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Juan Carlos I, em tempos ‘tramado’ por uma caçada ao elefante, aponta ao urso de Madrid... mas é só uma rábula artística

Estátua do rei emérito Juan Carlos I a apontar a espingarda ao Urso e Medronho, escultura que simboliza a cidade de Madrid, na praça da Porta do Sol
Estátua do rei emérito Juan Carlos I a apontar a espingarda ao Urso e Medronho, escultura que simboliza a cidade de Madrid, na praça da Porta do Sol
David Canales/SOPA Images/LightRocket/Getty Images

Dias depois de o rei emérito ter estado em Espanha, o artista chileno Nico Miranda instalou na capital uma estátua em que este aponta com uma arma à escultura do urso e medronho, ex-libris madrileno da praça da Porta do Sol. Autarca local considerou a provocação artística “uma imbecilidade”

Juan Carlos I, em tempos ‘tramado’ por uma caçada ao elefante, aponta ao urso de Madrid... mas é só uma rábula artística

Pedro Cordeiro

Editor da Secção Internacional

“Sinto muito. Enganei-me. Não voltará a acontecer” Foi há onze anos e nove dias que Juan Carlos de Borbón, então rei de Espanha, surpreendeu o país ao pedir desculpa por ter ido caçar elefantes no Botsuana enquanto os seus súbditos aguentavam as agruras da crise económica. Esta terça-feira o agora ex-monarca (abdicou em 2014) viu recordada a paixão cinegética ao ver-se retratado em poliuretano, na Porta do Sol — a praça mais central de Madrid —, a apontar uma espingarda ao “Urso e Medronho”, escultura que é símbolo da capital.

Juan Carlos esteve em Espanha nos últimos dias, para participar em regatas, apesar de o Governo e o filho e atual chefe de Estado, Filipe VI, lhe terem feito saber que não era bem-vindo a cerca de um mês das eleições municipais e regionais. Autoexilado desde 2020 em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, o octogenário que os espanhóis admiravam viu cair a popularidade por causa de escândalos financeiros e revelações da aristocrata alemã Corinna Larssen, sua ex-amante, que mantém um processo judicial contra ele em Londres.

A rábula em forma de estátua é obra do artista chileno Nico Miranda e tem como título “Estratégias parasitárias para a sobrevivência num mundo cruel”. De olhos abertos e sorridente, o rei de poliuretano prepara-se para abater o urso mascote de Madrid. O jornal digital “El Diario” recorda que Juan Carlos chegou a matar nove ursos na Roménia, um deles uma fêmea de grande tamanho.

Em 2006, o jornal russo “Kommersant” divulgou uma carta de um guarda florestal que assegurava que Juan Carlos matara um urso em cativeiro, em Vologda. Sem o então rei saber, o animal, de nome Mitrofan, fora embebedado com um cocktail de vodca e mel e apresentado como selvagem, quando estava amestrado. Terá morrido ao primeiro disparo.

Dez minutos de fama

Agora, 17 anos mais tarde, a instalação de Miranda — que nunca antes visitara Madrid — não esteve mais de dez minutos na Porta do Sol, o suficiente para transeuntes tirarem selfies com o ex-rei fictício. O autor terá estudado com cuidado as câmaras de vigilância da praça e as mudanças de turno dos polícias para conseguir colocá-la ali. A escultura do Urso e Medronho mudou recentemente de localização na praça, no âmbito de uma remodelação da mesma.

Feita à mão e pintada a óleo para imitar a cor do bronze, a estátua de Juan Carlos tem uma mensagem. “Se ele pode matar o símbolo de Madrid, poderia abater qualquer um”, declarou Miranda ao jornal digital. Acredita que “o gabinete de algum fascista” seria morada ideal para a sua obra, que descreve como contendo “violência, mas também humor absurdo e negro”.

Há quatro anos, uma dupla de artistas propunha-se vender esta representação de Filipe VI, na feira de arte contemporânea Arco, a quem se comprometesse a queimá-la
ÓSCAR DEL POZO/Getty Images

Numa nota à imprensa, Miranda explicou que muitos espanhóis associam Juan Carlos a “uma vida privada de luxúria e apego à caça de animais em risco de extinção, como bisontes, elefantes e ursos”. Quis, assim, “ridiculizar a figura do monarca”. A estátua, de 1,70 metros de altura, seguiu para uma exposição no centro cultural La Parceria, também em Madrid.

“Uma imbecilidade absoluta”, reagiu o presidente da Câmara de Madrid. José Luis Martínez-Almeida, eleito pelo Partido Popular (direita) e recandidato às eleições de 28 de maio próximo. Citado pelo jornal “El Mundo”, o autarca escusou-se a mais palavras, para não dar “publicidade a esse tipo de gente”.

Sátiras mais ou menos arrojadas

Não é a primeira vez que os Borbón se veem satirizados em arte. Em 2019, Eugénio Merino e Santiago Sierra criaram para a feira de arte contemporânea Arco, um dos certames mais famosos do mundo no sector, um Filipe VI de cinco metros de altura. Acontece que tinha todos os traços de um ninot, boneco típico das Fallas, festas de Valência onde tais bonecos acabam na fogueira. Merino e Sierra exigiam que quem comprasse a obra prometesse queimá-la.

Polémica escultura que foi censurada numa exposição em Barcelona em 2015
LLUIS GENE/AFP/Getty Images

Em 2015 o Museu de Arte Contemporânea de Bacelona censurou a escultura “A besta e o soberano”, da austríaca Ines Doujak, em que Juan Carlos surgia a vomitar enquanto era sodomizado pela dirigente bolivariana Domitila Barrios de Chúngara, por sua vez sodomizada por um pastor alemão. A direção do centro cultural acabou destituída.

Mais timorato, Miranda conta ter analisado “milhares de fotos” até encontrar o gesto que convinha à sua estátua. A obra não está à venda, mas o artista não fecha a porta a tal opção.

Em Espanha tem-se debatido se Juan Carlos, de 85 anos, deve regressar ao país. A favor jogam o facto de todas as investigações contra ele terem sido arquivadas — salvo o processo londrino — e de a sua idade avançada e problemas de saúde fazerem temer o embaraço que seria o ex-monarca morrer a milhares de quilómetros de Espanha. Contra o regresso jogam a polémica que ainda o rodeia. Nos últimos meses, a vontade de transferir a sua residência fiscal para Abu Dhabi levantou suspeitas. Juan Carlos é dono de uma fortuna estimada em 1800 milhões de euros.

Tem dúvidas, sugestões ou críticas? Envie-me um e-mail: pcordeiro@expresso.impresa.pt

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