Galriça Neto.

UM CRIME É UM CRIME

Há dias que não riscam uma única linha no calendário. Vivem suspensos entre a véspera e o dia seguinte. Hoje é um desses dias.

Os holofotes já estão todos virados para o debate sobre a despenalização da Eutanásia, mas ainda persistem as ondas de choque do caso Marega - o jogador maliano do Futebol Clube do Porto que, no domingo, abandonou o campo, em protesto contra os insultos racistas de que foi alvo, por parte de adeptos do Vitória de Guimarães.

É triste a pele ter cor. Alguém ver a cor da pele do outro. Na verdade, é mais do que triste, é crime. Quem vê a cor, nunca vê o outro. Quem vê a cor tem dioptrias de ignorância. Aqueles que julgam pela cor da pele costumam fazer doutrina no café, na paragem de autocarros, no anonimato das redes socias. Quantas vezes os ouvimos insultar e assobiamos para o lado? É assim que a onda cresce.

Mas o que aconteceu naquele estádio foi diferente. Foi ao vivo e a cores, passou no horário nobre das televisões, incendiou as redes sociais. O que aconteceu foi um crime à vista de todos. E um crime deve ser punido. O racismo merece sempre tolerância zero. O que aconteceu naquele estádio vai muito para além do futebol, diz respeito a todos. Temos de decidir em que mundo queremos viver. Temos de decidir se queremos continuar a ser homens.

Ontem, ficou a saber-se que a polícia identificou pelo menos dez suspeitos. E o número deve aumentar.

A cada dia que passa, cresce a solidariedade com Marega. Depois de Ricardo Quaresma, foi a vez de Abel Xavier dar conta da sua indignação.

Mas não tenhamos ilusões. O que aconteceu com Marega acontece quase todos os dias, em quase todos os estádios portugueses. A diferença é que o maliano teve a coragem – sim, é preciso coragem – de dizer basta. Esperemos que a sua coragem encontre par na nossa.

O racismo é apenas um dos problemas do futebol – cada vez mais um mundo à parte, cada vez mais um mundo onde vale tudo. E eu, que cresci com a bola nos pés, já não me sinto em casa num estádio.

OUTRAS NOTÍCIAS

TAP. O presidente da república não tardou a reagir à decisão de Caracas de suspender os voos da TAP por pelo menos três meses. “É injusto, inaceitável e totalmente incompreensível”, disse Mardelo Rebelo de Sousa.

Na segunda-feira, o governo de Nicolás Maduro tinha anunciado a suspensão por 90 dias das operações da TAP alegando “ razões de segurança”, depois de acusações de transporte de explosivos num voo oriundo de Lisboa, no qual viajava Juan Guaidó.

EDUCAÇÃO. O Tribunal de Contas considera que o financiamento do Estado ao Ensino Superior não está a premiar o mérito. O Ministério da Educação responde dizendo que as conclusões são “inaceitáveis” e “redutoras”

JUSTIÇA. Prossegue no tribunal de Monsanto, em Lisboa, a fase de instrução do processo de Tancos. Há 23 pessoas no banco dos réus, sendo que a cabeça de cartaz é o antigo ministro da defesa, Azeredo Lopes.

Os acusados respondem por um conjunto de crimes que vão desde terrorismo, associação criminosa, denegação de justiça e prevaricação até falsificação de documentos, tráfico de influência, abuso de poder, recetação e detenção de arma proibida.

CORONAVÍRUS. Quando os mortos deixam de ser gente e passam a números. Na China, os mortos deixaram de ter nome. A última atualização do número de vítimas do coronavírus subiu para 2005. E as ondas de choque nas economias, chinesa e global, começam a fazer-se sentir.

CHAMPIONS. A liga dos campeões está de volta. Hoje, o Tottenham de José Mourinho entra em campo para os oitavos de final da prova. Vai à Alemanha medir forças com o RB Leipzig.

O outro jogo grande da noite coloca frente a frente os italianos do Atalanta contra os espanhóis do Valência.

Mas a bola começou a rolar ontem nos grandes estádios da Europa. O Atlético de Madrid venceu os atuais detentores do título, o Liverpool, por uma bola sem resposta.E o Borussia de Dortmund derrotou os milionários do PSG por dois a um.

A final da prova rainha do futebol europeu terá lugar no dia 30 de Maio, em Istambul,na Turquia.

O QUE ANDO A LER

A primeira viagem do jornalista Luís Pedro Cabral pelos caminhos da ficção chama-se “ A Cidade dos Aflitos”. Acompanho há muito a sua escrita nos jornais e tudo fazia prever que, mais dia menos dia, iria desaguar num romance.

Este é um romance em carne-viva, faz-se de palavras que queimam, mas tem a poesia da esperança. É uma história sobre cancro. Sobre os corredores do Instituto Português de Oncologia.

É um retrato de pessoas de carne e osso, num sítio onde ninguém quer estar. É a história de um dos nossos piores pesadelos. Um livro que nos atira ao abismo e nos resgata enquanto humanos.

O QUE EU ANDO A OUVIR

A voz era o seu maior tesouro. Herança do pai, ou não fosse Alcides, filho de Bana, um dos reis da morna de Cabo Verde. Mas Alcides sabia que esse tesouro não duraria para sempre. Aos 19 anos foi-lhe diagnosticada uma doença rara (neurofibratose), foi-lhe anunciado que acabaria por perder por completo a audição.

Gravar um disco era uma maneira de contrariar o destino. A única maneira de deixar um legado na música cabo-verdiana. Era uma corrida contra o tempo. Mas queria ter todo o tempo do mundo – a gravação do disco durou quatro anos.

Alcides Nascimento, que muitos conhecem das noites na discoteca B´Leza , foi buscar para produtor musical Paulino Vieira, o génio absoluto da música das ilhas. A empatia foi total. Escolheram religiosamente os onze temas, procuraram a melhor roupagem para cada um. A voz de Alcides fez o resto.

O resultado final não deixou ninguém indiferente. O disco transformou-se numa obra de culto. Uma preciosidade. Atrevo-me mesmo a dizer que é um dos discos mais importantes da história da música de Cabo-Verde.

Recentemente, o disco teve uma reedição. Limitada. Na hora da despedida, deixo-vos um cherinho de “Pensamento”, título de uma das mais belas mornas do compositor B´Leza.

Tenha um resto de bom dia.

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