Internacional

Depois do nevão mortífero, há risco de inundações na “Sibéria americana”

carlos osorio/reuters

A chegada abrupta do mau tempo, marcado por temperaturas negativas e nevões, espalhou o caos numa região dos EUA habituada a tempestades, porém incapaz de lidar com um “fenómeno histórico”

27 dezembro 2022 22:20

Ricardo Lourenço

Ricardo Lourenço

Correspondente nos Estados Unidos

Meio a brincar, diz-se que na América existem duas estações: a “construction season” e a “shoveling season”. Durante a primeira, avançam obras e reparações, que só abrandam quando as vagas de frio oriundas do Ártico estão à porta. Segue-se a segunda, marcada por temperaturas que chegam aos 40 graus negativos e muita neve que tem de ser limpa por todos. Quem não o fizer, arrisca multas de centenas de dólares.

Este ano, o mau tempo chegou mais cedo, em particular à Sibéria americana, tal como é conhecida a área que se estende do sul do Michigan ao norte de Nova Iorque. Dois lagos, o Erie e o Ontario, marcam a paisagem da região, dois gigantes corpos de água que, por esta altura, ainda não congelaram. “Tal deixa uma profunda reserva de humildade que, à passagem de uma tempestade como a recente, gera nevões históricos”, explica ao Expresso a meteorologista Crystal Egger, presidente da Monarch Weather, empresa de consultoria que fornece análise e previsões sobre tempo e clima.

Resultado dessas condições, 52 pessoas morreram até hoje, 28 só no condado de Erie, onde se situa Buffalo, a segunda cidade mais populosa do estado de Nova Iorque, nesta altura, parcialmente, soterrada após a queda de mais de um metro de neve.

À medida que a mesma é retirada, geram-se autênticas colinas brancas que bloqueiam o acesso a múltiplos quarteirões. “Se o que aconteceu por estes dias em Buffalo, cidade habituada a nevões do género, tem acontecido noutro local, o desastre teria sido muito pior”, afirma Egger.

O último fenómeno do género ocorreu em 1977, quando 23 pessoas faleceram em Buffalo. A quantidade de neve foi tal, que, à imagem de hoje, o Governo federal declarou o estado de emergência, que culminou com o destacamento de centenas de militares americanos.

Um furacão de neve

No passado fim de semana, as rajadas de vento chegaram aos 150 quilómetros por hora, cifra equivalente à de um furacão de categoria 2 (a escala de intensidade vai de um a cinco).

As circunstâncias paralisaram as operações de salvamento . À primeira oportunidade, os serviços municipais e corpo de bombeiros avançaram - tarde demais para alguns. A maioria dos corpos resgatados ainda permaneciam nos automóveis parados nas bermas, nas casas mais afastadas dos centros urbanos e no interior das tais colinas brancas. O “shoveling”, aparentemente, uma atividade inofensiva, pode levar à exaustão e até a crises cardíacas nos mais idosos.

Conduzir continua a ser desaconselhado, embora os mais destemidos, munidos de pick-ups às quatro rodas motrizes com pneus de inverno, insistam em desafiar a lógica. Humilhados, acabam muitas vezes a pedir desculpa aos que os salvam, reconhecendo que deviam ter ouvido as autoridades.

Ao Expresso, Mike DeGeorge, um dos assessores de imprensa da Câmara Municipal de Buffalo confirma que “a situação é tão grave que até as escavadoras usadas para desobstruir as estradas acabam nas bermas, também elas imobilizadas pela neve”.

A barra de cereais que serviu de ceia natalícia

No restante território dos Estados Unidos, a situação não atingiu aquele grau de gravidade. Mesmo assim, 60% da população recebeu alertas relacionados com o mau tempo, que se estende da Sibéria americana à fronteira sul, de acordo com um comunicado do Departamento de Segurança Interna.

Na véspera de Natal, Mary Schultz e Gregory Holmes estiveram 12 horas parados numa autoestrada, enquanto viajavam de Kansas City, Missouri, para Cincinatti, Ohio. O casal sobreviveu para contar a experiência, mas lamenta ter perdido o Natal em família. “Não fosse um camionista ter parado para nos oferecer uma barra de cereais, não teríamos comido nada durante a noite”, recorda-nos Gregory.

A paragem forçada deveu-se a um choque em cadeia que envolveu 46 automóveis e provocou quatro mortos. “Hoje, depois daquele pesadelo, percebemos que temos muita sorte por estar vivos”, conclui Mary.

Dada a quadra festiva, milhões de americanos aventuram-se em viagens de centenas de quilómetros. A opção pelo avião, por agora, mostra-se pouco apelativa, dado que quase sete mil voos foram cancelados ou atrasados desde a passada quarta-feira.

De regresso a Buffalo, Mike DeGeorge revela que, aos poucos, “a situação tem vindo a melhorar”. As temperaturas passaram dos 30 graus negativos para uns generosos cinco negativos. Até final da semana, preveem-se marcas positivas, que poderão atingir os dois dígitos no próximo domingo.

A “slush” chegará na certa, ou seja, a mistura de neve com lama. A água irá saturar os solos, surgindo a possibilidade de inundações. “Trabalhamos de esquina a esquina, de rua a rua, de quarteirão a quarteirão, com o objetivo de limpar a neve e mitigar a possibilidade de cheias”, descreve ao Expresso Dan Nevers, comissário municipal dos serviços de emergência. “Mesmo assim, confesso que estou muito preocupado”.