Internacional

Luto leva milhares a aguardarem em fila para se despedirem de Gorbachov

3 setembro 2022 15:40

Salomé Fernandes

jornalista da secção internacional

epa/maxim shipenkov

Milhares de pessoas quiseram despedir-se este sábado do antigo líder soviético, Mikhail Gorbachov. Estiveram presentes figuras como Dmitry Medvedev, vice-chefe do Conselho de Segurança da Rússia, e o primeiro-ministro húngaro Viktor Órban. A homenagem não contou com a presença do Presidente russo Vladimir Putin

3 setembro 2022 15:40

Salomé Fernandes

jornalista da secção internacional

As imagens que chegaram de Moscovo este sábado mostram milhares de pessoas em filas perto da Salão dos Pilares da Casa dos Sindicatos, o local icónico escolhido para o funeral de Mikhail Gorbachov, algumas delas com cravos nas mãos. A despedida pública do antigo líder soviético durou cerca de três horas e meia e de acordo com a CNN internacional, nem todos puderam dizer adeus: cerimónia terminou apesar de ainda haver pessoas no exterior à espera para prestarem homenagem.

O ‘The Guardian’ descreve que houve forte presença policial no centro de Moscovo, com polícia armada e veículos blindados.

O funeral de caixão aberto teve uma guarda de honra de dois membros do regimento de elite do Kremlin, descreveu a Reuters, acrescentando que a filha de Gorbachev, Irina, estava presente com as suas duas filhas e amigos próximos da família.

A fazer o luto estavam também vários jovens russos, nascidos já depois do colapso da União Soviética. “Sim, ele fez alguns erros sócio-económicos sérios, mas isso não é nada comparado ao que ele fez pela liberdade de imprensa e pelas relações internacionais. Coisas como a queda do muro de Berlim”, disse Oleg, de 22 anos, à Reuters.

O historiador russo Andrey Zubov mostrou-se desapontado com o volume de pessoas que se foi despedir de Gorbachov, observando que “não é muito” terem aparecido milhares de pessoas para “honrar uma pessoa que nos deu liberdade”. E traçou uma comparação com o funeral de Estaline, em 1953: “centenas de milhares de pessoas apareceram e algumas morreram num esmagamento”.

Conhecido por ter derrubado a Cortina de Ferro, Gorbatchov deixou um legado que divide opiniões. Lembrado em todo o mundo pelo seu papel na transição pacífica pós-guerra fria, era visto por muitos, no seu país, como responsável pelo colapso económico soviético.

Gorbachev morreu na terça-feira aos 91 anos e foi enterrado no cemitério Novodevichy de Moscovo ao lado da sua mulher, Raísa.

Putin ausente

Quem marcou pela ausência foi o Presidente da Rússia, Vladimir Putin. O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, já tinha explicado que Putin não estaria presente devido à sua agenda de trabalho, mas que a cerimónia contaria com uma guarda de honra. Na quinta-feira Putin prestou homenagem no hospital de Moscovo onde Gorbachov faleceu.

epa | ekaterina shtukina/sputnik/kremlin pool / pool

O Salão dos Pilares da Casa dos Sindicatos foi usado desde os tempos soviéticos para funerais de Estado, mas a cerimónia não contou com esse título, que implicaria a presença de Putin e convites a líderes estrangeiros para marcarem presença.

A ausência de convites não impediu a presença de representantes internacionais. Viktor Orbán, esteve presente no funeral e pousou flores sobre o caixão de Gorbachov. Apesar da deslocação a Moscovo, o primeiro-ministro nacionalista húngaro, que tem sido uma voz dissonante dentro da União Europeia nas medidas tomadas contra a Rússia, não tinha encontro marcado com Putin. “Tanto quanto sabemos, só vai voar para dizer adeus a Gorbachev. Não houve vontade para reuniões”, disse o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, à agência RIA Novosti, citado pelo jornal ‘The Guardian’.

O embaixador dos Estados Unidos para a Rússia, John Sullivan, e a embaixadora do Reino Unido para a Rússia, Deborah Bronnert, também estiveram presentes. As cerimónias fúnebres também contaram com a presença de Dmitry Medvedev, vice-chefe do Conselho de Segurança da Rússia, presidido por Putin e presidente da Rússia entre 2008-2012.

Putin, que chegou a lamentar o colapso da União Soviética como "a maior catástrofe geopolítica do século", evitou críticas pessoais explícitas a Gorbachev, mas culpou-o repetidamente por não conseguir obter compromissos escritos do Ocidente que excluíssem a expansão da NATO para leste.

A questão tem prejudicado as relações Rússia-Oeste durante décadas e fomentado tensões que explodiram este ano, quando o líder russo enviou tropas para a Ucrânia em 24 de fevereiro.

Numa carta de condolências, Putin descreveu Gorbachev como um homem que deixou "um enorme impacto no curso da história mundial": "Ele percebeu profundamente que eram necessárias reformas e tentou oferecer as suas soluções para os problemas agudos", disse Putin citado pela AP.

A cerimónia fúnebre de Gorbachev contrastou com um funeral de Estado de 2007 dado a Boris Ieltsin, o primeiro líder russo pós-soviético e que preparou o palco para Putin ganhar a presidência ao renunciar ao cargo.