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Expresso

Germano Oliveira Editor executivo

Ele hoje pensou no fim do mundo e quer que saibam que vos ama muito

31 de Janeiro de 2019

Há frio que queima e mata o corpo sem matar a pessoa, é dor bastante que está a acontecer, e a propósito disso Trump não é politicamente parvo mas cientificamente perigoso, é estupidez demasiada que não se deve desvalorizar: o Midwest americano parece um glaciar, Minnesota, Iowa, Illinois, Michigan e Wisconsin estão a arder de frio, cinco minutos ao ar livre em Chicago bastam para queimar a pele, as temperaturas de -28ºC de quarta-feira podem tornar-se piores esta quinta-feira, "as queimaduras são causadas pelo congelamento da pele e tecidos subjacentes, sendo mais comuns nos dedos das mãos e dos pés, nariz, orelhas, bochechas e queixo", "os casos mais graves podem matar tecido corporal" mas deixam imunes a sensibilidade burlesca e a astúcia populista do líder (LOL) do mundo livre:

In the beautiful Midwest, windchill temperatures are reaching minus 60 degrees, the coldest ever recorded. In coming days, expected to get even colder. People can’t last outside even for minutes. What the hell is going on with Global Waming? Please come back fast, we need you!

Na Sodoma que é o Twitter de Trump está lá esse escárnio para prosélitos, que tem tanto de sagaz para entusiasmar a base de fanáticos do presidente americano (LOL) como para assustar os que andaram na escola e leem livros:

Na sequência do tweet de Trump, a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional esclareceu que tempestades de neve como as atuais não refutam as alterações climáticas nem são incompatíveis com um clima mais quente.

O itálico é retirado da última edição do Expresso Diário, que pode ler todos os dias AQUI sem necessitar de recorrer a ISTO, e está escrito que os especialistas se dividem sobre a influência real, parcial ou inexistente do aquecimento global na criação deste espantoso congelador americano. Trump não é asno absoluto e o tweet saloio que escreveu tem sagacidade suficiente para ridicularizar a verdade amplamente aceite na comunidade científica de que o mundo está a morrer às nossas mãos. Mas uma verdade ridicularizada não faz dela menos verdade, torna-se é verdade fragilizada - e aí Trump vence. Por isso não se esqueça: o prazo para salvar a Terra termina em 2030.

A FORMA HIPOTÉTICA
A gente de um país é mais importante que o seu presidente, mesmo que o presidente se considere o país, a gente de um país é mais importante que o seu não presidente, mesmo que o não presidente se considere o eleito do país, e entre essa gente toda há gente que não é desse país e o país de onde são pode ter de ir lá resgatá-la, libertá-la, salvá-la: Portugal admite enviar tropas se for preciso tirar emigrantes e lusodescendentes da Venezuela, o assunto é sério e militares em nação alheia também. O ministro da Defesa, João Gomes Cravinho, diz que a intervenção "tem sido discutida de forma hipotética" e que vale para a Venezuela como para "outras partes do mundo", se há portugueses e filhos deles em países com dois presidentes e na iminência da guerra civil, esta última frase é nossa e não dele, então as tropas são chamadas para ir cuidar da segurança dos que vivem distante num país incontrolado.

MAIS UM ATENTADO AOS DIREITOS HUMANOS
A notícia mais desumana que hoje lhe posso dar é o atentado à catarse de Jorge Jesus e Rui Vitória, porque a aversão entre ambos está proibida na Arábia Saudita, onde um deixou de lá treinar e o outro o seu inverso: como se já não fosse alarmante a existência de duas ou três debilidades de direitos humanos na nação saudita, agora o povo tem de suportar uma adicional e particularmente cruel, essa impossibilidade de assistir a dois arqui-inimigos reinventarem a repulsa mútua e desta vez em território neutro - uma pessoa que não aprecia a outra tem a oportunidade definitiva de mostrar habilidade na dialética do ódio quando combate no estrangeiro. Jorge Jesus rescindiu, a Tribuna conta tudo mas obriguem os dirigentes do Al Hilal a ler ISTO.

GPS DE NOTÍCIAS
» O homem do momento escreve um editorial:
Juan Guaidó: Venezuelans, Strength Is in Unity, no New York Times

» O código penal é complexo:
Os crimes na Caixa Geral de Depósitos já prescreveram? Nem por isso, no Observador

» Quem vos mandou comprar isso?
Ministro do Ambiente diz que só avisou os consumidores sobre a perda de valor comercial dos carros a gasóleo, no Expresso

» É mesmo:
Álcool e droga: há menos pessoas a tratar-se, "é urgente" perceber porquê, no Público

» A dor a cores:
An artist coloured in a photo of an Auschwitz victim and it's heartbreaking, na BBC

» A ameaça:
Ministra da Saúde equaciona usar meios jurídicos face a nova greve dos enfermeiros, no Expresso

» Pensaram mal e ainda bem:
O regresso de Ornatos Violeta: “Depois dos concertos de 2012, pensámos que nunca mais iríamos repetir”, na Blitz

» Um dia de fúria:
“Vergonha”, “caudilhismo”, “vassalagem”, “condutas promíscuas”, “decadência moral”: Varandas arrasa direção do Benfica, na Tribuna

» Como assim?
Child draws all over dad’s passport, dad gets stuck in South Korea, no Metro

» O melhor é não fumar de todo:
Estudo conclui que cigarros eletrónicos são eficazes para quem quer deixar de fumar, no Expresso

» Enganei-me no filme:
Petrovic, que parecia o Homem da Máscara de Ferro mas que afinal foi o Homem de Lata do Feiticeiro de Oz (por Diogo Faro), na Tribuna

» Lá em Casa do Real Madrid:
Más una exibición mucho pobrezita de Militão e un pouquito de verguenza alheia de Lá em Casa Mando Eu, na Tribuna

MANCHETES
» "Governo só cumpriu 9% do programa Ferrovia 2020", no Público

» "Portuguesas pagas para casar em três países com maridos diferentes", no JN

» "Ciberguerra. Antifascistas e neonazis em escalada de tensão", no DN

» "Portugal admite enviar tropas para a Venezuela", no i

» "Subida dos preços da habitação vai chegar às periferias", no Negócios

» "Reação (FC Porto) e Cacetada (Sporting)", no Record

» "Sangue vermelho (Sporting) e Dragão lambe as feridas", em A Bola

» "Inabalável (FC Porto)", em O Jogo

O QUE ANDO A OUVIR FAZ-ME QUERER O MUNDO
Senti que ele era um homem debilitado antes de ter a fundamentação para o provar, foi uma intuição que se tornou constatação e intuí por uma canção e constatei por reportagens, continuamos a precisar dos jornais e das suas histórias para entendermos se a nossa perceção anda a supor devidamente. Ouvi a canção deste homem a caminho da ponte, não interessa qual mas que era uma ponte, sempre me fascinei como as pontes acontecem e com o que acontece nas pontes, o Homem e a sua engenharia aguentam-nas de pé e ainda não entendi como, mas o Homem e a sua angústia às vezes atiram-se delas e já entendi porquê - as pontes aguentam-se e o Homem por vezes não, a engenharia é mais estável que a psicologia.

O rádio do carro que me levou pela ponte anunciava um nome demasiado cândido para a canção, "My Heart Goes Bum Bum Bum", lê-se isto e tem de se questionar o motivo por que um homem batiza assim obra sua - a improbabilidade de se encontrar palavras capazes de explicar as palpitações do coração não é razão para ceder à facilidade das onomatopeias, anseia-se sempre que os artistas saibam escrever-nos a anatomia dos sentimentos que não conseguimos explicar ou desenhar ou silenciar ou gritar ou rir ou chorar, por isso é que eles são artistas e nós não. Fico a saber também pelo rádio que o disco se chama "I Clung to You Hoping We'd Both Drown" e que a canção que antecede o bum bum que nos haverá de inquietar foi batizada "The Cowardly Lion Doesn't Write Love Songs" e a que lhe sucede "47 Fughts, Pt. 2", então se o homem sabe tantas palavras e usa apóstrofes e conhece vírgulas e faz sequelas, meu Deus, porquê bum bum bum, que às vezes se torna bumbum e isso já é sobre outras palpitações?

Mas a canção começa e eu e o Manel, que um ocaso nos juntou na ponte e no carro, ficámos naquele silêncio contemplativo de quem se aflige com uma mensagem de amor ou adoece com um abraço de paixão, esses momentos em que sentimos coisas desapropriadas para acontecimentos certos, e esta canção lenta, agoniante, desamparada e despedaçada aparentava ser de um homem que sabe o que é estar no mundo e vivê-lo com felicidade e depois tristeza e eventualmente nova felicidade e então mais tristeza, esse ciclo instrutivo da idade adulta, porque aquilo era canção de gente madura, viajada e abandonada mas estávamos a sentir coisas desapropriadas para um acontecimento certo, ele não era nada disso, debilitado sim mas essas coisas não, intuímos devidamente o estado mas não a causa, essa estava afixada por ele no site mais melancólico que algum dia um músico já teve:

my name is mitch welling. i'm a songwriter and sound artist based in southern california. in 2007 i began recording and releasing music under the project name flatsound. in 2008 i became severely agoraphobic and didn't leave my house for almost ten years. i'm doing better now, but i'm still working on myself.

Ele escreve o I com i pequeno e isso diz muito sobre o homem que ele é, o eu em inglês é para ser anotado com a firmeza de uma maiúscula e o dele tinha a turbulência de uma minúscula, um homem que não consegue sair de casa com temor do que lhe há de ocorrer fora dela sente-se pequeno dessa maneira, a linguagem é consequência do que somos e sabemos e a dele expõe-no doente e mutilado, i em vez de I, fobia em vez de euforia, quarto em vez de rua, cozinha em vez de restaurante, sala em vez de discoteca, corredor em vez de ponte, segurança em vez de vertigem, e um homem que não sai de casa escreve bum bum bum em vez de uhuuu uhuuu uhuuu, que é evidentemente grito de felicidade ou adrenalina, ou aaai aaai aaai, a onomatopeia da dor, ou plaft plaft plaft, o brado da queda, porque esses são os sons que pulsam no coração dos que saem de casa e bum bum bum a contenção dos enfermos: o cataclismo do sofrimento ou as tonturas do prazer não são bum bum bum mas booom brooommm shock, têm combinações improváveis e formulações imprevisíveis, mas depois lemos o diário que ele mantém em flatsound.org e comovemo-nos com os relatos monótonos da penitência de um homem que durante 10 anos não sabe como vencer a porta da rua, aplaudimos as fotos hiperdelicadas que ele partilha sobre a banalidade patológica da sua existência e espantamo-nos com a solidão das suas declarações terapêuticas:

i love you. i’ve been saying that to more people lately. it feels good. i love you.

Há canções assim, chegam na aleatoriedade de um shuffle e depois intrometem-se na nossa vida com a sua generosidade prodigiosa: "My Heart Goes Bum Bum Bum" induz suposições iniciais mais ou menos ajustadas - a convicção imprecisa da debilidade do seu autor e a certeza de ser canção que nos há de ficar, factos bastantes para dilatar as artérias -, mas a violência definitiva é saber que esta voz e esta fragilidade que nos alvoroçam e enternecem estão dentro de um homem diminuído pela exclusão social, sem gente e vida de rua suficientes para fazer sentir algo tão profundo e fundamental mas que na verdade o faz, e é com um homem danificado e isolado que se nos incendeia o desejo de ser nada disso e alugar uma Volkswagen decadente ou comprar uma Vespa para sair de casa e ir ver o mundo, porque um dia ele pode acabar:

i thought about the end of the world a lot today and i just wanted you to know that i love you so much.

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