Legislativas 2019

Alegre elogia a geringonça, mas dispensa “professores de esquerda”

1 outubro 2019 1:07

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Tiago Miranda

Tiago Miranda

Fotojornalista

tiago miranda

Com pavilhão cheio em Coimbra, o PS fez desfilar o autarca local, a ministra da Saúde e Manuel Alegre, este como guardião da história do PS. O poeta deixou recados à esquerda e um elogio a Mário Centeno.

1 outubro 2019 1:07

Filipe Santos Costa

Filipe Santos Costa

Jornalista da secção Política

Tiago Miranda

Tiago Miranda

Fotojornalista

O momento do dia:

Mário Centeno (que até foi elogiado em Coimbra por Manuel Alegre) voltou à campanha do PSD para zurzir nas contas do PSD. Encontrou um buraco de quase 5 mil milhões de euros, entre receitas sobreavaliadas e despesas suborçamentadas. E deixou uma espécie de desafio para um debate com Rui Rio ou outro responsável do PSD que seja candidato a deputado. O PSD disponibilizou-lhe Álvaro Almeida, economista do Porto.

A frase

“Uns querem maioria, outros não querem maioria, uns querem geringonça, outros não querem geringonça. Só há uma coisa que todos querem, é o PS e um Governo PS.”

António Costa, secretário-geral do PS

O personagem

Manuel Alegre é, por si só, uma personagem. E quando volta ao Pavilhão dos Olivais, em Coimbra, o mesmo onde o PS fez o seu primeiro comício na cidade em pleno PREC (no qual Alegre também discursou), personifica a história do partido. E assumiu isso mesmo esta noite, ao invocar Soares, Zenha, Torga e mais uma mão cheia de nomes históricos que “já cá não estão mas de certo modo estão aqui comigo e com todos nós”. Com esse peso, e com a voz de sempre, declarou apoio a Costa e ao seu projeto de reforçar o peso do PS no próximo Governo.

A foto do dia

Costa, na arruada do dia

Costa, na arruada do dia

tiago miranda

Manuel Alegre voltou esta segunda-feira à noite a um comício do PS em Coimbra, no mesmo pavilhão onde discursou pela primeira vez num comício do seu partido, “há mais de 40 anos”. E assumiu o papel de histórico socialista e “uma das maiores figuras do Portugal democrático” (como foi apresentado pelo líder distrital do PS) para defender a “geringonça”, mas também para deixar um aviso aos parceiros do PS nestes quatro anos: “Não há solução governativa de esquerda sem o PS e muito menos contra o PS. Não há esquerda em Portugal sem o PS ou contra o PS”. Em suma: “Fizemos a geringonça e não temos de ter vergonha dela. (...) Não nos arrependemos, mas também não precisamos de professores de esquerda”.

Os recados, servindo para toda a esquerda, pareciam particularmente destinados ao Bloco. A chave de leitura foi deixada pelo próprio Alegre, ao afirmar que a legislatura que agora acaba “não foi uma luta da esquerda contra o PS” - parafraseando, e contrariando, uma frase dita por Catarina Martins. Ao invés da líder bloquista, Alegre considera que a legislatura “foi um trabalho de todos com todos, fruto de um diálogo que só o PS é capaz de promover e assegurar”. E esse diálogo e convergência, que o PS de António Costa promoveu, não existe, alertou Alegre, “sem um PS forte”.

O diálogo à esquerda, considerou o poeta, “só foi possível [em 2015] porque o PS era o partido mais forte, à volta do qual se encontrou a solução de governo”. “A esquerda toda, ao contrário do que pensam alguns, também precisa de um PS forte”, reforçou, num discurso que encaixou na perfeição no guião de António Costa, que o aplaudia na primeira fila e voltou esta noite a pedir um PS mais forte, para poder liderar um Governo e garantir “estabilidade, equilíbrios e concórdia”.

Alegre, trazendo consigo a memória do clube dos socialistas mortos (nomeou muitos, como Soares, Zenha, Torga e Arnaut), também elogiou vários socialistas vivos - dois estavam à sua frente, Costa e a cabeça de lista por Coimbra e ministra da Saúde Marta Temido, e outro estava ausente, mas tem sido referido e levado em ombros ao longo de toda a campanha: Mário Centeno.

Sim, até Manuel Alegre elogiou o ministro das Finanças. “Centeno só há um, e esse é o nosso!”, proclamou. “Eu sei que há muitos que não gostam, eu próprio às vezes também não gosto, mas não há políticas de esquerda sem rigor nas contas públicas”, concedeu o poeta.

“Saúde de supermercado”, regionalização e aeroporto em Coimbra

Marta Temido (“Marta Temida”, como disse por lapso, logo corrigido) deixou o desafio de que “é preciso salvar o SNS” e tratou de reorientar a bússula esquerda/direita no que diz respeito à lei de bases da Saúde: “Para mim, nesta matéria [SNS], não há empecilhos à esquerda, os empecilhos vieram sempre da direita, que votaram sempre contra o SNS”.

A ministra da Saúde, sendo cabeça de lista na cidade de António Arnaut, respondeu que a herança do fundador do SNS será defendida, e aproveitou a área que tutela para atirar farpas ao PSD, que acusou de querer uma “saúde de supermercado, voltando às ideias de privatizar centros de saúde, como nos tempos do Governo de Durão Barroso.

Também Alegre não esqueceu o principal adversário à direita, com uma referência às polémicas dos últimos dias sobre Tancos, a acusação do Ministério Público e as posições de Rui Rio. “Não precisamos de lições moral de quem há alguns dias criticava a justiça de tabacaria e agora se arvora em justiceiro eleitoralista!”

Antes, já Manuel Machado, presidente da câmara de Coimbra, tinha dado voz à indignação socialista contra a oposição que se dedica a “inventar incidentes oportunistas que raiam o insulto”. Mas o autarca, seguro da velha máxima de que “não é o rabo que abana o cão, mas o cão que abana o rabo”, disse-se com “confiança nos portugueses para ganhar as eleições no domingo”. E deixou desde já duas reivindicações a um novo governo liderado por António Costa: um novo referendo à regionalização e o investimento num aeroporto para Coimbra (“O povo que vive nesta região Centro precisa e merece”).

Maioria/ não maioria; geringonça/ não geringonça

António Costa, o último orador da noite, fez vibrar as cerca de 500 pessoas que enchiam o Pavilhão dos Olivais com mais um episódio da dramatização “Governo com o PS ou Governo sem o PS”. Voltou a frisar que quem não quer o PS no Executivo tem bom remédio: “Podem ir Rio abaixo procurando uma alternativa que vos dê garantias de fazer mais e melhor”.

Mas quem quiser continuar com o PS no Governo, ou não encontrar essa alternativa, “tem mesmo de votar no PS”. Costa fez então uma rábula, dando conta do que lhe tem sido dito pelas pessoas que o incentivam na rua durante a campanha: “Força, camarada, vamos ganhar com maioria! Força, camarada, vamos ganhar, mas sem maioria. Força, camarada, vamos ganhar para continuar com a geringonça! Força, camarada, vamos ganhar para não continuar com a geringonça!”

Com o pavilhão a rir - e, provavelmente, a reconhecer-se nas várias posições reproduzidas por Costa -, o secretário-geral do PS fez a síntese: “Uns querem maioria, outros não querem maioria, uns querem geringonça, outros não querem geringonça. Só há uma coisa que todos querem, é o PS e um Governo PS.” E isso, lembrou Costa, implica por “a cruzinha” à frente do “símbolo da mãozinha”.