Siga-nos

Perfil

Expresso

Filipe Santos Costa Jornalista da secção Política

Outra vez a regionalização (agora pela calada)

4 de Fevereiro de 2019

Bom dia.

Em março de 1977, o Expresso entrevistou Diogo Freitas do Amaral, já então um “senador da pátria”, que se preparava para presidir à Comissão Para a Reforma Administrativa. Mais de quarenta anos, e muitos pareceres, e estudos, e comissões depois, voltamos a ter outra comissão - desta vez chamada Comissão Independente para a Descentralização - e voltamos a ter Diogo Freitas do Amaral, agora na qualidade de "professor doutor altamente qualificado", a quem foi pedido mais um estudo... sobre a regionalização.

É isso mesmo: a regionalização está de volta. Mas, desta vez, PS e PSD decidiram ser mais cuidadosos e esconder o seu verdadeiro objetivo. Querem discretamente dar todos os passos para preparar a regionalização, e só no último momento assumir esse propósito, devidamente munidos dos estudos que demonstrem que o país só avançará se for mesmo divido em regiões autónomas com governos eleitos. Criaram na Assembleia da República a tal comissão, que se chama "para a descentralização", mas que é na verdade para a regionalização - é presidida por João Cravinho, um regionalista, e entre os seus sete membros, todos de nomeação partidária e quase todos fortemente regionalistas, inclui-se Alberto João Jardim, o senhor-Região-Autónoma-da-Madeira. Como se isto não bastasse, encomendaram a Freitas do Amaral e a Mário Aroso de Almeida um estudo sobre regionalização - para se saber como deve ser a divisão administrativa do país e que passos devem ser dados para que essa divisão desta vez se concretize mesmo.

A notícia foi dada pelo Expresso na manchete de sábado passado - o verdadeiro propósito da dita comissão era assumido por Álvaro Amaro, o dirigente do PSD a quem Rui Rio entregou este dossiê, e que admitia, preto no branco, que o objetivo é regionalizar, avançando para as cinco regiões-plano. Apesar da meridiana clareza com que Amaro assumiu as coisas, Rio veio dizer este fim de semana que "está tudo em aberto". Rio, que é regionalista mas disfarça tanto quanto pode, pois sabe que essa é uma questão divisiva no seu partido e até na sua direção, deita água na fervura: "Não é líquido que seja regionalização ou que não seja."

Mas a informação do Expresso ia mais longe: há um movimento de autarcas, sobretudo nortenhos, a mobilizar-se para agarrar na bandeira regionalista, ao mesmo tempo que o grupo de sábios nomeado pelo Parlamento adianta os tais estudos.

Pequeno problema: para além do estudo encomendado a Freitas e Aroso de Almeida, a comissão Cravinho encomendou outros cinco - no total, com um custo de quase meio milhão de euros (são €135 mil euros só para o estudo da regionalização). Acontece que o Conselho de Administração do Parlamento olhou para as contas e achou os valores excessivos. Como Cravinho se recusou a aceitar a sugestão de reduzir os valores (que não têm sequer cabimento orçamental), o Conselho de Administração da AR chumbou a proposta.

Aguardam-se as cenas dos próximos capítulos. Sendo certo que Marcelo Rebelo de Sousa - que em 1998 obrigou a que se fizesse um referendo e capitaneou o lado do "não" à regionalização, já veio lembrar ao Expresso que nada disto se pode fazer às escondidas. E que sem referendo não haverá regionalização.

OUTRAS NOTÍCIAS

O agravamento fiscal de prédios devolutos vai aumentar, garante Ana Pinho, secretária de Estado da Habitação, em entrevista de ao Público. O Governo pretende também integrar os apoios ao arrendamento jovem, o Porta 65, no programa de Arrendamento Acessível.

Em Lisboa, a Câmara está a apertar cerco às trotinetas: fez um ultimato às cinco empresas de trotinetas partilhadas para implementarem um sistema de estacionamento em parques próprios, devidamente sinalizados. Utentes que abandonem os veículos nos passeios ou vias públicas passam a ser multados.

Os senhorios que quiserem contratar um seguro multirriscos habitação ou de rendas, além da obrigatória proteção contra incêndios, não irão usufruir da dedução desses valores nos rendimentos das rendas para efeitos de IRS, avança o “Jornal de Negócios”.

“Pare! Pare, Donald Trump!" diz Nicolás Maduro, mas americanos e europeus consideram que quem deve parar é o Presidente da Venezuela, que não exclui uma guerra civil no seu país. “Tudo depende da loucura do império do norte e aliados”, disse esta domingo no canal de televisão espanhol La Sexta.

Terminou ontem o prazo dado pela União Europeia para Maduro convocar eleições antecipadas. O grupo de contacto da UE reúne-se esta semana, dia 7, em Montevideu, para ajudar na organização de novas presidenciais.

Países europeus reconhecem Guaidó como Presidente interino da Venezuela: os governos de Espanha, Suécia, Áustria, França e Reino Unido aceitam que o presidente do Parlamento seja chefe de Estado interino, com a missão de convocar eleições presidenciais o mais cedo possível. O Ministro dos Negócios Estrangeiros português falará sobre a Venezuela às 12h de hoje.

OS EUA vão enviar mais 3750 forças para a fronteira sudoeste com o México. Trump deverá falar esta terça-feira sobre imigração e sobre a sua proposta para a construção de um muro ao longo da fronteira durante o seu discurso do Estado da União.

Theresa May diz continuar determinada a cumprir saída da União Europeia da União Europeia até 29 de março, tendo escrito no "Sunday Telegraph" de domingo que não irá pedir prolongamento de prazo a Bruxelas e voltará às negociações do acordo de saída com os líderes comunitários já nos próximos dias. Entretanto, ficámos a saber que um plano de emergência para tirar a rainha de Londres caso o 'Brexit' corra mal. Trata-se de um plano que remonta aos tempos da Guerra Fria e prevê o cenário fuga de barco…

Adérito Florêncio Tété, de 85 anos, natural de Trás-os-Montes e residente em Angola há 60 anos, foi encontrado morto na sua residência. A polícia angolana confirmou que a morte do empresário português que residia em Malanje foi provocada por “meliantes não identificados, que lhe desferiram vários golpes na cabeça com objetos contundentes”: a tese é de que se tratou de um “homicídio qualificado praticado por elementos não identificados”.

O Papa iniciou este domingo uma visita histórica aos Emirados Árabes Unidos, levando a mensagem de apelo à paz no Iémen. Nenhum líder da Igreja Católica tinha alguma vez visitado o país – e a península.

Os alemães defendem uma ação rápida das autoridades contra notícias falsas. Um estudo da universidade alemã de Darmstadt revela que 81% querem respostas contra as "fake news".

Foi um jogo muito mau” para o Sporting e “um bom jogo” para o Benfica: 2-4 em Alvalade, resultado que faz hoje manchete nos desportivos “sem apelo nem agravo”, frase da coleção de jargões. Enfim, “a águia devora o leão”, titula o Record.

Como em todas as jornadas, mas sobretudo quando há grandes jogos, a Tribuna Expresso publica um conjunto de artigos de comer e chorar por mais. Na crónica do jogo, escreve-se sobre “a impressão digital de Bruno Lage, que fez renascer este Benfica após meia época de amorfia”, e que nos diz “que o campeonato está longe de estar entregue”. Já na contra-crónica dedicada ao “furacão Félix”, Um Azar do Kralj declara que a Proteção Civil registou 37 ocorrências na associação recreativa de Alvalade; e Diogo Faro escreve sobre “as pernas de ferro de André Pinto, o camarote da Dona Dolores e os três passos de Luiz Phellype. “Este jogo fez lembrar o 6-3”, em que João Félix fez de João Pinto, analisa Rui Santos. O implacável Insónias em Carvão escreveu publicar “O Lageboratório, o body shaming, o Keizépeseiro e a proverbial escorregadela”.

O fim de semana foi ainda melhor para o Benfica porque o Porto empatou com o Guimarães, após um jogo “físico e intenso” mas sem golos. “Depois de passar boa parte da liga descansado na frente, os dragões têm agora de olhar para trás: o Benfica está a três pontos e o Sp. Braga a quatro”, escreve-se na crónica da Tribuna. Na contra-crónica, Lá em Casa Mando Eu viu Casillas a discutir com Militão gritando-lhe claramente: "Hombre, no vás para Madrid! Yo sei do que hablo!”.

Mas o jogo mais visto no mundo ontem foi a final da Super Bowl: mais uma vez, os New England Patriots são campeões.

Morreu o ator Octávio Matos. Era conhecido principalmente pelos papéis cómicos e pelo trabalho em teatro de revista. Tinha 79 anos.

FRASES

“O PS não vai ter maioria absoluta e isso tem aspetos positivos”. Paulo Trigo Pereira, no Negócios.

“A partir de agora, é impossível ter políticos à frente da CGD”. Marques Mendes, na SIC.

“O Estado não tem casas fechadas por seu belo prazer para abrir repentinamente. Envolve sempre uma obra”. Ana Pinho, no Público.

"Há muitos cancros que deveriam ser deixados em paz". Sobrinho Simões, na Renascença.

“Portugal é um dos países europeus onde se passa mais frio dentro de casa. (…) A média de casas mal aquecidas na União Europeia anda em torno dos 8%. Em Portugal temos o dobro das casas frias: 22%.” Rui Tavares, no Público.

O QUE ANDO A LER

A gastronomia – ou a gastromania, como recentemente lhe chamou um comentador - é por estes dias associada a um capricho blasé, com o qual fazem par outras belas palavras francesas como gourmet. Não é obrigatoriamente assim como se pode confirmar pela entrevista a Massimo Bottura publicada esta semana na Revista do Expresso. Bottura – quem não conhece tem que ver o primeiro episódio da primeira temporada da série “Chef’s Table” disponível no Netflix – tem, como grande parte dos cozinheiros hoje famosos, uma história feita de altos e baixos, êxitos e desgraças, sucessos e tragédias. É esse o arco narrativo do episdódio de “Chef’s Table” dedicado a este cozinheiro de Modena, cidade do norte de Itália, próxima do quartel-general da Ferrari e pátria de Pavarotti.

O que esse episódio não mostra são os mais recentes projectos desenvolvidos pelo proprietário e chefe de cozinha da Osteria Francescana, o restaurante que Massimo Bottura dirige e que, nos últimos anos, tem estado no topo da lista dos “50 Melhores Restaurantes do Mundo”. Bottura criou desde então dois projectos que se distinguem do mundo blasé e gourmet que infeta o fine dining. O primeiro chama-se Reffetorio e põe os melhores chefs do mundo - e amigos de Bottura – a reaproveitardesperdício alimentar para fornecer refeições aos sem abrigo. O Reffetorio começou por abrir em Milão mas já chegou ao Rio de Janeiro, Paris, Bolonha, Londres e Nápoles. Na entrevista, Massimo Bottura anuncia aberturas em São Francisco, no México e na República Dominicana. O segundo leva por nome Tortellante e é um espaço onde crianças com dificuldades cognitivas (como um dos filhos de Massimo Bottura) podem aprender a fazer tortellini. Por estes dias, os tortellini do Tortellante já alimentam as cantinas da Gucci e da Tetra Park, em Itália.

Como diz Bottura: “há uma revolução humanista que está a elevar os chefs a uma dimesnão muito diferente”. Pelo menos alguns.

Tenha uma excelente semana.

Partilhe esta edição