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O pássaro azul voa cada vez mais baixo: caos, abandonos e contas falsas no primeiro dia do “Twitter Blue”

O pássaro azul voa cada vez mais baixo: caos, abandonos e contas falsas no primeiro dia do “Twitter Blue”
DADO RUVIC

A tentativa de Elon Musk de tornar a rede social do pássaro azul lucrativa parece fracassar. A validação de contas, que passou a ser paga, perdeu todo o significado e provocou abandonos da rede social. Chovem críticas e multiplicam-se as contas e informações falsas

A manhã de sexta-feira começou especialmente caótica para os utilizadores do Twitter, após a ampla remoção das marcas de verificação azuis nas contas de celebridades, jornalistas e agências governamentais, aumentando o nível de desconfiança, instabilidade e confusão criada nos últimos meses nesta rede social pelo atual líder executivo Elon Musk.

Esta mudança de políticas surge com a entrada do novo proprietário, que comunicou estar determinado a usar todos os meios necessários para tornar esta rede social mais lucrativa. Neste caso, tentando forçar os utilizadores a pagar por serviços de validação das contas que antes eram gratuitos.

Sob o sistema de ‘verificação azul’ original, o Twitter tinha cerca de 400.000 utilizadores validados e as verificações significavam que o Twitter havia comprovado que os titulares das contas eram quem diziam ser.

Agora, com o novo sistema Twitter Blue, os utilizadores individuais têm de pagar cerca de oito dólares por mês pela marca azul, enquanto às empresas e organizações são cobrados mais de mil dólares mensais. Esta mudança mudou radicalmente o significado da verificação de uma conta, bem como a sua independência e credibilidade.

O novo sistema pago é permeável a vários riscos, entre os quais a imitação de contas governamentais, a remoção de rótulos usados ​​anteriormente para identificar a propaganda chinesa e russa e uma corrida da empresa para reverificar individualmente certas figuras importantes, como o Papa Francisco. Isto soma-se ao fracasso na angariação de novas pessoas para se inscreverem no serviço pago, objetivo que as mudanças deveriam promover.

De acordo com a CNN, um ampla conjunto de empresas e organizações de comunicação social perdeu os crachás de verificação dourados que a equipe de Musk havia desenvolvido meses antes como uma alternativa à verificação de marca tradicional, refletindo a aparente recusa dessas organizações em pagar os tais 1.000 dólares mensais.

Vários utilizadores proeminentes do Twitter, incluindo LeBron James, William Shatner e Stephen King, também se recusaram a pagar para manter seus crachás de verificação, levando Musk a intervir pessoalmente. Parecendo sentir os problemas que poderiam surgir se esses utilizadores não fossem verificados, Musk disse, na quinta-feira, que pagaria do próprio bolso para garantir que os perfis de James, Shatner e King continuassem a ser verificados, explica a estação de televisão.

Também o “The Guardian” dá conta de que vários utilizadores e celebridades perderam as suas validações na quinta-feira, incluindo Beyoncé, Papa Francisco e Oprah Winfrey. Donald Trump – que não twittou desde que foi autorizado a regressar à plataforma após ter sido banido – também não foi verificado.

As atuais validações incluem uma mensagem ‘pop-up’ informando que a conta “é verificada porque os titulares se inscreveram no ‘Twitter Blue’ e o seu número de telefone foi verificado”. Mas a situação é alvo de críticas, porque verificar um número de telefone significa apenas que o utilizador tem esse número e provou ter acesso a ele, mas não confirma a identidade da pessoa, levantando preocupações sobre a veracidade das contas.

Muitos utilizadores estão a aproveitar as mudanças e as fragilidades que implicam para alterar as fotos de perfil e os nomes, tentando passar por figuras conhecidas, do CEO da Amazon, Jeff Bezos, ao falecido senador do Arizona, John McCain, adianta o “The Guardian”. Outros utilizadores da rede social publicaram tweets falsos, fazendo-se passar por contas de notícias legítimas para espalhar desinformação e, até, fazer troça de Musk.

A facilidade com que os utilizadores podem conseguir passar por organizações e figuras legítimas levantou preocupações de que o Twitter pudesse perder a característica de plataforma adequada para obter informações precisas e atualizadas de fontes autênticas, inclusive em situações de emergência.

Contas falsas que alegam representar a presidente da Câmara de Chicago, Lori Lightfoot, o Departamento de Transporte de Chicago e o Departamento de Transporte de Illinois começaram a compartilhar mensagens na sexta-feira, alegando falsamente que a Lake Shore Drive da cidade – uma importante via – fecharia para o tráfego privado a partir do próximo mês, adianta o “The Guardian”.

As contas genuínas de Lightfoot e das agências de transporte não tinham qualquer marca de autenticidade na sexta-feira e o gabinete de Lightfoot anunciou estar ciente da existência de contas falsas e “a trabalhar com o Twitter para resolver o assunto”. Pelo menos uma das contas foi suspensa na sexta-feira.

Outras organizações afetadas disseram esperar mais clareza por parte dos responsáveis do Twitter, que reduziu drasticamente a sua equipe desde que Elon Musk comprou a empresa por 44 mil milhões de dólares no ano passado. Muitas das críticas referem que está a haver uma gestão “desleixada” e “incompetente”.

Enquanto isso, o Twitter continua a concretizar o programa de mudanças no seu funcionamento, exigindo aos anunciantes a inscrição no Twitter Blue para poderem continuar a exibir anúncios, num momento em que as receitas provenientes dos principais anunciantes do Twitter encolheram 65%.

Investigadores independentes observaram que apenas 28 novas contas se terão inscrito no Twitter Blue após as alterações desta semana, enquanto outro relatório colocou o número mais próximo de 400 novas contas. Uma empresa de desenvolvimento de software para o rastreio de redes sociais com sede em Berlim, revelou que menos de 5% das contas verificadas terão pago para aderir ao Twitter Blue, adianta, ainda, o “The Guardian”.

Tem dúvidas, sugestões ou críticas? Envie-me um e-mail: piquete@expresso.impresa.pt

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