Internacional

O coração do dragão bateu no Porto, em reconhecimento de uma comunidade com “peso” no tecido social

20 janeiro 2023 21:31

Salomé Fernandes

Salomé Fernandes

jornalista da secção internacional

xinhua/xu chang

Para abrir o Ano Novo Chinês com “energias positivas”, realizou-se um evento em frente à Câmara Municipal do Porto. As celebrações deixaram uma mensagem de agradecimento à China pelos equipamentos enviados durante a pandemia, elogios às relações diplomáticas e um pedido que revela a tensão que existe entre a China e os Estados Unidos

20 janeiro 2023 21:31

Salomé Fernandes

Salomé Fernandes

jornalista da secção internacional

Na tarde desta sexta-feira, um dragão deixou o campo do imaginário e assumiu forma em frente à Câmara do Porto. O animal em tons de vermelho e dourado acordou de olhos voltados para a Avenida dos Aliados, contorcendo-se em círculos numa dança ao som de percussão que marcou as celebrações do Ano Novo Chinês, também conhecido por Ano Novo Lunar. De cachecol vermelho aos ombros, dezenas de membros da comunidade chinesa assistiram ao momento.

“A dança do dragão vai terminar um ano e iniciar um ano novo. Tentamos fechar o ano com as coisas boas mas esconder as energias negativas. A exibição de tambores é como se fosse o coração do dragão a bater e vamos tentar com esta dança abrir o novo ano com as melhores energias positivas”, explicou Diogo Santana, da escola de artes marciais chinesa She-si. O grupo que realizou o espetáculo teve origem em Macau, território que já foi administrado por Portugal e é atualmente uma região administrativa especial da China.

O ano novo chinês – que este ano representa a entrada no ano do coelho - é marcado por crenças sobre como atrair boa sorte e prosperidade e afastar maus espíritos. Reza a lenda que antigamente um monstro chamado “Nian” atacava aldeões no arranque de cada novo ano, até que descobriram como o afastar: o monstro tinha medo de sons altos e da cor vermelha. Há zonas onde ainda atualmente se acendem panchões.

Como descreve o South China Morning Post, há também práticas que são evitadas durante os primeiros dias das celebrações, por se acreditar que têm efeito negativo: varrer ou usar tesouras é visto como uma forma de afastar a riqueza, partir pratos ou chorar gera má sorte.

É durante este período que se dá o maior fluxo migratório interno do planeta, com centenas de milhões de trabalhadores a regressarem às suas terras natais para passarem as festividades junto das suas famílias, que desta vez arrancam a 22 de janeiro. Coincidente com o fim da política de zero casos de covid-19, seguida durante cerca de três anos pela China, há cientistas a alertar que as viagens irão acelerar a propagação da epidemia.

O ministro da Saúde português indicou que as medidas de segurança existentes em relação aos voos que chegam da China serão mantidas. “Não há nenhum preconceito e aquilo que tem acontecido nas ultimas semanas tem corrido muito bem. As medidas estão em vigor até ao fim do mês, até 31 de janeiro, e na altura avaliaremos se se justifica continuar com essas medidas ou não. Para já diria que não há nenhum motivo de alarme ou preocupação”, disse Manuel Pizarro.

Mensagens políticas: um agradecimento e um desejo

O presidente da Câmara do Porto apontou que, dos cerca de 35 mil cidadãos chineses e sino-portugueses a viverem em Portugal, residam 10 a 12 mil na região norte, o que “diz bem do peso desta comunidade no tecido social e económico nortenho”.

Recuando ao início da pandemia em Portugal, Rui Moreira deixou um agradecimento à China. “Quando as coisas se complicaram na pandemia foi na República Popular da China que encontrámos o primeiro apoio para trazer para o Porto os ventiladores e as máscaras e dizer obrigado é uma maneira de ser portuense”, comentou em declarações aos jornalistas. Rui Moreira recordou também haver duas “lojas de tradição” no Porto que são restaurantes chineses e “a velha tradição das pessoas que encontram nos chineses do Porto uma ligação enorme que temos ancestral”.

Também presente nas comemorações que decorreram na Câmara Municipal esteve Y Ping Chow. O presidente da Liga dos Chineses em Portugal deixou o seu pedido para o próximo ano: “paz, sem interferência política da superpotência americana, e deixarem-nos trabalhar em paz porque a China quer desenvolver a paz mundial e a economia mundial”.

Y Ping Chow considera que a comunidade chinesa “está muito bem integrada”. Apesar de reconhecer terem existido casos de discriminação no início da pandemia, diz tratar-se de casos individuais e que “as coisas ficaram calmas muito rapidamente”.

Numa mensagem que leu, enviada pelo Presidente da Assembleia da República, Augusto Santos Silva, constava que as relações dos dois países “é singular a nível mundial: em quinhentos anos, as nossas relações nunca foram conflituosas e as duas partes cumpriram as suas obrigações”.

Em 2021, quando Augusto Santos Silva ocupava o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros, no seguimento de uma diretiva que exigia uma linha editorial patriótica aos jornalistas da Teledifusão de Macau, disse que o "o Governo português espera e conta que ambas as partes cumpram a Lei Básica em todas as suas determinações”.

Numa análise às relações bilaterais entre os dois países, o embaixador da República Popular da China em Portugal, Zhao Bentang, disse que “progrediram muito” no ano passado, apontando que os presidentes Xi Jinping e Marcelo Rebelo de Sousa “trocaram cartas várias vezes” e chegaram a “importantes consensos”.