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“Não deveríamos ter dado poder aos cientistas” durante a pandemia, diz Rishi Sunak, candidato à sucessão de Boris Johnson

25 agosto 2022 15:21

Rishi Sunak

stefan rousseau - pa images/getty images

O ex-ministro das Finanças, Rishi Sunak, agora concorrente ao cargo de líder dos conservadores britânicos e por isso de primeiro-ministro, deu uma entrevista explosiva à revista conservadora "Spectator". Diz que, nos dias mais imprevisíveis e exigentes da pandemia, os ministros não tiveram liberdade para expressar oposição às medidas restritivas que os especialistas desenharam. Estas políticas foram "baseadas em cenários horríficos" que "ninguém sabia como eram calculados"

25 agosto 2022 15:21

O ex-ministro das Finanças e agora concorrente ao cargo de chefe de Governo, Rishi Sunak, está a tentar chegar ao coração do eleitorado mais conservador apelando ao libertarianismo britânico. E, nos últimos anos, poucos temas têm sido capazes de galvanizar tanto os eleitores como as restrições impostas ao comércio e à circulação de pessoas com a pandemia de covid-19.

Na altura das restrições mais acentuadas, foi sobre Sunak que recaiu a responsabilidade de distribuir as ajudas aos vários negócios e empresas, alocar fundos para o layoff e repensar impostos que tiveram de aumentar para sustentar estes apoios.

De um lado estão os que consideram todo este dinheiro mal gasto e errada a decisão de fechar completamente quase todas as atividades económicas; do outro os que agradecem a Sunak não ter olhado ao dinheiro para tentar mitigar os efeitos da pandemia.

Agora, o candidato a líder dos conservadores (e por isso também à cadeira de primeiro-ministro) parece vir renegar, numa entrevista à revista conservadora “Spectator”, parte do seu compromisso com as medidas de controlo da pandemia. “Foi um erro dar poder aos cientistas”, disse, referindo-se principalmente ao painel SAGE (Scientific Advisory Group for Emergencies, o grupo de especialistas que, durante a pandemia, aconselhou o Governo sobre os passos a tomar para a tentar debelar).

As sondagens mostram que a sua oponente na corrida ao lugar de chefe de Governo, Liz Truss, ministra dos Negócios Estrangeiros, está bem posicionada para conseguir o lugar. A última, publicada há uma semana pela Sky News, confere-lhe 32 pontos de vantagem sobre o Sunak, uma diferença considerável, apesar de nos últimos meses já ter sido maior: 38 pontos.

Além disso, revelou também que nem o gabinete de ministros entendia muito bem como é que as decisões do Governo relacionadas com o reforço das medidas de contenção pandémica eram tomadas. “Ninguém falava do problema com as consultas em atraso no SNS, que se estavam a acumular enormemente, isto nunca foi parte da discussão. Quem escrevia os relatórios do SAGE escrevia também as políticas que toda a nação teria de seguir e ninguém, nem mesmo os membros do gabinete de ministros, sabia como é que se tinha chegado àquelas decisões”.

O artigo da “Spectator” em que aparecem as citações de Sunak refere que “as consequências [das decisões do Governo] ainda estão agora a ser conhecidas: loucura na marcação de exames, aumento da lista de espera do SNS, milhares de ‘mortes em excesso’ que não estão a ser explicadas, atrasos judiciais e caos económico”. E pergunta: “Será que tudo isto foi considerado, tido em conta, e mesmo assim os ministros decidiram valia a pena pagar o preço”.

As acusações, quase em tom de um denunciante de segredos governamentais, não são leves. Sunak disse à “Spectator” que as discussões sobre possíveis efeitos indesejáveis das medidas restritivas foram “banidas” e que as atas das reuniões com os tais especialistas eram editadas para remover “vozes dissidentes”. Segundo Sunak, as decisões do Governo basearam-se em “relatórios negros” e “cenários horríficos” que se tornariam realidade caso as medidas não fossem adotadas, mas nunca ficou claro “como é que estes cenários tão importantes tinham sido calculados”.

Na mesma entrevista, Sunak disse que, em dezembro de 2021, quando voltou da Califórnia para pressionar o primeiro-ministro a não reintroduzir restrições no Natal, Boris Johnson não o ouviu. “Eu simplesmente disse-lhe: 'isto não está certo'”. Não se demitiu mas garante ter usado “as mais fortes palavras possíveis” para tentar dissuadir o primeiro-ministro mas as suas ações - segundo a avaliação do próprio Sunak, a postura era vista em Downing Street como as de um homem que apenas estava preocupado com a liderança, a tentar mostrar-se “do contra”.

“Tivemos reuniões em que era apenas eu a contrapor argumentos. Foi sempre muito desconfortável”. O ex-ministro das Finanças garante não ter sido essa a sua mais premente preocupação, e sim a deterioração de alguns dos serviços públicos essenciais no país, nomeadamente na educação. “Acho que me comovi com o tema. Eu disse-lhes: ‘ok, esqueçam a economia, pelo menos podem concordar todos que as crianças não estarem na escola é um pesadelo?’ e depois toda a gente se calou e era a primeira vez que alguém tinha tocado no assunto. Fiquei furioso”.

Se realmente ficou furioso, pelo menos em público nunca se notou. Numa reação à entrevista de Sunak, um porta-voz de Downing Street citado pelo “The Guardian” parece querer mostrar precisamente isso: “A cada momento, os ministros tomaram decisões coletivas que tiveram em consideração um amplo espetro de conselhos provenientes de diferentes especialistas, com o objetivo de proteger a saúde pública”.