Legislativas 2019

Vitórias, derrotas e maus sinais: 11 gráficos para discutir as eleições com os amigos

6 outubro 2019 0:00

David Dinis

David Dinis

Director-adjunto

Sofia Miguel Rosa

Sofia Miguel Rosa

Jornalista infográfica

Uma participação eleitoral historicamente baixa, um recorde de partidos na Assembleia, um centrão a resistir. E, afinal, quem ganhou e perdeu. Olhando para os resultados e comparando com as 15 eleições legislativas anteriores, fizemos-lhe um guião para analisar o que aconteceu.

6 outubro 2019 0:00

David Dinis

David Dinis

Director-adjunto

Sofia Miguel Rosa

Sofia Miguel Rosa

Jornalista infográfica

Começamos pelos resultados dos partidos? Vamos lá:

PS: médio mais

A subir há três eleições seguidas, o PS chegou aos 36,7% - mas ganhou apenas 100 mil votos face a 2015 e fez, em votos brutos, a sua nona melhor eleição em 16. Mesmo assim, noutros parâmetros, é uma vitória acima da média do partido: só em três eleições anteriores os socialistas conseguiram eleger mais do que os 106 deputados de agora (108 previsivelmente com os círculos da emigração).

Como lhe explicámos aqui, a verdade é que em 15 eleições legislativas, o PS só passou a fasquia dos 40% por três vezes (Guterres fez 43,8% em 1995 e 44,1% em 1999, Sócrates chegou aos 45% em 2005, chegando à maioria absoluta).

PSD: pior só há muito tempo

Rui Rio fez uma declaração eleitoral afirmando que "não foi uma catástrofe", mas se não foi ficou lá perto. E em todos os parâmetros de avaliação: o partido só fez 1,4 milhões de votos - e só tinha feito pior no difícil contexto do pós-revolução (1,3 milhões de votos). Ficou, portanto, abaixo dos 1,5 milhões de Mota Pinto em 1983, pior que os 1,7 milhões de Santana Lopes e os mesmos de Ferreira Leite. O que mostra que só a alta abstenção ajudou a que a percentagem de votos não fosse ainda mais baixa.

Mesmo assim, em percentagem de votos foi igualmente mau: os 27,9% representam o quarto pior score de sempre dos sociais-democratas - o pior desde há 36 anos, quando Mota Pinto acabou por se juntar a Mário Soares no bloco central: 27,2%. E também nisto é pior do que os 28,8% de Santana Lopes em 2005 e os 29,1% de Manuela Ferreira Leite. Para não dizer que está longe do resultado de Durão Barroso em 1999: 32,3% e 1,7 milhões de votos, que evitaram à justa uma maioria absoluta de António Guterres.

Já agora, vale a pena olhar para o número de deputados. Só por três vezes o PSD teve menos do que os atuais 77 (79 provavelmente depois da contagem da imigração): 1975, 1976, 1983 e 2005.

Bloco: menos 57 mil votos

O Bloco consolidou posição como terceiro partido do nosso sistema político, mantendo também o seu máximo de deputados (19). Mas acabou por fazer apenas o seu terceiro melhor resultado - vá lá, um pódio. O melhor resultado do Bloco até hoje continua a ser, em percentagem, os 10,2% das últimas legislativas, seguido dos 9,8% de 2009.

Em número de votos, também é o terceiro melhor. Porque não chegando aos 500 mil votos fica atrás dos 558 mil votos de 2009 e dos 550 mil de 2015. Não é mau, mas as expectativas eram melhores.

CDS: o pior de sempre

Olhando para os resultados históricos do partido, é inevitável a comparação: em 1987 e 1991, quando Cavaco Silva sugou os votos à direita e obteve as suas maiorias absolutas, Adriano Moreira e Freitas do Amaral só chegaram aos 4,4%; agora Assunção Cristas fez ainda menos: 4,3%.

Em número de votos também: o CDS só fez 216 mil votos, bastante menos ainda do que os 252 mil votos foi tudo o que Adriano Moreira conseguiu em 1987.

Melhor, apenas por um no número de deputados: o táxi agora anda com cinco deputados, mais um do que nessa primeira maioria de Cavaco Silva.

CDU: outro pior de sempre

Era o pior registo de sempre do partido: 6,9% e 379 mil votos (só elegendo 12 deputados). Foi em 2002, no fim da era Guterres - e quando o Bloco já começava a subir. Tinha mesmo sido a única votação em que os comunistas ficaram abaixo dos 400 mil eleitores.

Desta vez foi diferente, para pior: a coligação liderada por Jerónimo de Sousa só fez 6,46% dos votos e 329 mil votos. E mesmo em número de deputados, os 12 agora eleitos batem certinho com os 12 de 2002. Um golpe duro para os comunistas, só ligeiramente compensado por serem deputados em número suficiente para fazerem uma maioria com o PS de Costa.

PAN: uma vitória (quase) em cheio

Uma subida grande, a registada pelo PAN nesta legislatura. Depois de ter crescido de 1% para 1,4% em 2015 – quando elegeu André Silva com 75 mil votos (um pouco mais do que os quase 58 mil da sua primeira eleição), o PAN consegue agora 166 mil votos e eleger quatro deputados. Só não foi em cheio porque, por dois mil votos não chegou aos 168 mil das europeias. Nada que estrague a festa, claro.

Esquerda vs. direita: luta cada vez mais desigual

É uma das leituras inevitáveis da noite: a esquerda ficou ainda mais maioritária neste Parlamento, com 138 deputados contra 84 (faltam, não esqueça, distribuir os quatro da emigração).

Nunca tinha sido tão desigual. Olhando para a distribuição de deputados desde 1976, a direita só esteve em maioria em seis legislaturas, contra 10 em que a esquerda esteve por cima.

Desta feita, a esquerda falhou por muito pouco a maioria de dois terços - para isso precisava de chegar aos 153.

Já, agora, antes de ver os pontos de análise seguintes, passe os olhos pela evolução dos votos dos portugueses nos partidos atualmente com representação parlamentar. Mostra que o PS empatou em número de vitórias com o PSD - oito para cada, em número de deputados. Mas também dá uma ideia clara da resistência dos dois maiores: PS e PSD.

O "centrão" cai...

E como é que estamos ao nível da resistência dos dois partidos do centro? Nas últimas legislativas, PS e PSD mantiveram-se na casa dos 70% dos votos (ainda que distantes do recorde de 1991, em que chegaram a 79,7%). Agora, os dois partidos juntos caíram uns pontos, até aos 64,6%. É o pior resultado desde 1985 - quando terminou o bloco central e a segunda intervenção do FMI. Mesmo assim, apenas o quinto pior score da história da nossa democracia, porque nos primeiros anos a fragmentação do Parlamento dava menos peso aos dois grandes. Porém...

Se olharmos para as últimas eleições parlamentares em alguns dos principais partidos da Europa, conseguimos rapidamente perceber que Portugal continua a ser uma excepção.

Vamos a exemplos? Na Alemanha, a CDU de Merkel baixou e o SPD quase desapareceu; em Espanha, PSOE resiste (embora com dificuldades notórias em subir e garantir a formação de governo) e PP desceu. Em Itália o PD (que agora voltou ao Governo com o Cinco Estrelas) desceu muito, assim como o maior partido de centr-direita (as sondagens dizem mesmo que será a Liga, de Salvini, a subir para os 30%). E em França, os tradicionais partidos do centro foram substituídos pelo movimento lançado pelo Presidente Macron (enquanto a extrema-direita disputa eleições, na casa dos 30%.

O último: para já, menos 342 mil votantes do que há 4 anos

Em 2015 já tinha sido mau: 44,1% dos eleitores registados não quiseram ir às urnas, com apenas 5,4 milhões de votos. Mas desta vez foi ainda pior: 45,6% de abstenção e só 5 milhões de eleitores a participar. Contas feitas, para já, menos 342 mil votos nas urnas. Mas atenção, falta contar ainda os votos da emigração - sendo que o universo alargou-se, com a inscrição automática de mais de um milhão de emigrantes.

A quebra, se se confirmar, é um sinal negativo: é que na verdade a participação efectiva dos portugueses mantém-se bastante estável (ver linha a azul), entre um máximo de 6 milhões de votos contados (em 1979) e o tal mínimo de 5,4 milhões de 2015. A diferença entre essa participação muito constante e uma abstenção altíssima tem a ver apenas com o número crescente de eleitores registados ao longo da nossa democracia. Dito de outra forma: há cada vez mais eleitores, mas vota o quase sempre mesmo número.

Isto acontece porque, em primeiro lugar, a população aumentou (de onde se concluiu que há, percentualmente, mais pessoas sem vontade de votar); mas também porque os cadernos eleitorais ficam desatualizados (p.e. com as pessoas que morrem mas continuam nos cadernos eleitorais). Na verdade, este último factor é importante para perceber o fenómeno, porque nesta década houve já anos em que a população "encolheu", face ao seu envelhecimento progressivo e à emigração.

Quando as contas fecharem, logo veremos se o pior cenário se confirmou.