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Expresso

Valdemar Cruz Jornalista

A greve iluminada

8 de Fevereiro de 2019


Corria o ano de 1936 e um homem muito experimentado em lutas sociais, bom conhecedor da importância de uma greve para o movimento operário e os trabalhadores em geral, dizia, numa altura de grandes dificuldades e perigos para as lutas laborais, que “é preciso saber terminar uma greve. Essa é a condição mesma para a sua eficácia”. Chamava-se Maurice Thorez e, além de secretário-geral do Partido Comunsita Francês, foi Ministro de Estado no governo de De Gaule. Hoje, face ao exemplo dado pelo estilo de greve, chamada cirúrgica, convocada por dois pequenos sindicatos dos enfermeiros, talvez acrescentasse a necessidade de a saber iniciar e conduzir sem a transformar numa degenerescência alheia a todos os princípios e valores inerentes a uma greve convocada e dirigida, de facto, pelos trabalhadores que pretende representar.


Escudado no não cumprimento dos serviços mínimos nos Centros Hospitalares e Universitários de S. João e do Porto, e nos Centros Hospitalares de Entre o Douro e Vouga e Tondela-Viseu, o Governo decretou a requisição civil dos enfermeiros até 28 de fevereiro. A portaria define que os conselhos de administração dos centros hospitalares devem comunicar às estruturas sindicais "com a antecedência mínima de 48 horas relativamente a cada dia de greve, os atos incluídos nos serviços mínimos" ao abrigo do acórdão arbitral, bem como os meios humanos necessários para os assegurar. Os sindicatos envolvidos vão contestar, e um deles já tem Garcia Pereira como advogado.


Representantes das associações sindicais envolvidas já afirmaram não desistir das suas reivindicações, que até serão justas, ao mesmo tempo que anunciavam novas e nada ortodoxas formas de luta, como o incentivo aos enfermeiros para faltarem ao trabalho. Para isso aproveitariam o que consideram ser a possibilidade legal de não comparecer durante cinco dias seguidos sem justificação, ou dez dias intercalados.


Numa greve com demasiadas questões por explicar, tem sobressaído o papel, também ele pouco claro, na leitura do Governo, da bastonária da Ordem dos enfermeiros, cujas intervenções públicas, desde há longos meses, têm extravasado, em muito, o que se supõe serem as funções e competências de uma bastonária de uma ordem profissional.


Talvez uma das perplexidades maiores suscitadas por esta paralisação que tem proporcionado inestimáveis munições para setores empenhados em criar limitações ao direito à greve, decorra do método encontrado para financiar os grevistas, numa completa subversão do que são os conceitos éticos assimilados pelo sindicalismo português ao longo de décadas.


O PS, numa atitude que não será indiferente à dúvida sobre como é que uma greve com tão elevado potencial de impopularidade consegue obter tão generosos apoios monetários, ao ponto de terem já sido recolhidos mais de 700 mil euros, quer proibir este tipo de donativos anónimos.


Uma greve implica necessariamente custos, não apenas para quem sofre os seus efeitos, mas em particular para quem a ela adere. A criação de um sistema de financiamento aberto a contribuições externas pode ser uma forma iluminada de contornar uma dificuldade para os enfermeiros. O problema é levantar muitas reservas e sérias dúvidas quanto à origem da luz que ilumina a greve.


Ontem à noite, na sua participação no programa “A Circulatura do quadrado”, na TVI, o Presidente da República abordava esta questão para considerar “intolerável” a situação a que chegou a paralisação e sublinhar que quem promove a recolha de fundos é um movimento cívico. Porém, acrescentou, “um movimento cívico não pode declarar greves”. Quem o pode fazer são os sindicatos que, se recorrem a fundos de greves, terão de o fazer “com fundos dos sindicatos”. Como é que se prova a origem dos fundos, perguntou o PR, “se o movimento e os donativos não são identificados?”.


OUTRAS NOTÍCIAS


Afinal, o veto prometido por Marcelo Rebelo de Sousa à nova Lei de Bases da Saúde caso não seja aprovada também com os votos do PSD, pode nem ser veto, nem está prometido. O PR recuou e negou ontem na TVI que tenha uma decisão tomada. Diz acreditar, pela leitura do articulado da proposta governamental, na existência de “espaço” para um acordo alargado.


Podia ter sido outro, como disse Rui Rio, mas será Paulo Rangel o cabeça de lista do PSD às eleições para o Parlamento Europeu. O candidato arrancou com um ataque direto a António Costa.


A Comissão Europeia reviu em baixa as previsões para o crescimento da economia portuguesa em 2019. Prevê uma expansão de 1,7%, um pouco abaixo dos 2,2% adiantados pelo Governo. Ainda assim, Portugal continua a crescer acima da média da UE.


A videovigilência de Tancos estava prevista, mas só isso. O coronel Amorim Ribeiro, um dos cinco comandantes exonerados temporariamente após o furto de material militar, revelou na comissão parlamentar de inquérito que, contava ter o sistema de videovigilância a funcionar em pleno em 2012, mas nada disso aconteceu.


Doze jovens com idades entre os 16 e os 18 anos mudaram de nome e de género no cartão de cidadão desde que entrou em vigor a lei da autodeterminação da identidade de género, alterada em agosto do 2018, de acordo com dados do Instituto de Registos e Notariado (IRN), enviados à agência Lusa.


Hoje há na Assembleia da República uma audição preparatória do relatório a elaborar sobre racismo, xenofobia e discriminação étnico-racial em Portugal. Serão ouvidos representantes da Amnistia Internacional, Casa do Brasil, Associação Cabo Verdiana e Associação Moinho da Juventude, que vão descrever a discriminação nas áreas da justiça e segurança, trabalho, saúde, educação, habitação e a participação política.


É o adeus aos palcos do homem que não foi apenas da cidade. Carlos do Carmo vai fazer 80 anos em dezembro e quer deixar de cantar em público. Lançará este ano um disco e programou para novembro dois concerto, nos Coliseus de Lisboa e Porto.


LÁ FORA


França e Itália estão em pé de guerra. Será uma forma de dizer, é claro, mas os dois países andam de candeias às avessas devido ao que os franceses classificam de “declarações ultrajantes” e “ataques”e “ataques” como já não se via desde o fim da II Guerra, feitas pelo Vice-primeiro-ministro italiano. Di Maio, nem encontro com os coletes amarelos franceses, entre outros mimos, classificou Emmanuel Macron, “um muito mau presidente”. O embaixador francês em Roma foi chamado a Paris “para consultas.


O Brexit está a transformar-se num folhetim interminável. Trinta meses depois do referendo que deu o sim à saída do Reino Unido da UE, continua a não haver acordo. Theresa May teve ontem reuniões em Bruxelas, onde chegou sem nada para negociar. A UE não está disponível para facilitar a vida e, como recordava há dias a revista francesa Marianne, cada vez mais os britânicos permanecem na dúvida surgida de uma variante de uma célebre canção dos Clash: “sould I stay or should I… stay” (“Should I stay or should I go”, no original).


Foi, segundo o jornal argentino El Clarín, num “clima de pouco otimismo” que se iniciou a cimeira do chamado “Grupo de Contacto” para encontrar uma solução para a crise na Venezuela e que reúne representantes de Espanha, França, Alemanha, Itália, Portugal, Suécia, Holanda e Reino Unido, bem como do Ecuador, Costa Rica, Uruguai e Bolívia. O El País, por sua vez, titulava que a EU lançou a sua missão diplomática venezuelana “sem ter apoios claros”.


O jornalista saudita Jamal Khashoggi foi vítima de “um assassinato brutal e premeditado” que foi “planeado e perpetrado por funcionários da Arábia Saudita”, disse hoje a relatora da Organização das Nações Unidas para a Tortura, Agnes Callamard.


O governo egípcio vai ou não cortar os subsídios ao pão nos cartões de racionamento em resultado de imposições do FMI? Esta é, pela sua importância, uma das notícias do dia no Egito. Para já, o Ministério do Abastecimento desmente.


PRIMEIRAS PÁGINAS


Governo impõe novas regras nas casas atribuídas a militares – Público


Doentes com cancro suspendem tratamentos e ficam sem cirurgias – JN


“As crianças estão a ser habituadas a não pensar” – I


Berardo saca 350 milhões à Caixa sem aval – Correio da Manhã


Luta dos enfermeiros deve seguir em tribunal – Negócios


Itália e França enfrentam a sua pior crise diplomática das últimas décadas – El País


Instagram banirá imagens de auto-mutilação – The Guardian


FRASES


As rendas excessivas no setor da energia estão, no mínimo, intimamente associadas a relações de compadrio entre privados e o Estado que vigoraram durante demasiado tempo”. Álvaro Santos Pereira, ex-minsitro, na A.R.


“O mal que (a greve dos enfermeiros) está a fazer ao sindicalismo só pode ser indiferente a quem se está nas tintas para o sindicalismo”. Daniel Oliveira, colunista, no Expresso Diário.


A alternativa que hoje se coloca a Venezuela é entre a paz e a guerra. Daí o nosso insistente apelo à serenidade das partes envolvidas e à prudência da comunidade internacional”. Tabaré Vasques, presidente do Uruguai na cimeira do chamado “Grupo de Contacto” para a Venezuela


O QUE ANDO A LER E A VER


É difícil desistir de algo que proclamamos nunca ter tido. Essa é a dificuldade com que se confrontam os americanos relativamente à componente imperial do seu país. Desde a era de Theodore Roosevelt, políticos, jornalistas e até alguns historiadores desenvolveram eufemismos – ‘expansionismo’, ‘a grande política’, ‘internacionalismo’, ‘liderança global’ – para disfarçar as ambições imperiais da América”.


Quando me preparava para escrever sobre o rico e tocante romance Guerra e Terebintina, de Stefan Hermans, onde sob um fundo marcado por memórias de arte se impõe o poder da guerra, impôs-se-me aquele arranque de um artigo publicado na New York Review of Books deste mês, intitulado “Imperial Excepcionalism”. Assinado por Jackson Lears, toma como pretexto a crítica a dois livros recentemente publicados por dois académicos. O também diplomata britânico Victor Bulmer-Thomas, autor de “Empire in Retreat: the Past, Present, and Future of the United States”, e “Republic in Peril: American Empire and the Liberal Tradition”, de David C. Hendrickson.


Lear parte de uma constatação: os dois partidos centrais do sistema político norte-americano sustentam a tese de que “imperialismo” era uma particularidade europeia que envolvia ocupação de territórios, extração das suas riquezas e domínio das suas populações, invariavelmente de pele escura. Como aos americanos, diz o autor, sempre foi dito que são diferentes, há hoje uma persistente recusa de aceitar que os EUA perseguem a sua própria versão de império. Bulmer Thomas defende que a América cultivou ambições imperiais desde a sua fundação. Por sua vez, Hendrickson sustenta que a decisiva opção pelo intervencionismo só podia ter como resultado a extensão do poder dos EUA através do mundo.


Como diz Bulmer Thomas, os EUA, tal como os poderes coloniais europeus, “subjugaram (e praticamente exterminaram) populações aborígenes; usaram a ocupação militar como um amortecedor entre colonos brancos e nativos rebeldes; e estabeleceram governos de escassa representação nos territórios ocupados”. Ao longo de todo o século XX, escreve Jackson Lears, os EUA usaram “amplamente a sua influência para interferir nas políticas domésticas e manter governos que iriam fielmente servir os interesses americanos (como foi o caso de Cuba até 1959)”.

A vontade de domínio, percebe-se na continuação desta longa leitura, não recusa intervenções musculadas, seja com a longa ocupação do Haiti, seja com a trágica intervenção no Vietnam, ou a utilização da força militar para esmagar revoltas e criar condições para instalar um ditador cooperante, como Rafael Trujillo, na República Dominicana, “cujas brutalidades”, como acontece ainda hoje noutras latitudes, “os americanos toleravam enquanto respeitasse os interesses estratégicos dos EU na região”, escreve Jackson Lears. Quando isso deixou de acontecer, Trujillo finou-se. Nada de diferente do que se passou no Irão, na Guatemala, no Congo, no Brasil ou no Chile, onde, com o apoio da CIA, os EUA contribuíram para afastar governos de centro-esquerda democraticamente eleitos.


Através de exemplos recolhidos nos dois livros, Lears evidencia como os EUA, com base na sua pretensa exceção, impõem a outras nações o que jamais tolerariam nas suas margens, seja a desmesurada expansão da NATO para leste, contra todas as promessas feitas, a promoção do sistema antimíssil às portas da Rússia, o envio de tropas para a Ucrânia, ou a instalação da “US Navy” no mar do sul da China.


O texto da NYRB situa-se na estrita recensão dos dois livros e, evidentemente, não decorre de qualquer debate sobre eventos que dominam a atualidade. Trata-se tão só de equacionar os interesses geostratégicos dos EUA. Que são isso mesmo: interesses, e geostratégicos.


Despeço-me com dois momentos únicos. Primeiro, Patti Smith, 72 anos, acompanhada ao piano pela sua filha, a ler um excerto de “As Ondas”, de Virginia Woolf, no dia do seu aniversário, durante um concerto em Londres no passado dia 25 de janeiro.

Por fim, Rosalía, 25 anos, a grande cantora espanhola do momento. Estará no Porto no dia 8 de junho para atuar no Nos Primavera Sound. Deixo o vídeo da sua emocionante atuação, no passado sábado, na abertura da cerimónia dos prémios Goya de cinema em Espanha. Faz uma versão de “Me quedo contigo”, o êxito dos anos de 1980 de Los Chunguitos que gerou muitos arrepios na sala.


Tenha um bom dia, acompanhado de boas leituras.

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