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Viagem ao interior da Maçonaria

9 maio 2009 9:00

Isabel Lopes (texto) e Ana Baião (fotos)

A Maçonaria é uma sociedade secreta? Os maçons respondem que a instituição secular é apenas discreta. Leia a reportagem e veja a fotogaleria no fim do texto.

9 maio 2009 9:00

Isabel Lopes (texto) e Ana Baião (fotos)

A sala de reuniões foi rapidamente transformada. Cadeiras colocadas rente às paredes, o chão coberto com um linóleo a imitar pavimento em mosaico de quadrados pretos e brancos, e sobre este colocados vários objectos, como uma pedra e um cinzel. A campainha tocou várias vezes à medida que os irmãos e irmãs iam chegando. Por último, colocaram aventais, todos brancos, e sentaram-se em posições pré-definidas. A sessão nesta antecâmara maçónica ia começar. Durante as duas horas seguintes, todos viveram convictamente os seus papéis, aparentemente imunes à incredulidade e perplexidade que os profanos (os não maçons) podem experimentar face a certos rituais. O local, num primeiro andar de escritórios de uma das Avenidas Novas, em Lisboa, era agora, explicaram-nos, uma caverna. E as profissões do mundo real - empresário, professora, informático, médica, actor... - haviam dado lugar a um irmão mais velho, um guia, três candeias...

1ª Candeia Sabes onde entraste?

Candidato Numa Caverna no interior da Terra.

2ª Candeia O que te traz aqui?

Candidato Desejo de aperfeiçoamento interior.

3ª Candeia Explica-te melhor.

Candidato Quero saber quem sou e dar um sentido à luta pela vida.

1ª Candeia Como te propões fazê-lo?

Candidato Pelo estudo, pela partilha e pela solidariedade.

1ª Candeia Sozinho?

Candidato Quero integrar-me numa sociedade de Pessoas com os mesmos desejos, sozinho nada se consegue. (...)

1ª Candeia Desejas ser admitido entre nós?

Candidato Será meu privilégio e honra.

1ª Candeia Aceitas cobrir com o manto da discrição e do silêncio os trabalhos que aqui se realizam?

Candidato Sim, aceito e a tal me comprometo.

1ª Candeia De pé meus Irmãos e em sinal de paz. Aceitam este Candidato no majestoso Atrium da Maçonaria Universal?

Todos Sim, as suas intenções são puras.

1ª Candeia Foste aceite, és a partir de agora um Cortador de Pedra e estás integrado na grande Obra de construção do Templo Universal da Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

O Grão-Mestre discursa em sessão branca: sem luvas e com os quadros virados, mas mantendo o restante ritual

O Grão-Mestre discursa em sessão branca: sem luvas e com os quadros virados, mas mantendo o restante ritual

As restantes obediências que contactámos - a mais antiga no nosso país, o Grande Oriente Lusitano (GOL), aquela de onde nasceu a GLTP, a Grande Loja Legal de Portugal (GLLP/GLRP), e a única feminina, a Grande Loja Feminina de Portugal (GLFP) - recusaram participar nesta reportagem após saberem que esta incluía a GLTP. "Queremos desmistificar a Maçonaria e isso assusta", responde o Grão-Mestre da GLTP, Mário Parra da Silva, à acusação suprema de que a GLTP tem revelado o segredo maçónico.

O pagamento do salário com sal

O pagamento do salário com sal

Nada identifica o local da reunião a não ser o número da porta. Dista alguns quarteirões do espaço onde, dias antes, havíamos assistido ao Atrium. No piso -2 e último do edifício, as escadas terminam num pequeno patamar com uma única porta. É impossível adivinhar que atravessado um pequeno hall e uma sala média - onde se acumulam casacos e as pequenas pastas pretas para transportar a indumentária maçónica, aventais, luvas, colares... - se vai desembocar no Templo principal da GLTP.

Os cortinados negros, a profusão de símbolos maçónicos, o grande número de velas acesas, a música em fundo e as dezenas de homens e mulheres vestidos de negro e branco, onde contrastam aventais, colares e faixas coloridas, não deixam de provocar impacto em olhos profanos. A linguagem gestual acentua uma certa dimensão supra-real: a forma como os maçons se sentam (corpo em ângulo recto, sem cruzar as pernas, mãos pousadas sobre estas), como aplaudem (batendo com a mão direita na perna direita) ou se levantam em sinal de paz para receber os profanos; ou as regras estritas de toda a movimentação no Templo, sempre com a condução de dois Grandes Mestres de Cerimónias - também as jornalistas do Expresso foram por eles levadas aos seus lugares.

A nossa presença é formalmente anunciada. Antes de entrarmos na sala, tinha havido uma divisão da plateia entre quem não se importava de assumir para a reportagem a sua condição de maçon e quem optava por não fazê-lo. Apesar disso, foi visível o incómodo de muitos sempre que julgaram estar na mira da máquina fotográfica, havendo quem chegasse a esconder o rosto com a mão. Uma atitude genericamente justificada com o peso da herança histórica, designadamente da clandestinidade durante o regime fascista, e o receio de serem prejudicados por pertencerem a uma potência maçónica.

Uma opção respeitada mas que não faz sentido para outros maçons, como Luís Panao, um informático de 54 anos, e uma das raríssimas pessoas (tanto quanto sabe só há mais uma) a ter-se candidatado à admissão na GLTP através da Internet. Foi iniciado há um ano e é recém-chegado ao grau de Mestre. "Na minha vida mando eu e não tenho nada a esconder a ninguém. Sou maçon como há outros que são católicos ou protestantes e também se assumem."

O segundo maçon mais jovem da GLTP, e durante muito tempo o benjamim, Rafael Martins, estudante universitário de 21 anos, assume ter pensado bastante antes de decidir se dava a cara nesta reportagem. Receia que ao saberem-no maçon se altere, para o bem e para o mal, a imagem que têm de si. Acabou por decidir que valia a pena correr o risco.

"Quero, no fundo, pôr as pessoas que me conhecem a pensar sobre o que será, afinal, a Maçonaria." Iniciado há dois anos e também com o grau de Mestre, Rafael chegou à GLTP através da amizade do irmão mais novo com o filho do casal maçon Olinda e Pedro Pinto. Hoje, está com Olinda e também Luís Panao na Excalibur, uma das lojas fundadoras da GLTP. A existência de mulheres nesta ordem foi determinante para Rafael e Luís entrarem na GLTP.

A Vice-Grã-Mestre Olinda Pinto, 49 anos, professora há 25, está na GLTP desde o início, em 2004. Mas durante anos assistiu de fora à Maçonaria, quando acompanhava o marido (actual Venerável da Loja Brasília, também fundadora da GLTP) a alguns jantares da GLLP/GLRP, que incluíam "as esposas". Ir para uma obediência exclusivamente feminina não lhe agradava. "Não me fazia qualquer sentido trabalhar com homens na vida profana e na Maçonaria estar só com mulheres", revela. Quando surgiu o projecto da nova ordem assumiu-o de corpo e alma. "Houve épocas em que a Maçonaria tinha razão em ser mais secreta do que discreta porque era a vida das pessoas que estava em causa. Hoje em dia já não é assim. Acredito no que faço e na organização em que estou. Porque haveria de ser penalizada por ser maçon? Estou num país livre e democrático."

"Uma abordagem nova a tudo" é como Mário Parra da Silva define a actuação da GLTP e justifica a "alergia" que esta tem provocado no mundo maçónico português. Com 57 anos, empresário, católico convicto, o Grão-Mestre da GLTP foi iniciado na Grande Loja Regular de Portugal (GLRP) em 1994 e seguiu o então Grão-Mestre Nandim de Carvalho aquando da controversa cisão de 1996 (ver infografia). Com ele, fundou a Grande Loja Legal de Portugal, onde chegou ao cargo de Vice-Grão-Mestre, tendo depois decidido criar a GLTP como uma "terceira via às correntes liberal e regular".

À cabeça dessa abordagem inovadora, surge a decisão da GLTP abrir as suas portas ao mundo profano, mostrando décors, trajes e até rituais; seguem-se, diz Parra da Silva, o relacionamento normal e despreconceituado com outras forças sociais, nomeadamente as religiões, ou com temas tradicionalmente incómodos na Maçonaria como a questão da igualdade do género - aspecto em que a GLTP considera ter dado um salto qualitativo ao nem sequer se assumir como uma Grande Loja Mista, mas sim de Pessoas. A possibilidade das candidaturas serem feitas através do sítio na Internet da ordem também não é bem visto. Como pano de fundo, esta potência tem, sublinha o Grão-Mestre, uma "inovadora legislação de separação de poderes, que gera muitas preocupações nas outras obediências maçónicas".

A rejeição da GLTP é total. De tal modo que da parte das outras obediências maçónicas que abordámos para este trabalho não obtivemos mais do que lacónicas justificações para a recusa.

Do Grão-Mestre do GOL, António Reis, foram parcas mas duras as palavras sobre a GLTP em declarações ao Expresso: "A Grande Loja Tradicional de Portugal é uma falsa obediência maçónica que não respeita os requisitos mínimos constitutivos de uma obediência maçónica e que nós não reconhecemos como tal. Não passa de um clube de amigos." No seu gabinete no Palácio Maçónico, ao Bairro Alto, Reis encerrava assim, ainda antes de começar, a participação neste trabalho do Expresso.

Feliciana Ferreira, Grã-Mestre da GLFP, demorou vários dias a responder, alegando querer ponderar o convite, para, finalmente, alegar que o momento e a temática do género na Maçonaria não eram interessantes. A GLLP/GLRP, através do seu Grande Correio-Mor, Rui Bandeira, começou por aceitar falar com o Expresso, marcando data e local, mas no dia seguinte recuou argumentando não estar disponível para "alimentar tricas".

Parra da Silva acusa os irmãos de prestarem um mau serviço à Maçonaria ao andarem sempre desavindos, "perdendo tempo a discutir quem é maçon e quem não é. É por isso que a Maçonaria em Portugal está como está: sem força". "A Maçonaria tem de ser uma organização integrada no Estado democrático e não semiclandestina, ocultando uma série de coisas. O povo português tem o direito de saber como funciona uma Loja maçónica. Se me disserem que assim não sou maçon, então não sou maçon", desafia.

A verdade é que as ondas de choque da participação da GLTP em duas reportagens televisivas, entre 2007 e 2008, chegam até aos dias de hoje

"Tudo o que mostramos já foi visto muitas vezes noutras partes do mundo, bastando ir ao YouTube para ver. Destina-se a dar ao público a noção de que a Maçonaria é uma organização normal, legal e decente", argumenta Parra da Silva, exemplificando com uma iniciativa do Grande Oriente de Itália que já realizou uma sessão de loja na pista de um pavilhão gimnodesportivo com público profano nas bancadas. Outra coisa, frisa, é a revelação do conteúdo dos trabalhos maçónicos, pois tal pertence à esfera de intimidade de qualquer organização. "Nunca estaremos de maneira nenhuma disponíveis para isso." E conclui: "O segredo maçónico é puramente esotérico, é um novo estado de consciência que se desenvolve no interior do indivíduo. Perante a pergunta do aprendiz 'o que se faz aqui?', a única coisa que um mestre com anos de trabalho responde é 'faz o teu caminho e vais descobrir'. Isto é o segredo maçónico."

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A Maçonaria é discreta e não secreta, dizem os maçons
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A Maçonaria é discreta e não secreta, dizem os maçons

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Para se entrar num templo maçónico é necessário ser-se convidado
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Para se entrar num templo maçónico é necessário ser-se convidado

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As luvas brancas fazem parte da indumentária maçónica
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As luvas brancas fazem parte da indumentária maçónica

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Se a sessão for "branca", isto é, aberta a profanos (não maçons), não se colocam as luvas
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Se a sessão for "branca", isto é, aberta a profanos (não maçons), não se colocam as luvas

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A Grande Loja Tradicional de Portugal (GLTP) é uma jurisdição mista, tendo um Grão-Mestre (em pé) e uma vice-Grã-Mestre
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A Grande Loja Tradicional de Portugal (GLTP) é uma jurisdição mista, tendo um Grão-Mestre (em pé) e uma vice-Grã-Mestre

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O colar é uma das insígnias maçónicas; este é de Grão-Mestre e indica o grau atingido (o 32.º e penúltimo do rito escocês antigo e aceite)
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O colar é uma das insígnias maçónicas; este é de Grão-Mestre e indica o grau atingido (o 32.º e penúltimo do rito escocês antigo e aceite)

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Tudo obedece a regras e rituais - para pedir a palavra, o maçon levanta o braço e aguarda que lhe seja concedida
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Tudo obedece a regras e rituais - para pedir a palavra, o maçon levanta o braço e aguarda que lhe seja concedida

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A admissão à GLTP implica a passagem pelo Atrium, uma instituição pré-maçónica única no mundo
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A admissão à GLTP implica a passagem pelo Atrium, uma instituição pré-maçónica única no mundo

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O sinal de paz faz-se pousando a mão direita sobre o coração
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O sinal de paz faz-se pousando a mão direita sobre o coração

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O avental é o símbolo do trabalho maçónico; no Atrium são todos brancos e cobrem a zona do peito
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O avental é o símbolo do trabalho maçónico; no Atrium são todos brancos e cobrem a zona do peito

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No Atrium, vive-se a alegoria de se estar numa caverna, que tem um guardião
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No Atrium, vive-se a alegoria de se estar numa caverna, que tem um guardião

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As sessões terminam com a cadeia de união - se for "branca", mãos e braços entrelaçam-se de forma diferente
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As sessões terminam com a cadeia de união - se for "branca", mãos e braços entrelaçam-se de forma diferente

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Texto publicado na Revista Única da edição do Expresso de 9 de Maio de 2009