Longevidade

Quanto vale o negócio da ‘economia prateada’

28 outubro 2022 14:47

André Rito

André Rito

Jornalista

Sara Tarita

Sara Tarita

Ilustradora

ilustração sara tarita

Investimento: com 700 milhões de pessoas em todo o mundo com mais de 65 anos, as oportunidades de negócio da longevidade são incontáveis. Já é um negócio do futuro

28 outubro 2022 14:47

André Rito

André Rito

Jornalista

Sara Tarita

Sara Tarita

Ilustradora

Saúde, bem-estar e habitação sénior. Estes são os três pilares do investimento na chamada ‘economia prateada’, que abrange uma larga fatia da população portuguesa mas também mundial. Com a transição demográfica — o mundo está a envelhecer —, as empresas apontam agulhas para negócios focados na terceira idade. A saúde ocupa uma importante fatia da inovação associada ao envelhecimento.

Mas o negócio da longevidade é mais do que a soma das partes: a AARP (Associação Americana de Pessoas Reformadas, na tradução livre) estima que a economia da longevidade valha algo como €9 mil milhões, esperando-se que em 2050 atinja os €30 mil milhões.

Os números não espantam o professor da Faculdade de Economia do Porto (FEP) Eduardo Oliveira, que dá nota de um primeiro investimento nesta área, em turismo, em Portugal. “Foi por aqui que começaram os primeiros investimentos na longevidade. E não estou a falar de turismo de saúde, mas do turismo vocacionado para a terceira idade”, ressalva. “Quanto ao investimento na qualidade de vida dos seniores, sobre como tornar as cidades mais amigáveis da mobilidade reduzida, tenho dúvidas. Ainda assim, julgo que estamos no caminho certo.”

Aproveitar oportunidades

Um pouco por todo o mundo — e sobretudo nos países mais envelhecidos —, a longevidade tem vindo a conquistar a economia e oferece perspetivas futuras diferentes para solucionar os problemas associados ao envelhecimento nas mais variadas áreas. O fenómeno é atualmente encarado mais como uma oportunidade e um desafio do que como uma fatalidade. Porque, se a idade é apenas um número, os negócios que a transição demográfica proporciona estão a captar a atenção de Governos, associações civis e empresas de diferentes ramos, como a tecnologia, a inovação, a saúde, os transportes, a habitação, aproveitando as possibilidades que florescem em todo o globo.

Rodney Kelly, conselheiro-geral na Eastern Academic Health Science Network (organização que junta a academia, cidadãos, serviços de ­saúde e indústria), é o coordenador de um projeto chamado ageing 2.0 e, simultanea­mente, conselheiro da Universidade de Cambridge para a longevidade. E sublinha o conhecimento que se tem alcançado nos últimos anos: “A nossa organização trabalha na descoberta de soluções e inovação nos cuidados de saúde. A longevidade é o nosso foco”, disse o investigador ao Expresso, acrescentando que “o trabalho cobre todo o Reino Unido. Fornecemos ideias e soluções para o nosso sistema de saúde, que, tal como o português, é estatal”.

E é precisamente uma melhor articulação entre Governos, academia e indústria que, segundo Kelly, marcará a diferença entre uma economia robusta pensada para o envelhecimento ativo e as economias tradicionais, menos desenvolvidas e menos despertas para as alterações demográficas. O problema, diz o investigador, é que os “Governos duram pouco tempo”, quando estes investimentos devem ser pensados sobretudo a longo prazo. “Os investidores percebem que não há glória na prevenção, e desenhar soluções de longo prazo não tem resultado porque os Governos têm pela frente um horizonte temporal de quatro anos.”

Onde é, então, preciso investir? Margaretta Colangelo, uma das primeiras mulheres a chegar a Silicon Valley, nos EUA, coloca as fichas todas na inteligência artificial (IA). “Nos anos 80 e 90 trabalhávamos em finanças, software e tecnologia, porque era o que estava a vender melhor na altura. Mas durante esse tempo pensámos sempre em desenvolver alguma tecnologia que pudesse ajudar-nos a ser mais saudáveis. Na altura tínhamos 25 anos — agora tenho 56 — e todos quisemos desenvolver tecnologia original para diagnosticar e prever doenças com anos de avanço”, diz a investigadora, explicando que a longevidade “deve ser pensada desde cedo”.

Um dos exemplos mais conhecidos — e que aguarda aprovação das autoridades de saúde dos EUA — é um sutiã inteligente capaz de diagnosticar o cancro da mama através de IA. Trata-se de uma espécie de scanner que permite a captação de imagens de ultrassom sem a necessidade de um operador desta tecnologia para detetar células cancerígenas. “Muitas empresas de tecnologia perceberam que havia aqui uma oportunidade para os radiologistas, por exemplo, serem muito mais eficazes nos seus exames. Se um radiologista tem 10 mil radiografias para ver, com um sistema de IA poderia fazer isso em minutos.”

O caso português

Com mais de 700 milhões de pessoas com mais de 65 anos em todo o mundo, a longevidade poderá representar a base de uma nova economia, voca­cionada para os cuidados de saúde e proporcionada pela inovação. Até porque, tal como defendem os espe­cialistas, “é preciso tirar partido do facto de as pessoas estarem a viver mais tempo”. Fará sentido falar num cluster que junte empresas e academia no desenvolvimento de soluções de saúde para a ‘economia grisalha’? Para Eduardo Oliveira essa será uma das soluções. “Em vez de termos ações atomizadas, será importante ter uma estratégia integrada com o turismo, a saúde, o ambiente comunitário, porque estes serão também fatores de inclusão.”

Parte da tecnologia que tem sido desenvolvida em Portugal conta com o apoio da Agência Portuguesa da Inovação. Várias startups portuguesas estão a desenvolver tecnologias na área da saúde e da longevidade: novos métodos de deteção de doenças, avaliação da fragilidade dos idosos e laboratórios que promovem o envelhecimento saudável.

Mas as iniciativas também nos chegam da sociedade civil. É o caso da Rede Repensa, que une vários municípios de norte a sul do país e ilhas para unir esforços e desenvolver ações de envelhecimento ativo. Os projetos estão já no terreno — no Porto, Coimbra, Viseu, Loulé e Lisboa —, mas há ainda um longo caminho a percorrer. “Precisamos de uma vaga de fundo, de políticas e legislação. Não podemos ficar por iniciativas que depois não têm tração suficiente.”

P&R

Por que razão a longevidade é um negócio do futuro?

Com o envelhecimento da população mundial, a economia, os serviços e as empresas estão a crescer em torno deste fenómeno. O impacto destes consumidores é relevante: nos EUA, por exemplo, esta faixa etária representa 20,5% do PIB, enquanto na China o valor atinge os 13,4%. Segue-se o Japão (5%), a Alemanha (4%) e o Reino Unido (2,8%).

Quais são as áreas de investimento com maior potencial?

Praticamente todos os sectores de atividade serão impactados pela longevidade da população mundial. Há, no entanto, áreas mais críticas: os cuidados de saúde, as seguradoras, os serviços financeiros e a tecnologia são das que mais investimento têm recebido.

O envelhecimento pode ser uma oportunidade?

Os especialistas chamam-lhe até “indústrias de oportunidade”. Existe um enorme potencial de negócio nos mercados e ideias dedicadas às faixas etárias acima dos 50 anos. Mas para isso são precisas novas estratégias, novas políticas e uma nova visão sobre os negócios.

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Textos originalmente publicados no Expresso de 28 de outubro de 2022