Internacional

1931-2022. Mikhail Gorbatchov

3 setembro 2022 8:18

antónio

Último líder da União Soviética, responsável pelo fim da Guerra Fria, morreu aos 91 anos

3 setembro 2022 8:18

A mancha na testa com que nasceu e morreu, e que no folclore russo é tida por sinal do demo, poderá ter sido, afinal, signo e marca do arcanjo que lhe deu o nome e o amparou numa vida tirada a ferros, contra todas as probabilidades. Quando nasceu, a 2 de Março de 1931, numa aldeiazinha ignota e remota chamada Privolnoye, a 150 quilómetros de Stavropol, Cáucaso do Norte, os pais chamaram-lhe Viktor, talvez evocando o triunfo de Estaline no primeiro plano quinquenal então em curso, mas, a instâncias da mãe e da avó, seria baptizado secretamente pelo avô paterno com o nome de Mikhail, já na Bíblia celebrado como “o grande príncipe que se levanta a favor dos filhos do povo” (Daniel 12:1). Contudo, e por maior que tenha sido a protecção angélica, nenhum dos seus feitos subsequentes teria sido possível sem um facto bem mais prosaico e terreno, literalmente terreno, a horta do avô Andrei, onde este havia enxertado macieiras de vária ordem, vermelhas e verdes, e que proveu à família o sustento necessário a enfrentar a miséria reinante, à época funda e aguda. Não por acaso, a primeira memória de infância do futuro líder da União das Repúblicas Socialistas eram as barrigas brancas das rãs que o avô cozia num grande caldeirão para alimentar a sua vasta prole de seis filhos — dois rapazes, quatro raparigas, ou seja, poucos braços-machos — e Mikhail lembrava-se também de que ele e um tio matavam a fome devorando avidamente as sementes destinadas ao plantio. Os dois avôs tinham combatido na I Guerra Mundial — Andrei, o paterno, a Ocidente, e Pantelei, o materno, oriundo de uma família ucraniana da mais extrema pobreza, na frente turca — e, depois, seriam ambos presos durante o terror estalinista, Pantelei em 1934, Andrei em 1937. Além de espancamentos brutais e indescritíveis torturas, Pantelei seria inclusive condenado à morte, mas o procurador regional decidiu in extremis comutar a acusação de pertença a uma “organização secreta contra-revolucionária trotskista de direita” para o delito muito mais leve de “mau desempenho de cargo”.

Este é um artigo do semanário Expresso. Clique AQUI para continuar a ler.