Internacional

Príncipe Harry acusa família real de querer “reabilitar imagem” à sua custa

9 janeiro 2023 14:13

finnbarr webster

Desde o papel da imprensa até às relações com William, Carlos ou Camilla, o duque de Sussex — filho mais novo do rei — aponta o dedo à família real, em vésperas de publicar um livro de memórias. Ainda assim, não fecha a porta a uma reconciliação

9 janeiro 2023 14:13

É mais um capítulo na já longa polémica: em duas entrevistas divulgadas domingo, o príncipe Harry faz várias acusações à família real britânica, cujos membros acusa de se “deitarem com o diabo” por causa das ligações com a imprensa tabloide, além de procurar esclarecer situações polémicas recentes.

“Esses determinados membros decidiram meter-se na cama com o diabo, certo? Para reabilitar a sua imagem”, disse Harry na ITV, ao abordar a “relação entre certos membros da família e a imprensa tabloide”.

“Se precisas de fazer isso ou queres fazer isso, optas por fazê-lo… bem, isso é uma escolha. Depende de ti. Mas no momento em que a reabilitação vem em detrimento de outros eu, outros membros da minha família —, é aí que traço a linha”, afirmou, citado pela Sky News.

“Missão suicida”

O pai, Carlos III, avisou-o de que “tentar mudar” a imprensa seria “provavelmente uma missão suicida”. Harry fala numa “narrativa distorcida” a propósito da saída do Reino Unido com a mulher, Meghan Markle, em 2020, quando o casal foi acusado de querer “ir ganhar dinheiro”. Justifica que decidiram pôr a “saúde mental em primeiro lugar”.

“Naquela altura, não compreendi bem o quanto ou como a família era cúmplice daquela dor e sofrimento que estava a acontecer à minha mulher”, explica.

Na mesma entrevista, o duque de Sussex garante não ter “qualquer intenção de prejudicar” o pai nem o irmão, William (príncipe de Gales e herdeiro da coroa), com o livro de memórias “Spare” (Suplente), que será publicado na terça-feira e que em português se intitula “Na Sombra”.

A obra teve edição espanhola posta à venda antecipadamente, de forma imprevista. Os palácios de Kensington e Buckingham, respetivamente residências oficiais de William e Carlos, já indicaram que não irão comentar o conteúdo do livro.

Na obra, Harry conta ter sido fisicamente agredido pelo irmão durante uma discussão sobre o casamento com Meghan. “Hoje posso praticamente garantir que se não estivesse a fazer sessões de terapia como estava, e ser capaz de processar essa raiva e frustração, teria lutado – 100%”, assegurou ao jornalista Tom Bradby.

Porta aberta à reconciliação

Num acontecimento mais recente, Harry aponta à família real uma “reação horrível” no dia da morte de Isabel II, a 8 de setembro do ano passado. A seu ver a família estava “de pé atrás”. O príncipe afirma que testemunhou “fugas e plantações” de informações.

Sobre uma possível “reconciliação”, o duque de Sussex salienta que “tem de haver alguma responsabilização”. “Penso que é provável que muitas pessoas, depois de verem o documentário e lerem o livro, digam: ‘Como poderia alguma vez perdoar à sua família pelo que fizeram?’. As pessoas já me disseram isso. Eu disse que o perdão é 100% possível, porque gostaria de ter o meu pai de volta. Gostaria de ter o meu irmão de volta. Neste momento, não os reconheço, tanto quanto eles provavelmente não me reconhecem.”

Em relação à entrevista com Oprah Winfrey, em junho de 2021, Harry esclarece que os comentários “perturbadores” de um membro da família sobre a cor de pele do filho, Archie (feitos quando ainda estava por nascer), se deveram a um “viés inconsciente”, não a racismo. Ressalva que “racismo e preconceito inconsciente” não são a mesma coisa.

Harry considerou “importante reconhecer” o consumo de drogas no passado, que aborda no livro, e negou as acusações de ser “mordaz” relativamente a Camilla, a rainha consorte e sua madrasta, com quem Carlos se casou em 2005, oito anos após a morte da primeira mulher, Diana, mãe de William e Harry. Este escreve no livro que tanto ele como William suplicaram ao pai que não fizesse tal casamento.

Mais entrevistas

Na entrevista que se seguiu, no programa “60 Minutes” da cadeia americana CBS, o tema foi de novo abordado. “Achámos que não era necessário. Achámos que faria mais mal do que bem”, disse a propósito do segundo casamento do pai. Harry afirma ainda que Camilla era vista como a “vilã” e “perigosa”, por ser a “terceira pessoa no casamento” dos pais. Daí a necessidade de “reabilitar a sua imagem”.

Harry reconhece ao jornalista Anderson Cooper que Meghan não se deu bem com William e a mulher deste, Kate Middleton, “desde o início”. O irmão mais novo destaca os “muitos estereótipos” por Markle ser uma “atriz americana, divorciada, birracial”.

O príncipe salienta que William “nunca tentou dissuadi-lo” de se casar, mas “transmitiu preocupações muito cedo”, avisando que ia ser “realmente difícil”. “Talvez ele tenha previsto qual seria a reação da imprensa britânica.”

A “rivalidade de irmãos” começou quando ambos frequentavam o colégio de Eton. Harry conta ter ficado magoado quando o irmão mais velho lhe disse para fingirem que não se conheciam. Hoje diz não ter contacto com William e, com o pai, não fala “há bastante tempo”.

A viver na Califórnia, nos Estados Unidos, o duque de Sussex está “muito feliz”. “Penso que provavelmente irrita algumas pessoas, enfurece outras, apenas pela natureza da minha partida”, conclui. Ainda esta segunda-feira, mais uma entrevista será divulgada no programa “Good Morning America” e, quarta-feira, será a vez do “Late Show”, segundo o diário britânico “The Guardian”.