Guerra na Ucrânia

Reportagem na Ucrânia: Ano Novo à luz das velas para que as trevas não vençam

8 janeiro 2023 9:01

Mauro Mondello, em Lviv

Desembarque de passageiros em Lviv, cidade ucraniana perto da fronteira com a Polónia

dan kitwood/getty images

“Este conflito rouba-nos a parte mais bonita da vida”, diz Maksym, de 16 anos, cujo irmão mais velho combate na guerra

8 janeiro 2023 9:01

Mauro Mondello, em Lviv

O parque Stryiskyi é dos mais bonitos da Ucrânia. Sucedem-se abetos, bordos, plátanos, carvalhos-vermelhos, e até o antiquíssimo ginkgo, parte das 40 mil árvores que cobrem a sua extensão, ao longo de caminhos que contornam o lago dos cisnes. Foi construído no fim do século XIX na parte sul de Lviv, no bairro de Halytskyi, a cerca de 20 minutos a pé do centro histórico. Aqui, em contentores na zona mais central do parque, vivem 100 famílias ucranianas deslocadas, à espera de poder alugar ou de lhes ser atribuído um apartamento, no caótico vaivém de refugiados da cidade.

Desde o início da invasão russa, Lviv tornou-se “capital dos refugiados”, lugar seguro para fugir às bombas, onde vivem cerca de 170 mil deslocados internos, dos 5,9 milhões que a Organização Internacional das Migrações calcula que existam na Ucrânia. “Passámos o Natal aqui, e afinal não foi mau. Apesar de terrível, a guerra uniu ainda mais este grande país, eliminou divisões e regionalismos: hoje sentimo-nos mais ucranianos”, diz ao Expresso a professora reformada Nadija, de 74 anos, que há quatro meses divide um contentor no parque Strysky com a filha e dois netos, após passar as primeiras semanas em fuga numa escola em Bialystok, na Polónia, e depois numa igreja em Novojavorivsk, a 40 quilómetros de Lviv. “Eu morava no 12º andar de um prédio em Luhansk quando começaram os bombardeamentos. Em poucos dias cortaram a água, o gás e a eletricidade. Por muito que quisesse, ficar lá com a minha idade era impossível, já que tinha muitas escadas para subir e descer todos os dias, sem elevador.”