Infografia

Um dia com Maria Teresa Horta

21 janeiro 2013 19:00

Carlos Paes (infografia), Ana Bela Martins da Cruz (reportagem), Nuno Fox (fotografia), André de Atayde (vídeo)

Escritora foi nomeada em 2012 para vários galardões pelo seu romance "As Luzes de Leonor", mas recusou receber o prémio Dom Dinis das mãos de Passos Coelho. Mulher de posições inflexiveis abriu as portas do seu dia a dia ao Expresso.

21 janeiro 2013 19:00

Carlos Paes (infografia), Ana Bela Martins da Cruz (reportagem), Nuno Fox (fotografia), André de Atayde (vídeo)

"Sinto orgulho pela capacidade que o povo tem de dizer que não!"

Nos últimos 13 anos, a vida de trabalho da escritora Maria Teresa Horta funcionou quase sempre entre os três vértices de um imaginário triângulo. Avenidas Novas, sair de casa - a base -, beber café, comprar o jornal, ir para o Palácio das Galveias (Biblioteca Municipal) investigar documentos e muitos muitos livros, regressar a casa - a base. A reportagem do Expresso fez o percurso, para cá e para lá, com a autora de "As Luzes de Leonor", que lhe valeu o Prémio Dom Dinis e que ela recusou receber, com a sua coerência demolidora, das mãos de Passos Coelho.

Tocámos à campainha do prédio, sinal combinado, ali para os lados do Campo Pequeno, e Maria Teresa Horta não demorou muito a sair do elevador. Chuviscava mas afinal o café, o jornal e a biblioteca são logo ali. Primeiro fomos à bica e apesar do pequeno aparato (fotógrafo, operador de vídeo e jornalista) que a rodeava ninguém se "queixou". Aos anos que estão habituados a isto. Espera que lhe ponham o microfone no casaco e permanece atenta a tudo, impossível não perceber que foi, é, jornalista.

Primeiro, e Maria Teresa Horta já tinha abordado o assunto em conversa anterior, diz que "é difícil mostrar às pessoas como é o trabalho de um poeta ou de um escritor que não tenha aquela rotina de se levantar e escrever durante uma série de horas como num escritório, porque há muitos escritores (alguns) que conseguem funcionar assim". Depois, começa a falar dos motivos que a impedem de receber o prémio das mãos de Passos Coelho:"Não recebo prémios, seja o que for, das mãos de uma pessoa que protagoniza estas políticas de austeridade sem fim e que tem o país inteiro a manifestar-se contra ele... Quando digo uma coisa nunca volto atrás com a minha palavra." Remata: "Acho que isso nunca me aconteceu, nem sei, então, disse aos senhores lá da Fundação de Mateus que me enviassem o prémio pelo correio, é o melhor... Não há cerimónia nenhuma, nem eles estão interessados."

"Acho que é demais. Ainda sugeri que o prémio me fosse entregue pelo Francisco José Viegas (ex-secretário de Estado da Cultura) ou pela presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves, que não se disponibilizaram... E pelo meio já recebi o prémio Máxima de Literatura." Parece contente, claro.

Saímos do café, atravessamos a rua em direção à papelaria e quando compra os jornais e vê as notícias do dia Maria Teresa Horta 'reclama' novamente: "Veja isto! Eu nunca receberia um prémio das mãos de uma pessoa destas. E não é por ser do PSD, aliás legitimamente eleito, é pelas políticas que aplica e por aquilo que representa!"

Atravessamos o jardim das Galveias em direcção à biblioteca, ao palácio que pertenceu aos antepassados de Maria Teresa Horta, e aos avós da marquesa de Alorna. Lá dentro todos a conhecem e Maria Teresa Horta reconhece a ajuda preciosa que sempre ali teve, quer na procura de obras pertencentes às Galveias quer nos pedidos de alguns exemplares a outras bibliotecas. Todas as manhãs (às vezes à tarde) levava sempre consigo uns caderninhos, que são às dezenas, para tomar notas, porque tinha de partir do zero para reinventar a Leonor, como se vestia, onde dormia, será que havia sabonetes no seu tempo? E se havia como eram feitos? Que tipo de luz é que ela usava à noite, seria uma vela? Conta que muitas vezes ao pesquisar, tentava colocar-se na pele de Leonor para poder entender como ela funcionaria e tentava imaginá-la numa espécie de desdobramento da personalidade.

Leonor libertária nasce de novo nas notas e no portátil de Maria Teresa Horta, feminista assumida desde pequena, sua quintaneta. Sobre o livro agora duplamente premiado diz: "As 'Luzes de Leonor' é diferente, um romance, sim é uma prosa, uma prosa poética inspirada em Leonor de Almeida Portugal que viveu entre 1750 e 1839, era neta dos marqueses de Távora, e foi a 4.ª marquesa de Alorna, minha avó em quinto grau, é verdade... Dei muito de mim e da minha vida pessoal à Leonor que fui descobrindo durante estes anos. Escrevia para jornais e revistas e nunca tinha tempo para a 'Leonor'. Até que decidi dedicar-me a tempo inteiro à marquesa de Alorna, uma mulher que no seu tempo se destacou, e afrontou, na história de Portugal e da Europa no chamado século das luzes."

Na biblioteca a escritora, poetisa e jornalista fala sobre grandes escritores que conheceu e entrevistou, sobretudo as duas Marguerite: Duras e Yourcenar. Sobretudo Duras. Encontros fabulosos que a marcaram para sempre. E, en passant, lembrou outros escritores como Natália Correia, Sophia de Mello Breyner Andresen e os poetas que marcam o Prémio Dom Dinis: prémio com o nome de um rei poeta, atribuído a uma poetisa por um júri de poetas, entre os quais está Vasco Graça Moura. Nestas coisas é muito reservada. Mas fala. Fala do amor, e do marido, e do casamento de tantos anos: "Só com amor, e paixão, é possível. De contrário não se consegue, um homem dá muito trabalho!".

Regressamos a casa, a base do trabalho, para ver o escritório onde só ela entra e a sala onde também trabalha e lembra-se de ver quando era pequena, em casa dos pais, retratos (naturalmente quadros ou gravuras) da marquesa de Alorna, por quem sempre sentiu uma grande curiosidade. Sobretudo porque quando era miúda 'visitava' o Palácio Fronteira (foi residência da marquesa de Alorna) em frente ao apartamento dos pais em São Domingos de Benfica. De facto não era visita, é que a mãe de Maria Teresa Horta, "uma menina aristocrata com dinheiro" lá vivia antes de casar com o médico, e pai da escritora, tendo abdicado dos seus direitos a pedido do marido. Mas isso não impediu que Teresa Horta passasse os dias com a mãe no palácio Fronteira com o avô e o primo D. Fernando de Mascarenhas, atual 11.º marquês de Fronteira. À noite o pai ia buscá-las e regressavam à casa de Benfica, até os pais se separarem.

Falamos da crise em que o país mergulhou e nas manifestações que enchem as ruas de norte a sul. No antes e no depois do 25 de Abril. No espelho Maria Teresa Horta desdobra-se na iluminista Leonor. Nos movimentos estudantis e na parca presença feminina nesses protestos antes de 1974, ao contrário do que hoje acontece: "O que me enche de orgulho agora é a capacidade que o povo, todos os portugueses, têm de dizer que não! E as mulheres nas ruas é o que mais gosto de ver. Lava a alma ver as pessoas a manifestarem a sua liberdade. Valeu a pena."

Não sabemos se a escritora já recebeu o prémio Dom Dinis pelo correio.