Jorge Araújo Editor da E

Sobre o que fica e o que passa

19 de novembro de 2019

Na vida, o que importa é o que fica do que passa. Mas o que fica do que passa, muitas vezes é pouco. É quase nada. Chegar ao fim só e abandonado não é vida. É morte lenta.

Lembrei-me disso ao ler os resultados do último “Censos Sénior”, missão levada a cabo pela Guarda Nacional Republicana (GNR), desde 2011. O objetivo não podia ser mais nobre: “Identificar idosos que vivem sozinhos e isolados”.

Este ano, a GNR sinalizou “41.868 idosos que vivem sozinhos e/ou isolados, ou em situação de vulnerabilidade, em razão da sua condição física, psicológica, ou outra que possa colocar a sua segurança em causa”. Idosos que são presas fáceis de crimes vários, nomeadamente furtos, roubos ou burlas.

Bem sei que notícias destas não costumam ser manchete de jornais nem abrir telejornais. Merecem, quanto muito, um rodapé. Mas, por detrás de cada um destes 41.868 números, há uma história. Por detrás de cada um destes velhos, há uma vida. Histórias que merecem ser contadas.

O envelhecimento da população portuguesa é uma espécie de bomba relógio. Sabemos que vai explodir, mas pouco ou nada fazemos para a desativar.

Já imaginaram quando a Segurança Social colapsar? Quando o Sistema Nacional de Saúde não der para as encomendas? Se nada for feito este país não vai ser para velhos. Nem para novos.

Se quer realmente saber como é ser velho, e viver só e abandonado, então procure saber um pouco mais sobre a vida destes 41.868 idosos. Só assim os números passam a ser pessoas.

Palavras que passam e palavras que ficam

Há palavras que passam e palavras que ficam. Palavras que não riscam uma única página no calendário e outras que ficam para sempre tatuadas na nossa memória. Vergonha é uma delas.

É por isso que não devem ser ditas com paninhos quentes. Doem muito para lá do seu real significado.

Foi muito mais do que vergonha o que Portugal sentiu ao assistir, ao vivo e a cores, à invasão da Academia de Futebol do Sporting por um grupo de delinquentes que se julgava acima da lei.

A primeira sessão do Julgamento começou ontem e promete fazer correr rios de tinta. Se, por acaso viveu em Marte nos últimos tempos, aqui fica um excelente guia dos protagonistas, acusados de mais de quatro mil crimes, entre os quais, terrorismo.

A principal personagem deste caso é o antigo presidente dos leões, Bruno de Carvalho, acusado de ser o autor moral da invasão de 15 de Maio de 2018.

Ao chegar ao tribunal de Monsanto, recusou-se a prestar declarações aos jornalistas e apresentou-se como “comentador desportivo”. O filme completo do primeiro dia pode ser visto aqui.

Mas, se quer ir direto ao assunto, fique a saber que Bruno Jacinto, o oficial de ligação do Sporting com as claques, foi o único a falar. Bruno de Carvalho é, por isso, cena dos próximos capítulos.

Por mais palavras que se digam neste julgamento de Alcochete há uma que nenhuma apaga – vergonha.

OUTRAS NOTÍCIAS



ISRAEL
Os EUA declararam que os colonatos israelitas na Cisjordânia não são necessariamente ilegais, numa rutura absoluta com décadas de direito internacional, política dos EUA e a posição estabelecida da maioria dos aliados dos EUA.

PSD. E vão três. Depois de Rui Rio e de Luís Montenegro, chegou a vez do vice-presidente da Câmara de Cascais entrar na corrida à liderança do Partido Social Democrata. Miguel Pinto Luz vê o futuro em grande - quer ganhar as autárquicas e as legislativas. Talvez, por isso, no momento da verdade, tenha-se socorrido da linguagem futebolística: “Não me conformo com um PSD que apenas disputa lugares intermédios da primeira liga da política. Não me conformo ao vê-lo [PSD] complacente, a disputar o campeonato dos pequeninos. Isto não é o PSD”, afirmou o social democrata de Cascais. Se quer saber tudo sobre este pontapé de saída, leia o artigo do Miguel Santos Carrapatoso.



SEM-ABRIGO. Marcelo Rebelo de Sousa tem andado na noite a ver o que muitos teimamos em não ver. E porque quer ser o presidente de todos os portugueses insiste que é preciso erradicar os sem-abrigo até 2023. O governo tomou boa nota mas não se compromete com esta meta. Parece que o melhor a fazer quando passar pelos lados de Santa Apolónia é assobiar para o lado.



PRÉMIO. Cancro é palavra que mete respeito. Quando não mata, mói. Por isso, um prémio para apoiar investigações com “grande impacto no controlo e cura do cancro” é sempre uma boa notícia. O prémio da Fundação Champalimaud, no valor de um milhão de euros, será entregue já a partir do próximo ano. “É um prémio que se destina mais ao futuro do que ao passado, para que se dê esperança às pessoas que padecem desta doença”, disse João Silveira Botelho, vice-presidente da Fundação.



TAP. A antiga companhia de bandeira somou prejuízos de 111 milhões de euros em nove meses. Segundo diz a empresa, estes prejuízos até setembro, aconteceram “por variações cambiais sem impacto na tesouraria”. E a prova de que uma má notícia pode sempre vir acompanhada por uma boa é quando a empresa diz que vai contratar mais 800 pessoas em 2020. O que fica do que passa na TAP?



CRIME. Alegações finais no julgamento de Rosa Grilo e António Joaquim. Os dois amantes são acusados pelo Ministério Público (MP) da coautoria do homicídio do triatleta Luís Grilo, marido da arguida. As atenções vão estar viradas para o Tribunal de Loures.



JESUS. Continua a contagem decrescente para a final da Copa Libertadores, marcada para este sábado em Lima, capital do Perú. Trinta e oito anos depois, o Flamengo,treinado pelo português Jorge Jesus, pode voltar a fazer história. Pela frente terá os argentinos do River Plate, atual detentor do troféu. Não vai ser fácil, mas Jesus quer deixar marca no futebol brasileiro. O próximo fim de semana pode ser de sonho para o Mengão - para além da Libertadores, está a um passo de conquistar o Brasileirão e sem precisar de entrar em campo. Basta que o Palmeiras, atual segundo classificado, não pontue contra o Grémio de Porto Alegre. Até lá, não deixe de ler as deliciosas crónicas que o Plínio Fraga escreve, a partir do Rio de Janeiro, para o Tribuna. E de ficar à espera do milagre. Sem querer ser adivinho, desde já vos digo que quem tem Jesus e Deus na equipa técnica (o treinador adjunto do Flamengo chama-se João de Deus) tem obrigação de acreditar em milagres.



O QUE EU ANDO A LER

Há um escritor com lugar cativo na minha casa de papel. É francês e responde pelo nome de Didier van Cauwelaert. Descobri-o em 1994, logo após ele vencer o prestigiado Prémio Goncourt com o romance “Un Aller Simple” (“Um Bilhete Só de Ida”, na versão portuguesa). Este é um daqueles livros que nos acompanham vida fora e que aborda uma temática sempre atual. Depois de o devorar, comprei todos os seus outros livros. Mas ainda não os li. São tijolos da minha casa de papel - livros para ler mais tarde.

Esta semana, o que ando mesmo a ler são os artigos da revista do Expresso que estará nas bancas no próximo sábado. São cento e oito páginas pensadas para agradar ao leitor mais exigente. Para além da entrevista à Agatha Ruiz de La Prada, feita pela Alexandra Carita, em Madrid, destaco o importante trabalho da Ana Soromenho sobre como sobreviver a um divórcio. E ainda um extenso artigo acerca de Leonard Cohen, escrito por João Lisboa.



O QUE ANDO A OUVIR

Ainda me lembro, como se fosse hoje, da primeira vez que ouvi Renaud. Comecei por estranhar a sua voz, não tinha nada de rouxinol, mas entranhei as letras – poesia em estado puro. Se nunca ouviu a canção “Mistral Gagnant”, não sabe o que perde. É uma das maiores declarações de amor que um pai pode fazer a um filho.

Nesta minha playlist afetiva há uma canção que é uma espécie de alma gémea de “Mistral Gagnant”. Chama-se “ Le Vent Nous Portera” da banda francesa “Noir Desir”. Uma balada arrepiante com assinatura reconhecida já que o letrista da banda é outro grande poeta da língua francesa.

Infelizmente, Bertrand Cantet, é dele que se trata, ficou para a história por um crime terrível - assassinou a companheira, a atriz Marie Trintignant, na ressaca de uma acesa discussão, num hotel de Vilnius, na Lituânia.

Para terminar, uma boa notícia. Tudo indica que a morna vai ser declarada património imaterial da humanidade. Mas ainda não foi. A decisão final está nas mãos do comité intergovernamental da Unesco, que se reúne entre 9 e 24 de Dezembro em Bogotá, na Colômbia. Não querendo deitar foguetes antes da festa, despeço-me com “a música rainha da minha terra”. O Tito Paris dispensa apresentações, a Cremilde Medina canta e encanta. A poesia é do eterno Manuel d'Novas.

Um resto de bom dia.

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