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Expresso

Cristina Figueiredo Editora de Política da SIC

As vacas perderam as asas

7 de Fevereiro de 2019


Três anos, dois meses e alguns dias depois de ter tomado posse como primeiro-ministro, e a exatos oito meses das legislativas, António Costa parece ter trocado o "otimismo irritante" pelo realismo prudente. Ontem, no debate quinzenal na Assembleia da República, respondendo a Catarina Martins, que apelava ao Governo que contrate mais enfermeiros mas também que decida pelo "justo descongelamento e progressão na carreira" destes profissionais, fez doutrina para o resto da legislatura: "A ideia de que tudo é possível já e ao mesmo tempo é altamente perniciosa e põe em causa a irreversibilidade dos passos que já demos. Não podemos entrar na lógica do agora ou nunca. O país não tem condições. Não é justo para outras carreiras paralelas".

Vítor Gaspar teria dispensado os 'paninhos quentes': "Não há dinheiro, qual das três palavras é que não percebeu?" . Ainda que mais gentil, Costa deixa aviso idêntico e não apenas a enfermeiros, mas também a professores, funcionários judiciais, guardas prisionais, investigadores da PJ, polícias, técnicos de diagnóstico, auxiliares de educação, enfim, a todos os setores da função pública que se preparam para passar 2019 em modo reivindicativo. "Não me peçam para fazer o impossível", diz o homem que, não assim há tanto tempo, contava esta história: "Deve haver problemas impossíveis. Tenho tido a sorte de nunca ter encontrado nenhum (...); um dos meus secretários de Estado [quando era ministro da Administração Interna] dava sempre como exemplo de coisas impossíveis vacas com asas. Um belo dia, num aeroporto de Londres, encontrei uma. Pendurada no teto, voava e tudo. Permitiu-me demonstrar-lhes como até as vacas podem voar. Essa vaca voadora tem sido uma fonte de inspiração". Parece que as vacas ficam, afinal, de patas bem assentes no chão à ordem de, e foi o primeiro-ministro quem o disse (mesmo a terminar a sua entrevista à SIC, anteontem)... "contas certas é fundamental".




OUTRAS NOTÍCIAS, CÁ DENTRO...


No mesmo debate quinzenal, cordato e morno (em evidente contraste com o de há duas semanas), assistiu-se a rara, mas neste caso obrigatória, unanimidade da câmara em torno da violência doméstica. Depois de conhecidos os últimos números (9 mulheres mortas em crimes de violência doméstica desde o início do ano), que António Costa considerou "absolutamente intolerantes, uma ofensa profunda à sociedade que somos", o primeiro-ministro anunciou que os ministros da Justiça, da Administração interna e da Presidência reúnem-se hoje com a Procuradora Geral da República para tentarem "aperfeiçoar a resposta" a dar a um problema que "envergonha a sociedade" . Já ontem à noite houve notícia de mais uma mulher ferida por duas balas disparadas pelo antigo companheiro.

O chefe do Governo escolhera o Serviço Nacional de Saúde como tema para levar à Assembleia da República, preferindo obviamente realçar os números do que já foi feito ao muito que ainda está por fazer num sistema que completa quatro décadas de existência num momento de crise como não há memória. Já depois do debate, os hospitais privados romperam os protocolos que mantinham com a ADSE, que entretanto emitiu um comunicado a desmentir que assim fosse. A celebrar a efeméride, numa altura em que a Lei de Bases está a ser "cozinhada" entre os vários partidos em comissão parlamentar, a boa notícia de que o Conselho de Ministros vai finalmente aprovar medidas de apoio aos cuidadores informais.

Ainda ecos da entrevista de Costa à SIC, na terça-feira: depois do primeiro-ministro criticar a banca por não estar preparada para apostar nas empresas, preferindo dar crédito aos privados para habitação e outros fins, os banqueiros ripostam dizendo que... não é verdade. Ainda sobre a entrevista, o site Polígrafo fez o fact-check.

O presidente executivo da Caixa Geral de Depósitos, Paulo Macedo, vai hoje à Comissão Parlamentar de Orçamento e Finanças, falar sobre a auditoria da Ernst & Young que voltou a pôr o banco público na ordem do dia. O Observador deu-se ao trabalho de cotejar a versão original da auditoria com a que foi entregue (rasurada) no Parlamento e concluiu que só os 25 maiores devedores da CGD causaram perdas acumuladas de 1.310 milhões de euros.

A Comissão Política Nacional do PSD deverá reunir hoje para discutir (e aprovar) o nome do cabeça de lista às eleições europeias, que será novamente Paulo Rangel. No PS, apesar de o anúncio oficial estar marcado para 16 de fevereiro, é já certo que avança Pedro Marques.

O Benfica voltou a vencer o Sporting. Três dias depois do derby para a Liga, os dois grandes jogaram a primeira mão das meias-finais da Taça de Portugal e a equipa de Bruno Lage levou vantagem sobre a de Marcel Keizer. O resumo de um jogo que ainda assim não tirou completamente a esperança aos sportinguistas pode ser lido aqui.


...E LÁ FORA


Na Venezuela, aumentam as pressões sobre Nicolás Maduro. Ontem os EUA ofereceram isenção de sanções a todas as altas patentes militares que retirem o apoio ao ainda presidente do país. Este usa a melhor arma de que ainda pode dispor para se manter no poder: ontem mandou bloquear uma ponte entre a Venezuela e a Colômbia, através da qual chegaria ajuda humanitária ao país (sobretudo medicamentos, vindos dos EUA).

Mais a sul, Lula da Silva voltou a ser condenado (quase treze anos de prisão) por corrupção e lavagem de dinheiro, no segundo de sete processos que tem contra ele no âmbito da operação Lava-Jato. Há ainda cinco para ir a julgamento, sendo que o desfecho do primeiro colocou mesmo o antigo Presidente brasileiro atrás das grades (está a cumprir pena desde abril do ano passado).

Jeremy Corbyn escreveu uma carta a Theresa May com cinco condições para que os trabalhistas apoiem o Governo nas negociações para o Brexit. O líder trabalhista quer, entre outras sugestões, uma união alfandegária em todo o país ou acordos claros sobre questões de segurança, como por exemplo as que respeitam a mandados de captura europeus.

A primeira-ministra britânica, entretanto, estará hoje em Bruxelas para retomar as negociações para a saída do Reino Unido da União Europeia (o que deverá acontecer, se os prazos se mantiverem inalterados, a 29 de março), depois do Parlamento britânico ter chumbado a primeira proposta de acordo. May é recebida pelo presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, às 10h da manhã. À tarde vai ao Parlamento Europeu.

Hoje também aguardam-se a previsões económicas (crescimento e inflação) de inverno da UE. A conferência de imprensa do comissário europeu Pierre Moscovici, comissário europeu para os Assuntos Económicos e Financeiros, está marcada para as 10h.

Em Espanha, "no hay día tranquilo en el Gobierno de Pedro Sánchez", como se escreve no El Pais. A última controvérsia tem a ver com a espécie de autobiografia que o presidente do Governo decidiu publicar (estará nas bancas a 19 de fevereiro), contrariando, pela primeira vez na história da democracia espanhola, o hábito de não haver publicações de livros por parte de um chefe de Governo em exercício: o PP exige saber os detalhes do contrato entre o autor de "Manual de resistência" (assim se chama a obra) e a editora, nomeadamente se Sánchez vai receber dinheiro e quanto. Mas essa é a menor das dores de cabeça para o chefe do Governo, que ontem voltou a ouvir o líder do PP, Pablo Casado, chamar-lhe todos os adjetivos (e nenhum deles elogioso), e até ameaçar com uma moção de censura, antes de apelar à mobilização geral dos eleitores para uma manifestação (contra o Governo, pois claro), já no próximo domingo, em Madrid. Casado não está sozinho no apelo, já que o Ciudadanos e o Vox fizeram o mesmo. Vem tudo isto ainda e sempre a propósito da questão catalã, tema que, aliás, leva hoje mesmo Sánchez novamente às instituições europeias (é a segunda vez, no espaço de um mês) desta feita ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem e ao Conselho da Europa.


AS MANCHETES DOS JORNAIS E REVISTAS


"Só a região Norte eliminou metade do desemprego em todo o país" (Jornal de Notícias)
"Hacker ficou com dinheiro desviado de banco das Caimão" (Público)
"Costa, os marcianos e a maioria absoluta" (i)
"PS e PSD de acordo para haver mais mulheres nos orgãos de poder" (Diário de Notícias - edição digital)
"Discussão com o sogro atiça massacre" (Correio da Manhã)
"ADSE e privados trocam ameaças" (Jornal de Negócios)
"Como Angola tirou €3.000.000.000 aos portugueses" (Visão)
"O grande assalto à Caixa" (Sábado)
"Luz acesa" (A Bola)
"Até ao fim" (Record)
"Uma bomba de oxigénio" (O Jogo)


O QUE ANDO A LER


Jornais e pouco mais, rima e é verdade. Poucas páginas ainda li do novo, e muito elogiado, romance de Dulce Maria Cardoso, "Eliete". E por isso posso ainda dizer pouco além de que estou a gostar muito. É a história de uma mulher de 40 e poucos anos, que perdeu o pai em criança e foi criada por uma mãe amarga e uma avó conservadora; hoje, casada e com duas filhas e uma profissão (vendedora imobiliária) que exerce sem grande gosto, começa a fazer o inevitável balanço de meio do caminho. Nada de novo nem original, dirá o leitor. Talvez. Mas como ontem me dizia uma colega, comentando exatamente este livro, arte é saber tornar uma história banal numa grande história, ainda mais se escrita, como esta é, com aquela souplesse (perdoem-me o francês, mas falta-me melhor termo em português) que só os verdadeiros mestres da palavra possuem.

Há algum tempo que não vou ao teatro mas este fim-de-semana vou matar saudades: domingo, na Comuna, a Companhia Maior apresenta publicamente o resultado de um workshop que fez nos últimos meses com o encenador João Mota; é às 16h e a entrada é livre (sujeita à lotação da sala). No sábado, às 21h, na sala Garrett do Teatro Nacional D.Maria II, sobe de novo a cena "By heart". É uma representação única (e por isso apresse-se que já não há muitos bilhetes disponíveis) de uma peça que tive o imenso prazer de ver noutra temporada (e, então, noutro teatro). O texto e a encenação são de Tiago Rodrigues que, numa original interatividade com o público, nos demonstra como é possível aprender de cor um poema de Shakespeare em pouco mais de uma hora.

E, sem mais rimas, fico por aqui. Prosas, versos, notícias curtas ou grandes reportagens, tem de tudo, como na farmácia, nos sites do Expresso, da SIC e da Blitz. Boa quinta-feira.

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