Longevidade

Longevidade: o caso de estudo da Madeira

7 setembro 2022 14:33

André Rito

André Rito

Jornalista

Sara Tarita

Sara Tarita

Ilustradora

A região autónoma criou um gabinete público para dar resposta aos desafios demográficos da longevidade e do envelhecimento saudável. É um caso único em Portugal e na Europa: nos próximos três anos vão ser lançados concursos públicos na área da saúde no valor de €54 milhões

7 setembro 2022 14:33

André Rito

André Rito

Jornalista

Sara Tarita

Sara Tarita

Ilustradora

Lançada há menos de um ano, a Direção Regional de Políticas Integradas de Longevidade (DRPIL) é o primeiro organismo governamental português - e europeu - que se dedica exclusivamente aos desafios da longevidade e do envelhecimento.Em 2019, sentimos uma forte necessidade de requalificar os cuidados de longa duração. Era preciso otimizar o sistema de saúde e adaptarmo-nos às necessidades dos nossos seniores”, afirma ao Expresso Ana Clara Silva, diretora do projeto, referindo que foi durante a pandemia que o plano começou a ser posto em prática. “Os lares, tal como estão pensados, governados e legislados, não respondem as necessidades de cuidados de longa duração.”

Embora a ideia seja, sobretudo, implementar medidas a nível regional, a diretora do DRPIL refere que, “do ponto de vista da oportunidade, a região está aberta a um maior diálogo com o governo central”. O objetivo passa por procurar um modelo nacional, tal como defendeu no último congresso ibérico da economia prateada. “Em Espanha existem algumas políticas eficazes de boas práticas nesta área. Quem sabe poderemos ter num futuro próximo uma politica ibérica”, diz a coordenadora, lembrando que entre os Censos 2011 e 2021 “assistimos a um crescimento de 25% da população com mais de 65 anos”.

De um ponto de vista prático, o organismo, criado em agosto do ano passado, materializa-se em cerca de 400 camas disponíveis, asseguradas pelo sector social e privado. Com um custo diário na ordem dos €74, prevê-se que o número chegue às 731 camas, entre espaços requalificados e outros construídos de raiz. O investimento decorrerá também do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), para cuidados continuados de curta, média e longa duração. As equipas – que farão também trabalho de apoio domiciliário – serão compostas por enfermeiros de reabilitação, fisioterapia, e técnicos de medicina física e de reabilitação. O objetivo primordial é o regresso dos pacientes seniores a casa.

Com uma forte componente de turismo sénior, a Madeira pretende também tornar-se um destino de saúde para os mais idosos, oferecendo soluções que complementem estas duas áreas – turismo e saúde. A coordenadora define o tema como “longevidade positiva” do ponto de vista económico. “Verificamos disponibilidade dos seniores para viajar, com uma grande procura a partir dos 50. Uma apetência maior dos mais longevos para se instalarem em destinos calmos. E a Madeira tem o perfil certo para ser um polo atrativo nesse contexto, não apenas geográfico, como do clima, tranquilidade, natureza e espaços verdes. Nesse sentido, queremos criar as condições económicas para tirar maior partido da nossa localização e características”.

Investimento de €54 milhões

Apesar de ter sido recentemente criada, a Direção Regional de Políticas Integradas de Longevidade já tinha dado os primeiros passos entre 2009 e 2013, através do Plano Gerontológico da Madeira. Uma iniciativa que correspondia às orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS), que estabeleceu o envelhecimento saudável e a longevidade como uma prioridade para a década 2020 – 2030. Criados os mecanismos de governação e legislativos, a Madeira assume-se assim como o primeiro organismo público português a debater e pôr em prática soluções para a longevidade e envelhecimento saudável. Um exemplo que poderá vir a ser seguido pelo Governo central.

“Queremos replicar este modelo para o contexto nacional, aproveitando ao máximo o nosso laboratório regional, apostando também em parcerias. Somos um bom exemplo de estratégia regional que poderá ser replicado, como acontece no Japão e na Nova Zelândia, através da partilha da nossa experiência.”

Exemplo disso foi o recente anúncio de um investimento de €54 milhões na rede de cuidados continuados, no âmbito do PRR, para os próximos três anos, que permitirá duplicar a atual capacidade de camas. O decreto já entrou em vigor: “vamos pôr a concurso as camas que já estão contratualizadas e que precisam de ser requalificadas - cerca de 268 de longa duração e manutenção -, 280 novas camas, 63 de convalescença e 120 de média duração e reabilitação”, disse a coordenadora do projeto. Serão ainda integradas mais duas tipologias: a pediatria (12 camas de cuidados continuados e pediátricos) e 331 lugares de saúde mental e psiquiatria. Através de um regime de contratação com entidades públicas e privadas, os primeiros concursos deverão abrir no início do próximo ano.

Região age friendly

Para criar as condições necessárias de modo a que a Região Autónoma da Madeira se converta numa região age friendly, defende a coordenadora, “é necessário dar importância ao planeamento estratégico antecipado, que assegure a ilha como uma sociedade para todas as idades, que promove o bem-estar e valoriza as contribuições das pessoas mais velhas em todos os aspetos da vida comum”.

“Temos de pensar na longevidade aos 50 não aos 80. Temos de modificar a lógica de seguros de saúde que não cobrem esta longevidade. Se existe um esgotamento da resposta pública, há pessoas que querem fazer outro tipo de escolha de cuidados de longa duração, e não existe um seguro deste tipo de cuidados. E essa é outra modificação que temos de começar a fazer, assim como promover a literacia de poupança, numa lógica de proteção do ponto de vista financeiro.”