Longevidade

Empresas ainda apostam pouco na longevidade

29 julho 2022 10:34

André Rito

André Rito

Jornalista

Sara Tarita

Sara Tarita

Ilustradora

sara tarita

Reformas: Planos Poupança Reforma, seguros de capitalização e outros são sobretudo prática nas multinacionais. É preciso melhores soluções para evitar a perda de rendimentos

29 julho 2022 10:34

André Rito

André Rito

Jornalista

Sara Tarita

Sara Tarita

Ilustradora

O projeto chama-se Later Life Work Index [Índice dos postos de trabalho na vida adulta]. Partindo das alterações demográficas — e articulado entre universidades e a Comissão Europeia —, o objetivo é definir práticas inclusivas da idade e condições de trabalho para o emprego nas organizações. “Usando esta ferramenta, o que se verifica é que as empresas portuguesas, públicas ou privadas, precisam de preparar melhor a reforma dos seus funcionários do ponto de vista financeiro”, disse Eduardo Oliveira, membro da organização e professor na Faculdade de Economia da Universidade do Porto.

Os números são reveladores: estima-se que, a médio prazo, as nossas taxas de substituição (a diferença entre o valor do último salário e o da primeira pensão) sejam de 50%. Significa que a maioria dos novos pensio­nistas vai perder metade dos seus rendimentos a partir dos 66 anos. Daí a importância que o envolvimento das empresas terá na mudança deste cenário. “É preciso melhorar políticas de recursos humanos neste sentido, porque o problema é transversal: sejam grandes ou pequenas empresas, dos diferentes sectores de atividade, todas sofrem desta lacuna de não preparar a longevidade financeira e equilibrá-la com a transição demográfica”, explicou.

Portugal nunca teve taxas de poupança elevadas, fruto dos salários baixos e da dificuldade das famílias em criarem aforro. Prova disso são os dados divulgados pelo Eurostat, esta semana, que revelam que o nosso país teve a terceira maior queda da poupança na Europa. A taxa de poupança recuou em sete Estados-membros, tendo as maiores sido registadas na Áustria (-5,2%), em Espanha (-2,1%) e em Portugal (-1,4 %).

Parte destes dados explica-se pela dificuldade de as organizações implementarem políticas efetivas de recursos humanos com vista à longevidade financeira. Se a realidade demográfica nos mostra que vamos viver mais anos, também deixa evidente que poucas são as famílias preparadas para financiar esse tempo de vida, para o qual não estavam preparados.“Quando olhamos para os dados da constituição de planos poupança reforma (PPR) que permitem aos trabalhadores começarem a aforrar, percebemos que a existência destes fundos de pensões tem uma durabilidade diminuta”, disse o ex-ministro do Trabalho e Segurança Social Pedro Mota Soares. “É muito importante que as pessoas e as organizações pensem no longo prazo, para que o choque no futuro seja menor.”

O economista formado pelo ISEG Abílio Sousa acrescenta que “estes produtos estão longe de se encontrarem generalizados”. “Na área da nossa assessoria fiscal conseguimos avaliar que este tipo de benefícios está mais instituído em grandes empresas. As pequenas ainda não estão vocacionadas, apostam mais em serviços de saúde, mas os benefícios da poupança são menores.”

Existem exceções, organizações que disponibilizam aos seus colaboradores diferentes produtos ou serviços que permitem retirar uma pequena percentagem dos seus salários para acautelar o futuro, quando a idade da reforma chegar. É o caso da Navigator, uma das principais cotadas no PSI20.

Multinacionais e grandes empresas com planos

“Atualmente, todas as empresas do grupo Navigator são associadas de um plano de contribuição definido que abrange a totalidade dos seus cerca de três mil trabalhadores em Portugal”, disse ao Expresso fonte oficial da Navigator. “Estes planos permitem que, para além das contribuições da empresa, os colaboradores façam também as suas próprias contribuições para o fundo. Essas contribuições mensais podem ir até 10% do seu salário pensionável, podendo ainda efetuar anualmente uma contribuição extraordinária de montante não superior a um salário pensionável.”

Questionado sobre a adesão dos colaboradores, em 2021 foram 476 os que fizeram estas contribuições adicionais, com o valor total aproximado de €204 mil. Anualmente, as pensões pagas pelos fundos da empresa a ex-funcionários ascendem a cerca de €6 milhões e os montantes dos fundos de pensões disponíveis equivalem atualmente a cerca de €200 milhões.

Outro exemplo é o do grupo EDP, que atribui a todos os colaboradores, em todos os mercados em que se encontra presente, um conjunto de benefícios alinhados com as suas necessidades de poupança e do seu agregado familiar, nomeadamente planos complementares de reforma. “Estes planos são um incentivo à poupança e remetem o seu benefício para um perío­do específico da vida do colaborador. A adesão é elevada, mas diferenciada nos diversos mercados. Coexistem modelos de adesão facultativa e modelos de adesão que resultam diretamente do acordo coletivo de trabalho.”

Para combater as dificuldades financeiras dos trabalhadores que são confrontados com perdas de rendimento elevadas quando passam à situação de reforma, o Observatório Nacional do Envelhecimento está a trabalhar com o Governo para encontrar soluções, algumas inspiradas em modelos internacionais com provas dadas: uma delas passa por começar a reduzir a carga horária de trabalho depois da idade da reforma. Ou seja, mantendo o colaborador na organização mas reduzindo progressivamente o número de horas de trabalho semanal.

Reforma progressiva

“Os descontos serão os mesmos e não existirão quebras de rendimento. Trata-se de uma passagem gradual à reforma. Não há perda de vencimento, porque a Segurança Social passa a pagar o diferencial entre o horário completo e o executado em part-time”, explica Nuno Marques, diretor do Observatório Nacional do Envelhecimento. Quanto à sustentabilidade, “também não fica posta em causa, porque os colaboradores acabam por trabalhar durante mais anos. E isto pode ser feito no sector público ou através de PPR proporcionados pelas próprias empresas.”

Ao mesmo tempo, acrescenta Nuno Marques, as vantagens para as empresas são significativas: não existe perda de potencial — o know-how dos trabalhadores mais velhos —, que será passado para os mais jovens. “Esta é a visão que temos em termos de longevidade financeira e que pode levar a uma melhoria da qualidade de vida sem quebra de rendimentos e sem pôr em causa a sustentabilidade da Segurança Social, porque podem ser as empresas a suportar tudo isto.” Ao mesmo tempo, elucida, as pró­prias organizações percebem que não terão quebras de produção, porque mantêm o saber dos seus funcioná­rios mais antigos. “Esta é uma proposta do Observatório e da Rede Repensa que teve muito boa aceitação e está no atual programa do Governo.”

P&R

Como é que as empresas podem ajudar os trabalhadores a poupar?

Algumas empresas portuguesas disponibilizam aos colaboradores fundos de pensões, seguros de capitalização, planos de poupança reforma, entre outras soluções.

Quais as vantagens de aderir a estes programas?

Os benefícios fiscais que permitem na hora do resgate: uma redução no IRS (porque são considerados rendimentos) e o facto de sobre este montante não incidir qualquer taxa da Segurança Social.

As empresas também recebem benefícios?

Sim. Além de poderem descontar o IRC correspondente à despesa do chamado “PPR do Estado”, as empresas que pagam estes certificados de reforma beneficiam também de uma majoração de 20% no Imposto sobre o Rendimento de Pessoas Coletivas.

Best of dos textos de longevidade no site

sara tarita

Inovação na saúde

Várias startups portuguesas estão a desenvolver tecnologias ligadas à saúde na longevidade, como novos métodos de deteção de doenças ou avaliação da fragilidade dos idosos.

sara tarita

Jovens adultos em casa dos pais

Portugal é atualmente o quinto país da União Europeia onde os filhos saem mais tarde da casa dos pais. Motivos: habitação cara, fracos rendimentos e maior dependência.

Risco de queda aumenta com idade

Todos os anos morrem em todo o mundo 684 mil pessoas vítimas de quedas. Em Portugal, as quedas representam 88% das lesões em pessoas com mais de 65 anos.

Acompanhe tudo AQUI

Longevidade

Vamos viver mais anos. Que avanços na saúde podem marcar as próximas décadas? Qual o impacto do envelhecimento nas nossas poupanças, nas cidades, na nossa vida social? Em 2022, o Expresso lança um projeto sobre este novo desafio, com o apoio da Fidelidade e da Novartis.

Textos originalmente publicados no Expresso de 29 de julho de 2022