Internacional

Milhares de chapéus de chuva abertos em Hong Kong assinalam um mês de luta pela democracia

28 outubro 2014 15:45

Cristina Pombo

Cristina Pombo

Coordenadora Online

Milhares de manifestantes pró-democracia abriram os seus chapéus de chuva para assinalar um mês de ocupação

alex hofford/epa

Os protestos em Hong Kong duram há um mês, uma data celebrada por milhares de manifestantes que continuam nas ruas.

28 outubro 2014 15:45

Cristina Pombo

Cristina Pombo

Coordenadora Online

As imagens partilhadas nas redes sociais mostram um mar de chapéus de chuva coloridos em várias zonas de Hong Kong, que por estes dias continuam completamente intransitáveis. Os estudantes e todos os que se lhe juntaram, há precisamente um mês, contam-se aos milhares na zona de Admiralty, o principal foco das manifestações pró-democracia no território semiautónomo da China.

A revolução dos chapéus de chuva, como ficou conhecida, resiste e espera continuar a resistir às investidas da polícia, ao derrube de barricadas, ao gás lacrimogéneo e às tríades de manifestantes antiocupação.

São várias as pessoas que fazem fila para tirar uma fotografia ao lado do Presidente chinês Xi Jinping, retratado em tamanho real, em modo de passeio com um guarda-chuva amarelo aberto sobre a cabeça.

Em Admiralty, esta terça-feira, a multidão que permanece acampada em tendas ficou 87 segundos em silêncio no momento exato em que se cumpriu um mês sobre a primeira investida da polícia local sobre os manifestantes, a 28 de setembro. Nesse dia, foram usadas 87 granadas de gás lacrimogéneo. A repressão policial regressou dias depois, sempre na tentativa de desocupar as principais artérias da cidade. Sem sucesso.

 

2269 tendas em Admiralty

Os manifestantes resistem. Kris Cheng, o jornalista que o Expresso entrevistou há duas semanas, está entre eles. São dezenas, senão centenas os repórteres que asseguram a cobertura diária dos protestos. Há dois dias, Cheng partilhou na sua conta do Twitter o número de tendas instaladas em Admiralty - 2268, mais 497 desde a última contagem, alguns dias antes. A aproximação da data em que se cumpre um mês sobre o início da ocupação da cidade levou mais pessoas a juntarem-se aos protestos.

Quase ininterruptamente, inundam o Twitter e o Instagram com fotografias e informações sobre o que se vai passando. Na semana passada, um episódio curioso nascia e morria precisamente nas redes sociais. O conhecido saxofonista Kenny G publicou no Twitter uma "selfie" onde exibia um v de vitória, junto a um dos locais das manifestações. A imagem foi rapidamente partilhada por manifestantes que agradeceram o seu apoio à causa democrática do povo de Hong Kong. A notícia não foi bem recebida na China e Kenny G apressou-se a retirar a fotografia, retratando-se no Twitter e no Facebook.

É também através das redes sociais que o próprio movimento "Occupy Central with Love and Peace" se dá a conhecer, um movimento que nasceu do associativismo nas ruas de Hong Kong e faz política em palanques improvisados nas áreas ocupadas da cidade. Este movimento "está muito preocupado em não criar violência", diz ao Expresso Mónica Dias, especialista em processos de transição para a democracia.

"Qualquer tipo de resistência violenta pode ser instrumentalizada pelos meios de comunicação controlados pelo Governo de Pequim, e pelas autoridades em geral, para rapidamente acabar com estas manifestações e com esta bolha mínima de oxigénio e liberdade", reforça a investigadora do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica.

 

À procura de um compromisso

Os manifestantes pró-democracia distribuem-se por diferentes alas: os mais extremados que exigem a demissão do chefe do Executivo Leung Chun-ying, e os que apenas tentam impedir que as eleições de 2017 sejam completamente controladas pelo Governo central chinês.

Aquando das negociações entre a China e o Reino Unido, em 1984, em que foi concedido a Hong Kong o estatuto especial de "um país, dois sistemas", "foi sempre colocada a hipótese de eleições livres em 2017 mas não se elaborou nenhum regulamento de como seria a fase de transição", explica Mónica Dias. É precisamente esse compromisso que os eleitores de Hong Kong esperam alcançar.

Se, por um lado, tudo indica que o Governo chinês não está disposto a aceitar todas as propostas do movimento "Occupy Central", resta saber que medidas serão tomadas por Pequim - que concedeu liberdades ao território mas não a democracia plena - para gerir a crise sem perder a face.

É impossível prever se a onda democrática que inundou as ruas da ex-colónia britânica vai ou não perdurar no tempo, mas aos olhos do Ocidente a grande vitalidade e o desejo de participação política do povo de Hong Kong parece hoje imparável. A luta por eleições mais livres continuará, não só com vista a 2017, mas na preparação do futuro democrático do território.