Legislativas 2019

Santana assume 'mea culpa' na derrota, mas está disponível para continuar

7 outubro 2019 2:41

tiago petinga/lusa

Assumindo a responsabilidade na derrota eleitoral do Aliança, Pedro Santana Lopes diz sentir-se com “energia” e “motivação” para continuar a liderar o partido se os “militantes assim o entenderem” e já tem os olhos postos nas autárquicas. “Já passou, já passou”, exclama o líder no final do discurso, sob o forte aplauso dos apoiantes que não tiveram motivos desta vez para festejar mas que não deixaram de beber um copo... talvez para afogar as mágoas

7 outubro 2019 2:41

À porta do quartel-general do partido Aliança, no n.º49 da Avenida da República, em Lisboa, o movimento é grande. No quiosque que serve bebidas, pizzas e bifanas, concentram-se por volta das 21h vários militantes e apoiantes que aguardam os resultados finais das eleições legislativas. Mas quando se entra na sala, do segundo andar do edifício, o clima é de desânimo geral face ao resultado das primeiras projeções televisivas que já davam conta da não eleição de um único deputado. O silêncio impera entre as cerca de três dezenas de apoiantes que se encontram na sala. Do líder do partido nem um sinal.

À medida que chegam mais pessoas, os corredores enchem-se de gente que ora vai comentando as projeções ou traz uma bebida à espera que o relógio avance. Há ainda tempo para selfies junto do painel que está colocado à entrada com o lema “Das pessoas para as pessoas” – para desanuviar o ambiente.

Mas assim que Assunção Cristas começa a falar, os apoiantes do Aliança fixam os olhos no grande ecrã que se encontra na sala para acompanhar o discurso da líder centrista e os comentários não demoram a chegar: “Se ela não fosse burra e tivesse dito que sim ao convite de Santana Lopes para avançarem com uma coligação ela não saía pela porta pequena”, afirma um apoiante. “Este é o resultado que ela merece”, responde outro. “E o André Ventura sempre tem hipóteses na Assembleia da República? Ao ponto que este país chegou!”, queixa-se ainda outro apoiante do Aliança estupefacto.

“Em democracia não há justiça, há votos”

Quase uma hora mais tarde, Santana Lopes surge finalmente na sala com um tímido sorriso na cara. Então e o resto do mundo? Há televisão aqui ou não?”, questiona o líder da Aliança, que prometeu acompanhar ali o resto das projeções.

Pouco depois, o líder da Aliança comprometeu-se a falar aos jornalistas e à hora marcada começou a sua declaração a felicitar a vitória eleitoral do PS e de António Costa, mas não deixou também de aplaudir o facto de novos partidos conseguirem representação parlamentar. “A democracia precisa de todos. Em democracia não há justiça, há votos”, sustentou.

Reconhecendo a derrota, embora o Aliança não seja “um projeto de um homem só, de uma só pessoa, mas um projeto coletivo”, Santana Lopes sublinhou que o partido irá avaliar os resultados no próximo sábado numa reunião do Senado. “De facto correu mal, as coisas não correram como esperávamos. Assumimos uma derrota política na medida em que não conseguimos representação parlamentar. A responsabilidade principal é minha. Mas no sábado avaliaremos em conjunto”, declarou Santana, sob fortes aplausos, criticando aqueles que não assumem derrotas em noite de eleições.

Santana Lopes defendeu também que a recuperação do PSD penalizou o resultado da Aliança, voltando a criticar também a falta de representatividade dos novos partidos nos debates. “Parece que o PSD melhorou desde o debate entre Rio e Costa. Se tivéssemos participado nesse debate, talvez conseguíssemos outro resultado”, observou.

Demissão de Assunção “teve um sabor a muita injustiça”

O líder do Aliança lamentou ainda a demissão de Assunção Cristas da liderança do CDS, considerando que “teve um sabor a muita injustiça”, uma vez que a líder centrista combateu com determinação no Parlamento. “Mas a vida é assim”, exclamou, sob uma nova chuva de aplausos. Santana garantiu que tomaria a mesma decisão de Assunção Cristas se o “Aliança fosse um partido como o CDS com 40 anos”.

Mas como não é, e só tem praticamente um ano, “a atitude correta, digna e decente” é os militantes discutirem os resultados no próximo sábado. “Estou ao dispor para ficar ou sair. Sinto-me com energia e motivação para continuar”, assegurou, acrescentando que esta derrota “já passou” e que está empenhado para as eleições autárquicas em 2021.

“Só à quarta-eleição é que o partido Ciudadanos em Espanha conseguiu passar dos 2%. Não estou a dizer que somos iguais aos Ciudadanos, mas um partido político é normalmente uma maratona, é uma corrida de fundo”, sustentou.

Questionado sobre se se arrepende de ter abandonado o Partido Social Democrata, o líder do Aliança assegurou que não. “Nenhuma pena. O PSD foi o meu partido durante a minha vida até há um ano. Hoje em dia não. Aliança, Aliança!”, gritou entusiasmado com os apoiantes no final do discurso.

Em poucos minutos a sala esvaziou-se. Os mesmos apoiantes que estavam ao início da noite junto do quiosque, rumaram ao local para beber um copo...talvez para afogar as mágoas.