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Expresso

Ricardo Marques Jornalista

Venezuela no tempo e no espaço

1 de Fevereiro de 2019

Uma criança de 11 anos, ainda a dar os seus primeiros passos como analista de política internacional, disse-me ontem à noite, pouco antes das nove e meia, que Juan Guaidó, com o seu fato escuro e a sua gravata azul, é “parecido com o Barak Obama”. Também se referiu a ele como o “presidente bom”, a Nicolás Maduro, “o do bigode de camisola verde”, como o “presidente mau” e tentou discutir comigo que razões teria o “mau” para não organizar eleições na Venezuela, tal como quer o “bom” e as pessoas todas que “estão na rua”.


Obviamente, mandei-a para a cama.


O assunto é sério. E por muito que tentemos não conseguimos deixar de lado a ideia de que há uma espécie de relógio em contagem decrescente. O mais preocupante é que ninguém sabe bem o que vai acontecer quando o tempo acabar.


O auto-proclamado presidente interino Guaidó deu ontem uma entrevista a Christiane Amanpour, da CNN, falou também com o jornal espanhol El Pais e, num artigo de opinião publicado quarta-feita no The New York Times, já tinha admitido que existiram reuniões secretas com os militares venezuelanos. E dirigiu-se também à ONU. É um falar para fora, com a Venezuela rica em petróleo no epicentro de todas as discussões, mas também um esforço de ser ouvido de outra forma dentro do país.


Neste momento, mais de 60 países já reconheceram Guaidó como presidente interino, deixando cada vez mais isolado Nicolás Maduro. O presidente no poder, por seu lado, conta com o apoio de Cuba, da China (que se encontra também numa intensa ronda negocial com os EUA propósito do acordo comercial) e da Rússia - o misterioso avião Boeing 770 da Nordwind Airlines que partiu de Caracas já chegou a Moscovo. Ninguém sabe o que lá vinha dentro, mas há palpites de todo o tipo: a) vinha vazio depois de ter levado tropas russas para a Venezuela; b) vinha carregado com toneladas de ouro; c) trazia Nicolás Maduro.




Ontem foi o Parlamento Europeu - não obstante a oposição dos eurodeputados do PCP, que falaram de póster em punho a exigir que deixem a Venezuela em paz - a reconhecer Guaidó. E estamos a poucas horas de terminar o ultimato dado pela União Europeia ao regime. Isso significa que, a menos 24 horas das grandes manifestações previstas para Caracas, em várias capitais europeias já estão em cima da mesa todos os cenários. A diplomacia portuguesa tem sido cautelosa, mas o ministro da Defesa João Gomes Cravinho, admitiu o envio de tropas para a Venezuela para garantir a segurança dos milhares de cidadãos portugueses e luso-descendentes que lá vivem.




[A última operação do género, a Operação Crocodilo, aconteceu há cerca de 20 anos. Em junho de 1998, militares dos três ramos das Forças Armadas portuguesas foram empenhados para garantir a evacuação em segurança de portugueses e outros cidadãos estrangeiros que se encontravam na Guiné Bissau.]




Uma forma de acompanhar o que vai acontecendo na Venezuela é seguir a conta de Twitter de Juan Guaidó. Foi ali que o líder da oposição denunciou a presença de elementos das forças especiais em sua casa, uma manobra para o “intimidar”. As autoridades negam.




Outra maneira de estar a par dos acontecimentos é espreitar os jornais venezuelanos: o El Nacional, o El Universal e o La Voz .




Independentemente do que possa suceder hoje, amanhã será um dia de alta tensão em Caracas e um pouco por toda a Venezuela. Os analistas acreditam que poderá ser a maior manifestação de sempre da oposição ao regime - que, por sua vez, já garantiu que também terá apoiantes na rua. Se não se cruzarem, não faltará quem faça as contas aos apoiantes de cada lado.




Caso contrário, e o mundo inteiro espera que não, pode começar algo que talvez seja melhor as crianças não verem.

OUTRAS NOTÍCIAS

A Ministra da Saúde admitiu ontem vir a recorrer a “meios jurídicos”, sem dizer quais nem como, para lidar com a greve dos enfermeiros. Em cima da mesa está a possibilidade de avançar para uma requisição civil ou recorrer à PGR para analisar o modo como está a ser organizada e ‘financiada’ a atual greve cirúrgica.

Na Rádio Renascença, o constitucionalista Reis Novais apontou dois possíveis caminhos que podem ser seguidos: a duração da greve e o tipo de serviços mínimos. Se decidir mesmo avançar para a Justiça, será útil que Marta Temido, a ministra da Saúde, se certifique de que não há nenhuma greve marcada nos tribunais

Uma paralisação semelhante, no final do ano passado, levou ao adiamento de milhares de cirurgias - incluindo 500 cirurgias urgentes em dois centros hospitalares, um em Lisboa e outro em Coimbra. Hoje, é provável que surjam os primeiros números consolidados, embora já ontem se falasse em mais de duas centenas de cirurgias canceladas.


A dominar a atualidade está também o relatório da Inspecção-geral da Administração Interna ao incêndio de Mação, no ano passado, e que detetou a cobrança à Protecção Civil de milhares de refeições superiores ao numero de bombeiros no terreno, como escreve o Público. O Jornal de Noticia adianta em manchete que “os bombeiros cobraram quatro vezes mais por refeições-fantama”

Todos os partidos de acordo e dentro da caixa. Todos? Não. O irredutível PCP não alinha e por isso vai ficar de fora do texto comum que define o âmbito da Comissão Parlamentar de Inquérito à Caixa Geral de Depósitos. Um assunto de que certamente vai ouvir falar nas próximas horas. Até porque Paulo Macedo vai ao Parlamento entregar o relatório final da auditoria ao banco público. Será pelas 14h30 a hora do dinheiro.

Cinco freguesias de Lisboa com preços superiores a 3500 euros / metro quadrado, de acordo com o INE. Sabe aquelas casas de 25 metros quadrados que as lojas de mobiliário gostam de decorar tão bem que achamos possível viver ali para sempre? 87.500 euros. Oitenta e sete mil e quinhentos. Euros.

Esta é aquela pequena rubrica a que podemos chamar jornalismo de serviço público, direto e útil (embora num assunto que preferíamos não discutir). De qualquer modo, pode ler este artigo do Expresso para saber tudo sobre o IRS e os prazos para o pagar. Já não falta muito.

As autoridades portuguesas garantem que foi detetada a tempo e destruída a carne polaca imprópria para consumo que chegou a Portugal.

A Polícia Judiciária anunciou a apreensão de 2,5 toneladas de cocaína a bordo de um navio que se encontrava a cerca de 300 quilómetros da ilha de São Vicente, em Cabo Verde. Onze homens foram detidos numa operação que envolveu também militares da Marinha e da Força Aérea.

De acordo com os jornais, a droga apreendida está avaliada em 125 milhões de euros - uma informação que me permite antecipar, em alguns parágrafos, a rubrica ‘O que ando a ler’. Isto porque é com uma conta semelhante que começa o livro “Narconomics, como gerir um cartel de droga”, de Tom Wainwrigth, editor da revista Economist.

Ou seja, Wainwright recorda o dia em que viu queimar 134 toneladas de marijuana no México e em que o general garantiu que estavam a reduzir a cinza e fumo qualquer coisa como 340 milhões de dólares. O problema é que a conta estava a ser feita ao valor da droga na rua, não aos custos de produção.

Seria o mesmo que a partir de um bife de 200 gramas vendido a 50 euros num restaurante imaginar que uma vaca de 500 quilos vale 100 mil euros. Ou, como escreve Wainwrighth, “o golpe de 340 milhões infligido ao crime organizado (…) foi uma fantasia; a perda sofrida pelos criminosos donos da droga foi provavelmente inferior a 3 por cento desse montante”.

Adiante.

Os jornais americanos estão a dar muito atenção à vaga de frio que assola o país. O NYT tem conselhos para quem quer sobreviver – com selo de garantia da malta que mora em Chicago. Em alternativa, pode ouvir o que contam os portugueses que por lá moram. E ver o que se passa na Europa que treme.

Vale a pena, tendo em conta o que aí vem. Não é que cheguemos aos -30º americanos, longe disso, mas com chuva forte, mar ainda mais forte e o vento a competir com ambos, mais a temperatura a descer, podemos sempre encontrar consolo e dizer: pelo menos o meu presidente não é o Trump.

Por falar nele, parece que o inquilino da Casa Branca está numa birra de recreio com os responsáveis máximos dos serviços secretos americanos. Diz Donald que eles são “ingénuos” na forma como leem o mundo, alertando para o perigo que representa o Daesh e a China (pode ler o relatório anual na íntegra aqui - e vale a pena espreitar).

A Itália está oficialmente em recessão e, como nota o El Pais, já soaram os alarmes em Bruxelas.

Uma reportagem do El Mundo, nas Filipinas, onde Rodrigo Duterte, o presidente que declarou guerra à droga sem se importar com as consequências, está agora em choque com os bispos católicos - e já disse publicamente que mais vale “matá-los”.

Se está a caminho de Barcelona, lembre-se que, a partir de hoje, a Uber e a Cabify deixam de operar naquela cidade.

Foi precisamente há vinte anos e um dia a publicação Lei do Mirandês. Esta noite, em Miranda do Douro, há uma série de conversas sobre o tema. Ou, como eles diriam: “Fui percisamente hai binte anhos i un die que fui publicada la Lei de l Mirandés. Esta nuite, an Miranda de l Douro, hai ua série de cumbersas subre l tema.” Se quiser divertir-se, use e abuse deste tradutor online de mirandês.

Jim Yong Kim, o presidente do Banco Mundial, deixa hoje o cargo.

Teodora Cardoso, a presidente do Conselho Superior do Conselho das Finanças Públicas, faz o mesmo no final de fevereiro. Despede-se, como diz este artigo do Expresso, com um texto sobre o financiamento do sistema de pensões. Nazaré Costa Cabral é a senhora que se segue.

Na Tribuna pode ler tudo o que aconteceu até ao último segundo do mercado de transferências do futebol nacional.

Joan Baez toca esta noite no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. São 60 anos de carreira.

Se tiver 9,5 milhões de euros aí à mão, pode ter a certeza de que vai passar umas incríveis férias no espaço. Se não for o caso, não desespere. Já pensou que pode entrar para uma das unidades de elite da Scotland Yard? A sério. Basta fazer o teste e, enquanto espera pelo resultado, ler a incrível reportagem que publicamos amanhã na revista do Expresso.

A propósito, fica a saber que amanhã, quando chegar à banca para comprar o Expresso, irá encontrar ali ao lado à venda a revista “Expresso Extra” - uma selecção de alguns dos melhores artigos que foram publicados em 2018 no seu jornal. Uma edição de luxo, para comprar, guardar e ler ou reler com toda a calma.

O QUE ANDO A LER

O tempo. O livro chama-se a “A ordem do tempo”, está publicado em português, e é uma espécie de redenção para todos aqueles que nunca foram grandes alunos a Física. Muito graças à deliciosa escrita do físico italiano Carlo Rovelli, é possível descobrir um mundo novo, onde nada é o que parece.

Já alguma vez pensou por que razão nos lembramos do passado e não do futuro? A pergunta pode parecer louca, mas depois de ler este livro é mais provável que os loucos sejamos nós. Trocadilhos à parte, Rovelli abre as portas às teorias científicas mais modernas e explica-as de modo acessível. Atente neste exemplo (a tradução, sofrível, é minha, a partir do livro em inglês).

“A diferença entre coisas e eventos é que as coisas persistem no tempo; os eventos têm uma duração limitada. Uma pedra é o protótipo de uma coisa: podemos perguntar onde estará amanhã. Um beijo é um evento. Não faz sentido perguntar onde estará esse beijo amanhã. O mundo é feito de redes de beijos, não de pedras.”

Antes fosse, Carlo. Antes fosse.

Tenha uma excelente sexta-feira, um bom fim de semana e um grande mês de fevereiro. O mundo, o espaço e o tempo estão em www.expresso.pt

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