Miguel Cadete Diretor-Adjunto

António Costa ataca Bloco de Esquerda em entrevista ao Expresso

23 de agosto de 2019

Em grande entrevista concedida ao Expresso, o primeiro-ministro ataca decididamente o PSD e, sobretudo, o Bloco de Esquerda, quando faltam seis semanas para as próximas eleições legislativas.

Além de passar em revista os quatro anos de governação que estão prestes a terminar, António Costa discute alguns dos cenários possíveis da próxima legislatura sem esconder ao que vai: “Há um amigo meu que compara o PCP ao Bloco de uma forma muito engraçada. O PCP é um verdadeiro partido de massas, o Bloco é um partido de mass media. E isso torna os estilos de atuação diferentes , lê-se a dado passo na entrevista conduzida por David Dinis e Vítor Matos e que será publicada ao longo de dez páginas na edição da Revista do Expresso que amanhã chega às bancas e à qual os assinantes do Expresso podem ter acesso a partir das 23 horas de hoje.

Os quatro anos que passaram com António Costa na liderança do XXI Governo de Portugal são passados em revista numa conversa que decorreu há uma semana nos jardins da residência oficial, em São Bento. Os pontos mais quentes da atual legislatura não foram esquecidos.

Ontem, na edição do Expresso Diário, foi já divulgada um excerto dessa entrevista em que António Costa aborda a forma como tenciona lidar com os protestos de várias classes: “todas as carreiras especiais têm tido sempre um tratamento especial relativamente às carreiras comuns” da Administração Pública. E defende que chegou a hora “de olhar para as carreiras comuns, sobretudo para os técnicos superiores”, de maneira a garantir que estas permanecem atrativas (e qualificadas).

Quanto a professores, enfermeiros, militares e forças de segurança, o atual primeiro-ministro adiantou que “O país não pode viver permanentemente capturado pelos interesses e as discussões em torno das carreiras especiais (...). Toda a gente sabe uma coisa (e quem tinha dúvidas os anos de crise eliminaram-nas): as necessidades são ilimitadas e os meios, infelizmente, são sempre limitados. O exercício da política tem sempre a ver com alocação mais eficiente dos recursos que temos.”

Ainda na entrevista que faz capa da edição da Revista do Expresso, o primeiro-ministro nota que é preciso estar atentou a um segundo mandato de Marcelo Rebelo de Sousa: “É preciso saber qual a ideia do Presidente sobre o seu segundo mandato”, diz. E aponta para o aumento dos salários dos detentores de cargos políticos: o corte de 5% vai acabar na próxima legislatura.

OUTRAS NOTÍCIAS

Rui Rio
, que também é visado na entrevista de António Costa, passou decididamente ao ataque. Ontem tomou posição sobre o decreto de lei do Governo que concretiza a autodeterminação de género e permite a escolha das casas de banho a utilizar por parte dos estudantes nas escolas. No Twitter, o líder do PSD revelou que “em agosto, a um mês do começo das aulas, o Governo faz um despacho de perfil bloquista, semeando a confusão nas escolas e nos pais”. “Uma coisa feita da forma mais insensata que se pode imaginar. Tratam com a maior leviandade um assunto sério e revelam pouco respeito pelas crianças.”

Numa pergunta endereçada ao ministro da Educação, o PSD já tinha criticado uma lei que pode fazer crescer os “fenómenos de bullying” e aumentar a “violência escolar” e que em nada “beneficia o processo de aprendizagem escolar”, considerando o decreto “uma agenda ideológica de esquerda radical”.

Um grupo de 85 deputados do PSD e CDS-PP entregou a 19 de julho no Tribunal Constitucional um pedido de fiscalização sucessiva de parte da norma que determina a adoção de medidas no sistema educativo sobre identidade de género.

Em causa está o despacho publicado há uma semana em “Diário da República” sobre a aplicação da lei da identidade do género (aprovada no ano passado) que estipula que as escolas “devem garantir que a criança ou jovem, no exercício dos seus direitos, aceda às casas de banho e balneários tendo sempre em consideração a sua vontade expressa e assegurando a sua intimidade e singularidade”.

O tema segue hoje na manchete do jornal “i” que cita o secretário de Estado da Educação, João Costa, em entrevista à TSF: “Por muito que irrite alguns, estas crianças existem e, por isso, merecem ver os seus direitos salvaguardados”. No “Jornal de Notícias”, também na primeira página, o título é “Escolas e pais apoiam medidas transgénero nas escolas” e é destacado um texto publicado por Rita, mãe de Leonor, transexual que se reporta ao artigo de Laurinda Alves, “Minorias de estimação”, publicado há três dias no “Observador”.

O Presidente de França, Emmanuel Macron classificou os incêndios na Amazónia como uma “crise internacional” e solicitou que dominassem a agenda da reunião do G7 que amanhã tem início em Biarritz. Jair Bolsonaro, Presidente do Brasil, respondeu, igualmente no Twitter, considerando que Macron está a adotar um “tom sensacionalista”, procurando retirar vantagens e um assunto que ao Brasil diz respeito. Bolsonaro, que admitiu não ter recursos para combater os incêndios, acrescentou, num segundo tweet, que a discussão no G7 dos incêndios na Amazónia, sem a participação dos países em que se encontra a floresta, revela uma mentalidade colonialista inaceitável no século XXI.

Ainda ontem, provou-se que uma das fotos utilizada por Macron nas redes sociais para ilustrar os incêndios, estava desatualizada pois o seu autor, um fotógrafo da “National Geographic”, morreu em 2003. O tema dos incêndios na Amazónia parece assim ter eclipsado o Brexit, que se oferecia até há pouco como o assunto decisivo desta cimeira.

O secretário geral da Nações Unidas, António Guterres, também revelou no Twitter estar “seriamente preocupado” com os incêndios. Outras figuras públicas, como Madonna e Cristiano Ronaldo, também têm revelado a sua indignação nas redes sociais.

O movimento 5 Estrelas está novamente na berlinda pois pode evitar novas eleições em Itália. O Partido Democrático (centro-esquerda) mostrou ontem aceitar coligar-se com o 5 Estrelas, partido de protesto que foi liderado pelo humorista Beppe Grilo e que hoje tem em Luigi di Maio o seu principal responsável, depois de o Governo de coligação com a Liga, o partido de extrema-direita de Matteo Salvini, ter caído. Um novo processo eleitoral seria desastroso para o 5 Estrelas. E, se levadas a bom porto, as negociações com os democratas podem deixar Salvini fora do poder. Sergio Matarella, Presidente de Itália, estipulou que as negociações podem decorrer até terça-feira.

As greves na Ryanair, mas também na Iberia, podem causar o caos no final deste mês de Agosto. Ma manchete do diário de Madrid “El País”, lê-se que o final de férias de milhões de pessoas pode ser seriamente afetados devido à paralisação do pessoal de cabine da Ryanair, que em Espanha entra em greve a partir de 1 de setembro. Na Iberia, é o pessoal de terra quem vai parar, ainda em agosto. Esta greve já levou ao cancelamento de 112 voos da Vueling no fim de semana que amanhã começa. No aeroporto de Barcelona são os seguranças que estão em protesto, e que ontem cumpriram a 14ª jornada de luta. Também a transportadora ferroviária Renfe tem greves marcadas para 30 de agosto e 1 de setembro. Catarina Martins, do Bloco de Esquerda, considerou a atuação da Ryanair em Portugal como sendo própria de uma “república das bananas”. Por cá, a greve dos tripulantes começou na quarta-feira e estende-se até domingo. A requisição de serviços mínimos pelo Governo tem sido contestada, até pelo BE.

José Cid venceu um Grammy. A BLITZ noticiou ontem em primeira mão que o cantor e compositor português José Cid vai ser agraciado com um Grammy latino, na categoria Excelência Musical (“lifetime achievement”, no inglês original). Essa é a mesma distinção que coube a Carlos do Carmo, o primeiro português a receber aquele que é considerado o mais importante galardão da indústria da música.



FRASES

“O reconhecimento internacional é também o reconhecimento de uma inventividade linguística atenta aos fenómenos musicais do seu tempo, que permite à música portuguesa, e à sua história, dialogar com um território mais vasto como é o espaço latino”
Graça Fonseca, ministra da Cultura, ao felicitar José Cid pelo Grammy latino

“Há gatos que se suicidam depois de serem abandonados”.
Responsável da associação Entregatos, em declarações ao jornal “i”

“A escola não pode ser apenas o lugar do já conhecido”. Paulo Pires do Vale, professor, comissário do Plano Nacional das Artes, no “Jornal de Negócios”



O QUE ANDO A VER

Estreou-se ontem o filme “Variações”, com festa-concerto no Trumps no dia anterior, que tem recebido encómios vários por parte da crítica. E com razão. Ao contrário do que sucede muitas vezes em filmes de produção nacional, a fotografia é boa, o som é claro e o guarda-roupa é apropriado. Mas não é só nos quesitos técnicos que o filme resulta na tentativa de trazer a história de António Variações até aos dias de hoje, 35 anos após ter morrido. Os atores demonstram entrega e uma intensidade dramática (entrevista a Sérgio Praia aqui) que não é decalcada do teatro. E a realização e o argumento conseguem o enorme feito de não transformar o filme numa hagiografia do cantor de “Estou Além”. Ao contar a história de um barbeiro que veio do Minho para se fazer cantor de música pop em Lisboa – com passagens em Nova Iorque, Londres e Amesterdão – durante os cinzentos anos 70, João Maia é exímio a mostrar que António Variações estava disposto a fazer todas as rupturas necessárias para alcançar o objetivo que sonhou desde que ouviu Amália Rodrigues na rádio quando ainda era criança. Isso quer dizer que relações sentimentais, musicais, sociais, familiares ou outras foram constantemente postas em causa pelo próprio António Variações. Não é propriamente um conto de fadas o que se vê em “Variações” mas poucos até hoje, notaram isso. Por isso este não é um filme porventura tão cor de rosa quanto “Bohemian Rapsody”, sobre Freddie Mercury, ou “Rocketman”, sobre Elton John, ainda que a música seja o condutor essencial de um filme que propositadamente se debruçou sobre os anos em que António Variações não tinha ainda chegado aos lares portugueses. Como se sabe, dois discos depois, com centenas de concertos marcados em todo o país e a aprovação generalizada, viria a morrer, vítima de broncopneumonia, aos 39 anos. Foi a única forma de encontrar uma reconciliação que nunca procurou. E é isso que também distingue este filme.

Por hoje é tudo. Siga toda a atualidade no Expresso Online. A BLITZ conta tudo sobre o festival EDP Vilar de Mouros e a Tribuna sabe o que vai acontecer a Bas Dost nas vésperas de um Benfica – FC Porto sobreaquecido. Lá para as 18h há Expresso Diário. Amanhã, o semanário está nas bancas.

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