Internacional

Migrantes que passaram 11 dias a viajar sentados no leme de um cargueiro vão ser deportados

29 novembro 2022 21:42

Ana França

Ana França

Jornalista da secção Internacional

Cargueiro com origem em Lagos, Nigéria, com três homens sentados no leme. Assim viajaram 11 dias até às Ilhas Canárias

salvamento maritimo/handout via reuters

Três homens nigerianos viajaram 11 dias no leme de um cargueiro, um local extremamente perigoso, já que qualquer ondulação mais forte pode fazer um corpo cair à água, além de ser o local onde se encontra a lâmina que dá a direção ao navio. Foram resgatados pelas autoridades marítimas espanholas em Las Palmas, nas Ilhas Canárias, mas deverão regressar à Nigéria no mesmo navio em que chegaram

29 novembro 2022 21:42

Ana França

Ana França

Jornalista da secção Internacional

A fotografia é tirada de longe. Três formas humanas, sentadas sobre o leme de uma embarcação tão imensa que a fotografia nem sequer apanha a proa, lá em cima, só o casco. Os pés dos três homens baloiçam a centímetros da água. Fugiram da Nigéria em direção ao porto de Las Palmas, Ilhas Canárias, onde a Guarda Costeira de Espanha os socorreu. Estavam desidratados, exaustos e com sinais de hipotermia. Um deles ainda se econtra num hospital.

Os homens não terão sido informados da possibilidade de pedir asilo e, por isso, foram devolvidos ao navio, que deverá regressar a Lagos em breve, escreve a “Reuters”. A lei espanhola diz que os resgatados no mar que não peçam proteção internacional ao Estado são devolvidos ao operador do navio que os resgatou, disse um porta-voz da polícia à agência de notícias.

Os migrantes deveriam, pelo menos, ter sido informados do seu direito de pedir asilo político e questionados antes de serem devolvidos ao navio” disse, também à Reuters, Helena Maleno, diretora da organização não-governamental Walking Borders. “As condições da viagem já são uma indicação de que algo muito sério pode estar por trás dessa fuga, as fotos são incríveis. Nunca vimos um caso em que pessoas tenham viajado nessas condições e chegado com vida”.

As autoridades não disseram se tinham informado os migrantes sobre a possibilidade de pedir asilo.

Uma forma muito perigosa de viajar

Os três partiram de Lagos a 17 de novembro, dentro do Alithini II, cargueiro com bandeira de Malta. Viajar no leme é violento e extremamente perigoso. Porém, estes não são os primeiros migrantes a tentar, com sucesso, chegar a Espanha dentro dos lemes de navios com origem na capital nigeriana. É de lá que partem muitos dos cargueiros com petróleo e outros combustíveis e químicos com destino à Europa.

Em 2020, quatro homens, também nigerianos, sobreviveram 10 dias no mar antes de serem encontrados escondidos num compartimento por cima do leme de um petroleiro norueguês que havia partido de Lagos, tal como este, com direção também a Las Palmas.


Migrantes de origem subsariana aguardam para serem retirados de embarcação na Grã Canária, Espanha

Migrantes de origem subsariana aguardam para serem retirados de embarcação na Grã Canária, Espanha

borja suarez/reuters

Também em 2020, um rapaz de 14 anos, de seu nome fictício Prince, ficou conhecido depois de o diário espanhol “El País” ter contado ao mundo a sua história. Fugiu de casa sem dizer nada à mãe e partiu com o sonho de ser advogado. Na Nigéria teria de deixar de estudar para começar a trabalhar. Entrar num buraco onde teria de coabitar com uma hélice de um navio pareceu-lhe um destino menos opressivo. Prince contou que havia mais pessoas com ele, num cubículo de dois metros quadrados. Dormiam em turnos, mas os conflitos eram constantes. "Eu estava com muito frio, estava com muito medo, pensei que fosse morrer. Não tínhamos comida e usei a escada para ir buscar água do mar com as mãos e poder beber", contou o adolescente através de uma videochamada a partir do centro juvenil onde esteve de quarentena na altura.

As Ilhas Canárias são uma porta de entrada cada vez mais frequente para migrantes africanos. Na rota do Mediterrâneo Central, há uma enorme possibilidade de que os barcos que saem da Líbia e da Tunísia sejam devolvidos a esses portos - e com eles as pessoas que tentaram escapar regressam a uma vida que é muitas vezes de servidão ou, mesmo, escravatura.

Dados do Governo espanhol mostram que as chegadas ao arquipélago aumentaram 59% nos primeiros cinco meses de 2022, em comparação com o ano anterior.

Em 2021, mais de 18.000 migrantes cruzaram a costa da África Ocidental em direção às Canárias, de acordo com a Cruz Vermelha. Desde 2014, 2.976 migrantes morreram ou estão desaparecidos depois de tentarem cruzar de África para o arquipélago por mar, de acordo com a Organização Internacional para as Migrações.

Chegada de migrantes de origem subsaariana e magrebina às Ilhas Canárias

Chegada de migrantes de origem subsaariana e magrebina às Ilhas Canárias

europa press news

Txema Santana, jornalista e conselheiro de migração do governo das Ilhas Canárias, escreveu na mesma rede social que "não é o primeiro e não será o último" e que “os migrantes nem sempre têm a mesma sorte". Este ano, em apenas quatro meses, as equipas de salvamento marítimo tiveram de intervir cinco vezes para retirar 20 pessoas do leme de enormes cargueiros. Em 2019 não tinha sido registado qualquer caso.

"Estas pessoas sobem quando os navios estão vazios porque o casco fica menos submerso. Normalmente, os petroleiros voltam a Lagos menos pesados, porque descarregaram o combustível refinado na Europa. É uma aventura perigosa que muitas vezes acaba mal ", afirmou ao jornal “El País”, por altura do caso com o jovem “Prince”, o chefe da Coordenação de Resgate de Las Palmas, Roberto Bastarreche.